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Teoria (e prática) do caos no Hospital Central de Faro

Médicos demissionários denunciam novo "caos" nas urgências, após investimento avultado para melhorar condições de atendimento. Administração reconhece que há falta de pessoal, mas diz que a culpa é da idade... dos utentes.

Mário Lino, correspondente no Algarve





"Nós vimos à comunicação social denunciar as situações, mas é só quando nos salta a tampa! De resto, constantemente temos avisado os responsáveis sobre esta situação", reclama Armindo Figueiredo, um dos 19 médicos demissionários do Hospital Central de Faro, que se demitiu há mais de um ano. "No próximo domingo, por exemplo, estou sozinho à noite (no S.O. - Serviço de Observação) numa escala assinada pela direcção clínica, estão riscos no sítio onde deveriam estar pessoas, e no outro domingo estão 3 médicos e deveriam estar 6", critica.



Apesar do investimento "pesado" de um milhão de euros num novo Serviço de Observação do Hospital Central de Faro, com 800 metros quadrados, a situação de sobrelotação das urgências, pela qual Faro é sobejamente conhecido, não parece ter diminuído. "Chegam a existir 70 doentes no S.O., muitos ficam ali cerca de uma semana, alguns em macas com colchões miseráveis que ajudam a abrir escaras em pessoas desnutridas", lamenta o clínico, que desde o início tem sido o porta-voz dos médicos demissionários. Para além da melhoria dos circuitos na urgência, há também um problema grave de falta de recursos humanos: "Este ano saíram seis chefes de equipa e nove internistas do Hospital.

Quanto mais degradadas forem as condições de trabalho, menos aliciante será vir para aqui", denuncia o médico, alertando para "bancos" de 72 horas nas urgências. "Não queremos que os nossos médicos façam 72 horas de banco. Eu não sei, se pontualmente, alguém fez nalgum momento 72 horas por semana. Admito que sim", disse hoje à agência Lusa Helena Gomes, directora clínica do Hospital. Mas a falta de pessoal médico é algo que, aliás, a administração do hospital não esconde.

"Nós fizemos um concurso externo para admissão de internos, mas não houve resposta. Por isso decidimos abrir vagas para as especialidades médicas para reforçar as equipas. Vamos tentar organizar escalas com médicos das especialidades e alguns já se ofereceram", afirma ao Expresso a presidente do HCF.

Contudo, a visão sobre o "entupimento" das urgências, um milhão de euros depois, é substancialmente diferente: "Há muitos doentes idosos, é cíclico. São doentes mais complexos, com pluripatologias e nem sempre têm alta. Pode haver momentos em que haja um conjunto de utentes nos serviços superior ao que desejaríamos, mas 800 metros quadrados fazem a diferença", garante.

Esta tarde, foi a própria Ministra da Saúde quem saiu em defesa do Conselho de Administração do Hospital Central de Faro: "Não tenho conhecimento de que haja o caos no Hospital de Faro. Estamos em plena época de Inverno, em que a procura das urgências é maior", afirmou Ana Jorge, que falava na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, à margem da cerimónia de divulgação de um programa doutoral.

"Os doentes estão a ser atendidos, e não num tempo de espera que ultrapasse aquilo que é razoável", afirmou, considerando "altamente positivo" o facto de a área do serviço de urgência ter melhorado.