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"Tocar em público era um pesadelo"

Não foi músico porque tinha medo de tocar em público. Subir ao palco, só se fosse para discursar, enquanto jovem militante comunista. As confissões do ainda director do São Carlos, que se apaixonou por Lisboa e pela literatura portuguesa.

Paolo Pinamonti, 49 anos, italiano, licenciado em filosofia, doutorado em piano, celebrado director do Teatro Nacional de São Carlos (TNSC). Termina hoje o contrato que o ligou durante seis anos ao único teatro de ópera português. Despedido por carta do Ministério da Cultura, aceitou continuar a trabalhar até ao fim da temporada. Ainda não foi embora, mas diz que já tem saudades.

Licenciou-se em filosofia, tem o curso de piano e de composição. Mas nunca foi filósofo, nem pianista, nem compositor. Explique-nos este percurso tão pouco linear.
Eu gosto deste papel de Hans Sachs, como nos «Mestres Cantores de Nuremberga» [personagem da ópera de Wagner que é sapateiro, poeta e músico]. Para os meus colegas que fazem sapatos, sou músico; para os meus colegas músicos, sou alguém que sabe fazer sapatos. Não é uma questão de polivalência… ainda não decidi o que quero ser quando for crescido! [risos] O meu percurso foi curioso, eu tive dúvidas entre escolher filosofia ou física… Nos meus anos de formação, no pós-68 em Itália, a filosofia era muito apelativa. Eram anos em que se acreditava – e eu ainda acredito – que a responsabilidade pública é criar condições para uma vida melhor (e não digo mais justa para não entrar por um caminho ético que poderia ser demasiado acidentado).

Vamos sempre dar à política…
Pois, é o meu calcanhar de Aquiles… Escolhi a filosofia, mas também gostava muito de música, em especial de música contemporânea, então o meu discurso filosófico era de tipo estético-musical.

Foi assim que chegou ao mundo da ópera?
Eu tive a sorte de conhecer um professor na Universidade de Veneza que tinha este sentido polivalente, porque antes de ser professor de musicologia era doutorado em medicina (um óptimo médico, ainda agora, quando tenho um problema, procuro sempre o seu conselho). Ele lançou-me neste tipo de trabalho de uma maneira curiosa: o La Fenice precisava de alguém que resolvesse um problema de edição de uma opereta («A Bela Galatea», de Franz von Suppé), e ligaram-lhe. Ele deu os números de telefone de três pessoas que conhecia, e a secretária do director artístico do La Fenice marcou o meu número antes dos outros dois. Foi assim que cheguei a este mundo em 1986, tinha 26 anos. Alguém marcou o meu número de telefone antes de outros dois. Gostaram do meu trabalho – resolvi o problema numa semana – e convidaram-me para ficar como responsável pelo arquivo musical do La Fenice.

Acredita no destino?
Não. Porquê?

Um telefonema que lhe muda a vida, que o trás para a ópera…
Ah!... Mas também foi um telefonema que me afastou… [risos]

Antes desse telefonema o que é que fazia?
Dava aulas de História da Música no Conservatório, já tinha acabado o curso de piano e estava no sétimo ano do curso de composição. E pensava que ia dar aulas, fazer reflexões sobre música… Sabe, há um ditado em Itália que é irónico em relação a mim, que diz: quando alguém que estuda música não consegue tocar, vai ensinar história da música; e se não ensina história da música, vai para director artístico.

Porque é que não foi músico?
Por um lado emocional. Eu tinha muito medo de tocar em público. Tive que tocar, claro, mas a tensão fez-me perceber que eu não podia ser músico. Lembro-me quando tinha dez, doze, treze anos, quando havia os concertos de fim de ano, subia ao palco do pequeno teatro do lugar onde eu vivia, olhava a sala cheia, o medo que eu tinha!

Tocar era um acto privado?
Sim, primeiro era um acto privado. Depois, talvez fosse também a má consciência de não ser um grande estudante, pois não passava horas e horas a praticar ao piano. Por isso, chegava com uma preparação, que para mim era suficiente, pois eu gostava de tocar assim, mas que não me deixava seguro para tocar em público. Tinha medo de falhar. Na música um erro não se pode reparar – se se falha, falha. Não era o medo do público, porque falar em público, eu falava. Tinha essa costela política, de orador.

