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Todos diferentes, todos iguais

Sassetti, Laginha e Burmester voltam ao ataque. Um ano depois, o Grande Auditório do CCB acolhe os três pianistas para um concerto a seis mãos.

A Bernardo Sassetti, Mário Laginha e Pedro Burmester pode com justiça ser aplicado o lema "todos diferentes, todos iguais". Os três pianistas vão tornar comum aquilo que os distingue em dois concertos no Centro Cultural de Belém (CCB), a realizarem-se amanhã e quinta-feira, sempre às 21h. Nada que não tenham feito antes: o ano passado, no mesmo espaço, a reunião dos três nomes provocou uma enchente que deixou os próprios surpreendidos. Esta segunda experiência servirá para aprofundar a anterior e tem como principal desafio "encontrar uma linguagem partilhada" no meio da forte individualidade de cada um.

Tendo formação clássica, Laginha e Sassetti optaram pelo jazz, enquanto Burmester se manteve fiel à matriz erudita. O domínio do improviso, tão presente no jazz, é-lhe em certa medida estranho, habituado como está a depender de um texto, de uma partitura que impõe as regras à partida. Mas, diz Burmester, "no palco, permito-me um espaço grande de interpretação". Por isso, apesar de não estar habituado, o público poderá vê-lo improvisar ao longo dos concertos. E poderá ver um músico como Sassetti, que já em pequeno (para pesadelo dos seus professores) improvisava, tocar obras como as "Variações Goldberg" de Bach. Laginha, pela sua parte, move-se entre os dois universos: fez o curso superior de piano "para aperfeiçoar a técnica", o que lhe forneceu um sólido conhecimento da vertente clássica, mas escolheu o jazz – e não se arrepende. Há opções, porém, que mais vale não tentar explicar, sob pena de sacrificar a emoção. "Há músicos que se movimentam num universo de tal maneira abstracto que precisam de uma teoria para legitimarem algo que pode não ser grande coisa", diz Laginha, acrescentando que "o mais indispensável num ouvinte não é que não tenha raciocínio mas que se deixe emocionar". A emoção, essa, diz tudo, ainda que a do artista seja "uma emoção pensada", fruto por vezes "de uma análise fria e racional", contrapõe Burmester.

A vida deles resume-se às 88 teclas do piano. 88 teclas que, ao tocarem juntos, eles multiplicam por três. 264 para 30 dedos, seis mãos, uma única vontade. Tal como os livros "a música é uma forma de contar uma história", explica Sassetti, a quem lhe custa "pôr os pés na terra" no fim dos concertos. Aconteceu-lhe no ano passado, sabe que pode acontecer-lhe agora: "Sem falsas modéstias, tinha a sensação de estar a planar pelo palco", diz, já quase a levantar voo.