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Tecnologia de Paços de Ferreira veste campeões

O novo fato de natação que somou 35 recordes mundiais em três meses é fabricado em Portugal, na Petratex, uma unidade têxtil de Paços de Ferreira.

"É o resultado de três anos de trabalho e de um processo de desenvolvimento no qual colaboramos com a Speedo, a Nasa (Agência Espacial norte-americana) e o Instituto Australiano de Desporto", explica Sérgio Neto, sócio-gerente da têxtil.

Apresentado como "o fato de natação mais rápido do mundo", o LZR é confeccionado sem costuras, com tecnologia "Nosew", patenteada em Portugal.

Para isso, um dos trabalhos de casa da equipa de Paços de Ferreira foi a criação de máquinas de costura especiais, que funcionam através de ultra-sons.

No entanto, a etiqueta "Made in Portugal, Fabriqué au Portugal" foi uma descoberta surpreendente para Sara Oliveira, a primeira e única nadadora portuguesa a experimentar o LZR da Speedo e a registar um recorde nacional com o fato, no campeonato do mundo de natação, em Manchester.

Foi, também, uma descoberta acidental. Sara estava em casa, a tentar ler a etiqueta para perceber de que material era feito o equipamento utilizado nas melhores marcas mundiais registadas desde Janeiro quando percebeu que tinha nas mãos um produto industrial português.

Em Abril, durante os mundiais, quando começou a desejar ter, também, um dos fatos mais usados em todas as meias-finais e finais do evento, nunca imaginou que o fabricante estivesse a 30 km de casa. "Limitava-me a vê-los passar, em especial no departamento de fisioterapia e massagens dos Estados Unidos, que ficava mesmo ao lado do português e onde havia malas cheias de LZR", recorda.

Na verdade, Sara e o seu treinador, José Silva, tiveram até muita dificuldade em conseguir o equipamento. Só nos mundiais de Manchester, depois de muitos contactos e da intervenção de alguns amigos da equipa brasileira, conseguiram convencer a Speedo a ceder um fato à nadadora olímpica do FC Porto, patrocinada pela própria marca.

Quando experimentou o LZR, Sara fixou um recorde nacional

Quando experimentou o LZR, Sara fixou um recorde nacional

Ricardo Meireles

O resultado parece justificar o esforço: nos mundiais de Manchester, em piscina curta, no dia em que experimentou pela primeira vez o LZR, Sara fixou o recorde nacional dos 100 metros mariposa nos 58,42 segundos e, na primeira metade da prova, à passagem dos 50 metros, bateu, também, o recorde na distância, com o tempo de 27,25 segundos. Melhorou assim em 40 centésimos o recorde dos 50 metros que ela própria tinha fixado nos 27,65 segundos dois dias antes, ainda com o fato antigo.

"Bater um recorde à passagem é um acontecimento singular. Na prática, é algo como bater um recorde dos mil metros ao correr os 10 mil metros", comenta João Paulo Villas-Boas, ex-treinador de Sara e professor de Biomecânica na Faculdade de Ciências do Desporto da Universidade do Porto onde a nadadora é, também, sua aluna.

Empenhado em estudar as características do fato, à procura de encontrar evidências científicas de que a estrutura, confecção e o material usados no LZR contribuem para a obtenção de ganhos biomecânicos, João Paulo Villas-Boas considera, no entanto, que haverá, também, algum efeito psicológico.

O treinador de Sara é da mesma opinião, até porque em Manchester viu muitos fatos "e nenhum andava sozinho". A própria nadadora, admite que o simples facto de ter este equipamento lhe deu mais confiança: "Senti-me finalmente em igualdade de circunstâncias com as minhas adversárias", conta.

Mesmo assim, depois de Manchester só vestiu o fato mais uma vez, para os primeiros testes de biomecânica e umas fotografias. Nessa altura decidiu guarda-lo e protege-lo até aos Jogos Olímpicos de Pequim. Só aí, em Agosto, é que voltará a vestir o LZR. Tudo "para garantir que o fato não vai perder nenhuma das suas características", diz.

Na verdade, Sara ainda tentou que a Speedo lhe fornecesse outro equipamento, mas percebeu rapidamente que não teria qualquer hipótese.

O fato dos recordes, com um preço fixado no site da empresa britânica nas 320 libras (€400), está a ser apenas fornecido apenas aos melhores nadadores e às selecções patrocinadas pela marca. Só depois dos Jogos Olímpicos, em Setembro, é que o equipamento ficará acessível ao público.

Durante três anos, técnicos de todo o mundo visitaram a Petratex, em Paços de Ferreira, para trabalhar com a têxtil portuguesa no desenvolvimento do LZR Racer, um fato criado com base numa tecnologia de confecção sem costuras patenteada em Portugal.

"Era frequente mostrarem-se surpreendidos com o que encontravam. Às vezes, os técnicos da Speedo até confessavam que tinham vindo com alguma desconfiança quanto à tecnologia portuguesa", conta Sérgio Neto, sócio-gerente da empresa.

Nos próximos tempos, as visitas vão continuar porque a empresa está já a colaborar com a Speedo na segunda geração deste fato, para as olimpíadas de Londres, em 2012.

