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«Todos ganham com um bom mercado de capitais»

Depois de ter feito um diagnóstico negro do mercado de capitais em 2001, António Borges admite que muito se avançou desde então, mas também que ainda há muito a fazer.

EXPRESSO - Como avalia a actual situação do mercado de capitais português?
António Borges - Com a adesão à União Económica e Monetária Portugal passou a ter concorrência a vários níveis, nomeadamente no capital. Hoje os aforradores podem investir em qualquer outro país da União Europeia sem risco de discriminação. A Bolsa portuguesa esteve quase a desaparecer: houve um grande afastamento dos investidores, visível na queda dos volumes de transacções, numa altura em que se verificou um ataque ao mercado, com a introdução de impostos sobre as mais-valias. Mas nos últimos anos houve um grande progresso, hoje há mais disciplina. A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) tem feito um bom trabalho, agindo contra os crimes de mercado, que são muito sérios porque colocam em causa a confiança dos investidores. Hoje há mais organização e os custos são mais baixos, o que foi possível com a entrada na Euronext.

EXP. - Em Maio de 2001 traçou um quadro negro: disse que a Bolsa portuguesa estava em extinção, por haver um esvaziamento rápido e inexorável e pela incapacidade para atrair investidores estrangeiros. Disse também que lhe faltava liquidez e racionalidade e que tinha uma reputação de ineficiência. Este cenário pertence ao passado?
A.B. - Na altura era esse o diagnóstico, mas hoje o mercado de capitais está melhor, passou por uma fase de reestruturação importante. É claro que ainda é preciso melhorar muita coisa: a nível de governo das sociedades, tornando-o mais amigável para os investidores estrangeiros. Continuamos a ter dificuldade em atraí-los, ainda há que melhorar em muito a nossa reputação. Mas houve casos de manipulação e de utilização de informação privilegiada que foram descobertos e julgados, o que trouxe transparência ao mercado. Tem de haver convergência não só a nível legislativo como também a nível de práticas externas. Por exemplo em Portugal existe um conselho fiscal, que tem as mesmas funções que as comissões de auditoria. Mas no exterior o nome é «comissão de auditoria». Nós ainda não adaptámos os sistemas de governação, de forma a torná-los mais compreensíveis lá fora.
Houve uma altura em que todas as empresas foram para a Bolsa, nos anos 80, o que permitiu uma expansão brutal da Bolsa. Nos anos 90 houve muita coisa que correu bem mas a partir de determinada altura começou a haver uma preocupação obsessiva pelo controlo. Entrou-se num mau momento na relação com os investidores, que passou pela existência de limitações nos direitos de voto e participações cruzadas. Foi uma forma de dificultar as tomadas hostis de controlo. Depois os mercados entraram num período grande de quedas. Quando recuperaram, era Portugal que não estava bem, e isso tem-se reflectido no facto de não haver empresas a ir para a Bolsa.

EXP. - As empresas portuguesas estão a perder o comboio das dispersões de capital?
A.B. - Pode dizer-se que sim. Estamos nos últimos lugares no que diz respeito a dispersões de capital. Vamos ter agora duas operações bastante importantes, a da REN e da Galp, que poderão estimular outras empresas a vir para a Bolsa. Temos boas empresas, que dão bons dividendos e depois temos um conjunto de pequenas empresas que são muito inovadoras, nomeadamente nas novas tecnologias. Era importante que viessem o mais rapidamente possível para a Bolsa. Há procura e espaço para essas ofertas. O evento da Euronext em Évora foi muito promissor desse ponto de vista, achei que as empresas que compareceram estão genuinamente interessadas em dispersar capital.

EXP. - Considera que faz sentido criar incentivos fiscais para as empresas irem para a Bolsa? Afinal são elas as mais beneficiadas…
A.B. - Penso que faz sentido. Toda a gente ganha se houver um bom mercado de capitais. Além de que se não houver mercado não pode haver economia de mercado.