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«Situação hoje é desesperante»

O Convento do Espinheiro, em Évora, foi palco de um encontro entre a Bolsa portuguesa e 24 empresas vistas como potenciais candidatas a dispersar capital. Miguel Athayde Marques, presidente da Euronext Lisbon, faz um balanço positivo da iniciativa e diz que a hipótese de aumento de custos para as empresas cotadas está a ser «empolada».

EXPRESSO – Como correu o diálogo com as empresas?
MIGUEL ATHAYDE MARQUES - Foi possível criar um ambiente que facilitou a troca de impressões. O contacto com as empresas não é de agora, pois há já algum tempo que fazemos reuniões individuais com as empresas e alguns inquéritos. Convidámos várias empresas e só estiveram as que quiseram estar, algumas de grande dimensão mas também outras mais pequenas, da área tecnológica. Foi uma troca de ideias muito interessante.

EXP. – E quais foram as conclusões?
M.A.M. - O evento foi muito focado nas vantagens de estar na Bolsa e de que forma é que essa decisão pode alterar a capacidade das empresas de crescer. Estar cotado facilita o crescimento por aquisições, na medida em que as acções são muitas vezes uma moeda de troca para os movimentos de concentração. Uma das questões levantadas diz respeito às empresas familiares e à possibilidade de perda de controlo, que é muitas vezes exagerada, pois há muitas empresas que têm disperso até 49% do capital e há mesmo os casos, em empresas de grande dimensão, em que o controlo é conseguido apenas com 3%. Ficou também claro que estar na Bolsa facilita a resolução dos problemas de sucessão dentro das empresas. E há ainda a ideia de que a informação que as empresas têm de prestar é estratégica e pode ser utilizada pelos concorrentes. Mas a informação prestada é essencialmente de carácter financeiro.

EXP. - Sendo que o Governo está a estudar a criação de incentivos fiscais para estimular a entrada em Bolsa, o aumento dos custos sobre as empresas que está a ser estudado pela Euronext - para admissão e manutenção no mercado – não poderá pôr em causa esse esforço de revitalização do mercado?
M.A.M. – A questão dos custos de estar na Bolsa está a ser empolada. Em primeiro lugar é preciso ver que os custos do endividamento das empresas podem estar a aumentar por via da subida das taxas de juro. Depois, a banca tem de passar a ter critérios mais rigorosos de atribuição de crédito por via das regras de Basileia 2, o que vai ter influência nas pequenas e médias empresas. Em qualquer parte do mundo há custos para as empresas entrarem e se manterem em Bolsa. A questão que se coloca é que temos, em Portugal, que alinhar com a estrutura de mercado da Euronext, pois hoje em dia há uma lista única para todas as empresas. Isso implica que seja necessário adoptar as mesmas regras e o mesmo preçário dos outros mercados da Euronext pois a manter-se a actual situação continuaríamos perante uma situação de distorção. Houve um período de transição para as empresas portuguesas, a nível de preçário, que já se esgotou e daí termos iniciado contactos com as empresas para estudar esta questão. O que não quer dizer, no entanto, que o preçário tem de ser alterado já esta semana ou este mês. A uniformização do preçário não implica aumentos de custos para todas as empresas, há algumas mesmo que até vão ter preços mais baixos.

EXP. - Mas a decisão de prolongar o período de transição, mantendo os preços actuais, é determinada pela Euronext em Portugal ou é a estrutura de topo da holding quem decide?
M.A.M. - Essa é uma falta questão. A Euronext Lisbon está representada na holding, pode sempre influenciar as decisões. Esta questão tem de ser vista numa lógica de bom senso e de negócio. Desde há quase três anos que é quase gratuito estar na Bolsa e não foi por isso que vieram mais empresas para o mercado.

EXP. - Está convicto de que depois deste encontro de reflexão teremos mais empresas na Bolsa?
M.A.M. - Claro que sim. Teremos mais empresas na Bolsa. Não sei adiantar se até ao final do ano ou se no próximo. Uma coisa é certa: as empresas precisam da ajuda dos bancos de investimento, que têm de desempenhar um papel importante.

EXP. - As empresas portuguesas estão a perder o comboio das dispersões de capital?
M.A.M. - Se olharmos para as estatísticas, vemos que sim. As ofertas públicas iniciais (IPO) de acções nas bolsas mundiais tem vindo a crescer nos últimos quatro anos, tendo aumentado 33% em 2005 face ao ano anterior. Houve 29 países em que as entradas de novas empresas na Bolsa suplantaram os mil milhões de dólares. Na Europa os capitais atraídos em IPO cresceram mais do dobro em 2005 e na Euronext estamos com um movimento fortíssimo de entradas em Bolsa. Em Portugal ainda não tivemos nenhum IPO e isso é desesperante. Se queremos ter uma economia atractiva, temos de ter empresas no mercado. Não podemos passar ao lado disso. É por isso que é preciso ter um discurso pedagógico mas ao mesmo tempo realista, porque também é preciso ver que não é fácil estar na Bolsa.