Mas sigilo e reserva total são o lema da empresa de Paços de Ferreira sobre este assunto. Para guardar o segredo industrial que envolve a confecção do equipamento de natação, a empresa fechou mesmo uma parte da sua área industrial, protegendo a confecção do LZR de olhares curiosos.

Tudo começou com um contacto da Speedo para Paços de Ferreira, a tentar explorar a possibilidade de utilizar a tecnologia "Nosew" nos novos fatos de natação que a marca queria desenvolver para substituir o anterior modelo "Fastskin" nas Olimpíadas de Pequim.

Este processo de confecção sem costuras, por colagem, com patente registada, já tinha feito sucesso quando foi apresentado numa feira nos Estados Unidos, onde mereceu até uma reportagem da CNN.

A colaboração da empresa no desenvolvimento do LZR, apresentado como um fato que permite reduzir entre 5 a 10% as fricções dentro de água, contra os 4% garantidos pela versão anterior, mereceu mesmo mensagens de nadadores como Michael Phelps, o norte-americano que deseja bater em Pequim o recorde de sete medalhas de ouro conquistadas por Mark Spitz, e o australiano Grant Hackett, campeão olímpico dos 1.500 metros livres.

Habituada a trabalhar com marcas como a Nike e a Adidas, e no desenvolvimento de produtos específicos com alta performance para surf, atletismo, natação, alpinismo, ciclismo e râguebi a Petratex tem no segmento do vestuário desportivo 30% do seu volume de negócios.

A outra fatia das vendas de €38 milhões está na fileira da moda, com o trabalho para marcas como a Dior, Escada, Dolce & Gabbana e Prada, e nos têxteis tecnológicos.

A unidade, que tem como accionista o antigo presidente do Vitória de Guimarães, integra um grupo industrial que emprega mais de mil pessoas e fábricas em Portugal e na Tunísia.

Outro projecto em que colaborou foi no desenvolvimento do Vital Jacket, uma criação da IEETA, unidade de investigação da Universidade de Aveiro. É um sistema que combina tecnologia têxtil e micro-electrónica para avaliar funções vitais do utilizador, capaz de adquirir, armazenar e analisar sinais fisiológicos como a frequência cardíaca.

Dentro do seu LZR, Sara Oliveira sente-se com "pele de golfinho" e "mais deslizante".

É assim que a nadadora olímpica do FC Porto explica a sensação de vestir um dos equipamentos desportivos mais mediáticos dos últimos tempos, já com estatuto de estrela garantido para os Jogos Olímpicos de Pequim.

"Fico mais leve, deslizo melhor e parece que me canso menos. A compressão muscular aumenta e o diâmetro do corpo reduz", explica a nadadora olímpica, protagonista e co-autora de um estudo que procura avaliar cientificamente o real impacto do fato no desempenho dos atletas.

Os 35 recordes batidos em menos de três meses são apenas a confirmação de que as marcas melhoram em ano de Olimpíadas? O novo fato tem um mero efeito a nível psicológico nos atletas? Ou permite realmente cortar alguns centésimos de segundos nas suas provas, com ganhos biomecânicos?

É para responder a estas perguntas que Sara, João Paulo Villas-Boas, professor de Biomecânica na Faculdade de Ciências do Desporto da Universidade do Porto, e Mário Vaz, do laboratório de óptica e mecânica experimental do INEGI - Instituto de Engenharia Mêcanica e Gestão Industrial, estão a estudar o fato da Speedo.

João Paulo, antigo treinador de Sara e vice-presidente da Federação Portuguesa de Natação, justifica o seu interessa referindo as características da própria nadadora: "Se o uso do facto teve realmente impacto nos resultados obtidos pela Sara, uma nadadora com um grande apuro técnico, deverá ter um efeito muito maior nas nadadoras com menos apuro técnico e com mais vantagens morfológicas", comenta.

Mas esta é uma matéria que carece de validação científica e suscita muita polémica, em especial entre as marcas concorrentes, também a desenvolver novos fatos para responder ao LZR em Pequim.

Para já, o que esta equipa portuense pretende fazer é medir a influência real do fato na modificação do corpo da Sara. Para isso, o seu corpo está a ser transformado em números, através de uma técnica desenvolvida no INEGI para modelar imagens médicas.

O impacto directo do fato na flutuabilidade da nadadora e a força que a água opõe à sua deslocação serão, também avaliados. Um dos contributos para este trabalho vem do método matemático da dinâmica inversa.

Na apresentação do seu equipamento, a Speedo explica que repele a água, optimiza a postura dos nadadores, diminui o arrasto (resistência à água) e comprime as massas oscilantes do corpo, na zona das coxas, peito e barriga.

Se ficar cientificamente provado que o fato diminui o arrasto, pode surgir um novo problema. As regras da Federação Internacional de Natação são claras ao proibir os nadadores de usar equipamentos que aumentem a sua flutuabilidade e diminuam o arrasto de forma artificial.

Mas é uma norma que poderá ser contestada já que, como refere João Paulo Villas-Boas, "há outra regra a afirmar que os equipamentos não podem ofender a moral e os bons costumes e, desde 1975, sabe-se que o arrasto aumenta quando as senhoras estão despidas, ou seja, o simples uso de fato de banho já diminui o arrasto".

Versão integral do texto publicado na edição do Expresso de 24 de Maio de 2008, 1.º Caderno, página 27.