Fale-nos dessa costela política da sua juventude.
Estamos a falar da Itália, anos 70, a política era efervescente. Foram os chamados anos de chumbo, com o terrorismo nascente e o extremismo de esquerda. Eu tinha uma sensibilidade de esquerda e aderi à Federação Juvenil Comunista Italiana, que na altura tinha como secretário Massimo D’Alema, actual ministro dos Negócios Estrangeiros de Itália. Nessa altura, no Veneto, todos os movimentos juvenis eram de extrema-esquerda, e eu era um perigoso moderado, adepto do compromisso histórico. Os meus políticos de referência eram Giorgio Amendola e Enrico Berlinguer, que eram muito críticos do Partido Comunista Português.

Discutiam o PCP?
Sim, sim. Era a fase em que se discutia muito o eurocomunismo. Lembro-me que olhávamos para o estalinismo do PCP com um olhar muito crítico. Eram os anos do compromisso histórico, não se pensava mais num modelo de tipo estalinista.

A sua militância concretizou-se como? Chegava ao confronto físico?
Tive alguma actividade nos últimos dois ou três anos do liceu, depois deixei a Federação quando fui para a universidade. Confronto físico não era o meu forte, para além de que nunca gostei desse tipo de postura. Eu era moderado, preferia o diálogo. Foram anos de formação importantes. Fiz pequenos discursos políticos, e nunca sofri com isso como quando tinha que tocar em público. Na mesma sala onde eu devia tocar, cheguei a discursar para defender a redução dos custos dos transportes públicos para os estudantes. Tocar é que era um pesadelo!

E continuou a ser um pesadelo?
Sim. No início dos anos 80, antes de ensinar História da Música, eu comecei a dar aulas de piano numa escola da câmara municipal. Quando havia os concertos de fim de curso, os professores tinham que acompanhar os jovens alunos, e eu tinha medo de acompanhar coisas que eram de uma simplicidade vergonhosa! E naturalmente, como professor, transmitia esse nervosismo aos alunos, coitados.

Quando é que começou a aprender piano?
Com nove anos.

Os seus pais tinham alguma ligação à música?
Sim. O meu pai gostava muito de música e havia uma grande discoteca em nossa casa.

O que é que se ouvia em casa dos seus pais?
Essencialmente música instrumental, música de câmara, pouca ópera. Daí o meu interesse pelos quartetos de cordas e música contemporânea.

Onde é que cresceu?
Eu vivia em Cortina d'Ampezzo (na região do Veneto, a Norte de Itália), uma pequena e bonita aldeia turística, mas onde não havia vida cultural. Nada. Então o meu pai queria sair, fugir daquela gaiola dourada. Era um lugar muito bonito, onde se fazia esqui, recebeu as Olimpíadas de Inverno em 1956, era muito frequentado pelo jet-set, [a actriz] Jennifer Jones ia lá fazer férias. Mas era um mundo um pouco falso.

O que faziam os seus pais?
Eram ambos médicos.

E perceberam em si algum talento musical?
Não sei. Eles queriam só oferecer-me a possibilidade de estudar música. Em Cortina não havia essa hipótese, podia-se arranjar um bom professor de esqui, mas não um professor de música. Quando os meus pais se mudaram para Vicenza, eu tinha nove anos, inscreveram-me no conservatório.

Tem um piano em casa? Toca?
Sim. Neste último período tenho tocado muito.

Toca só para si, nunca toca para os seus amigos ou convidados?
Só para mim.

O que é que toca?
Toco o que já toquei antes, o que estudei, algumas sonatas de Beethoven… Neste momento toco sobretudo Bach – transcrições de Busoni, prelúdios corais, o «Cravo Bem Temperado».

O que é que adorava tocar? Qual é o Everest que gostaria de subir?
Aquilo que eu gostava de tocar – mas tocar bem – é o Opus 111 de Beethoven. E gostava de voltar a tocar como já toquei (e não toquei mal) o «Carnaval» de Schumann. Há algumas páginas do «Carnaval» que já não consigo tocar.

Qual foi a primeira ópera a que assistiu?
«Il Trovatore». Gostei, mas não fiquei particularmente impressionado, confesso. Era uma encenação escura, eu era estudante, tinha comprado bilhete para o “galinheiro”, não via bem…

Que idade tinha?
Tinha vinte e poucos anos. Não havia ópera em Vicenza, por isso só vi ópera quando estava em Veneza, na universidade. Foi uma lenta aproximação à ópera, quando já conhecia todos os quartetos de Bartok, os quartetos de Beethoven. A ópera foi a última coisa de que aproximei.

Alguma vez compôs?
Não. Fiz esse curso como uma necessidade cognitiva, como a filosofia. Queira conhecer melhor a música, entrar no mecanismo compositivo. Cheguei a escrever uma fuga, no sétimo ano. Mas quando tentei compor, havia uma aproximação que não era emotiva, era sempre intelectual. A única coisa que escrevi foi, por volta de 1974, depois de ter lido por minha conta «Análise e Prática Musical» do Arnold Schönberg. Li sobre o sistema dodecafónico e decidi pôr em prática, com uma peça para flauta, tenor e piano. Ainda pensei que a ia gravar, com um gravador que tinha em casa, mas nunca a gravei.

Gostaria de encenar uma ópera?
Não. Não tenho jeito para essas coisas.

Tentou incutir o gosto pela música aos seus filhos? O que é que lhes dava a ouvir?
Eu ofereci-lhes a possibilidade de estudar música. Começaram e depois pediram-me para deixar. Ouviam o mesmo que eu… e se calhar a presença dos meus filhos também modificou o meu próprio gosto. Eu lembro-me que uma vez trouxe para casa uma gravação de «La Bohème», a minha filha devia ter uns quatro anos e quis ouvir. Depois perguntou-me quem eram as personagens, e eu disse-lhe: a Mimi, o Rodolfo, a Museta, o Marcello. E ela disse-me ‘Papá, há também a Lucia’. Lucia? Não, disse-lhe, estás a confundir. E ela disse: ‘Mi chiamano Mimì/ Ma il mio nome è Lucia.’ Eu, que já tinha ouvido tantas vezes Mimi, nunca tinha ouvido Lucia. E comecei a ouvir a ópera com mais atenção. É engraçado que isto modificou a minha maneira de ouvir a ópera, fez-me perceber que nunca se ouve tudo.

Quais são as outras artes pelas quais se interessa?
Um pouco de tudo. Interesso-me muito por pintura, por cinema, literatura…

O que é que está a ler agora?
Leio muitos livros ao mesmo tempo. Agora estou a ler a Anna Politkovskaia – os escritos sobre a Rússia de Putin –, estou a ler um da Isabel Allende (nunca a tinha lido e que estou a achar muito relaxante), e também «Underworld», do Don Delillo.

Há um livro da sua vida?
Há muitos que me marcaram. «Crime e Castigo» de Dostoievski, que li há muito tempo, «Os Miseráveis» de Vítor Hugo, que li mais recentemente… São muitos.

E há uma ópera da sua vida?
Não. Mas há uma encenação: «Boris Godonov», pelo [Herbert] Wernike, que eu vi em Salzburgo. Abriu-me uma maneira diferente de olhar para as encenações. Não era simplesmente um bom espectáculo, agradável, bem conseguido, bem feito. Era também um acto político.

Qual é a sua resposta para a velha questão de escolher um disco para uma ilha deserta?
Mas eu não queria ir para uma ilha deserta! Por isso é que eu não sou turista. Quando me falam nas Caraíbas, em ilhas desertas, tudo muito bonito, mas ao fim de dois dias, o que fazemos? Eu prefiro estar rodeado de homens e mulheres e viver no mundo.

A pergunta só vale aceitando a premissa. Que disco levaria?
Talvez a ópera toda de Mozart. Eu sei que são vários discos, mas podemos entender como uma obra… E estamos a falar de uma ilha deserta!... Ou então a obra toda para cravo de Bach.

Quando voltar a Itália, se lhe aparecer pela frente alguém que não conheça nada de cultura portuguesa, o que é que recomenda?
A grande literatura que descobri cá. Quando estava em Itália só conhecia Lobo Antunes e Saramago. Aqui, descobri Eça de Queiroz, Mário de Carvalho, Eduardo Lourenço… E também a tradição poética que eu não conhecia. A poesia contemporânea portuguesa é muito mais interessante que a italiana. A literatura portuguesa foi uma grande e feliz descoberta.

Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 31 de Março de 2007, Única, página 78 e segs.