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Seita espanhola arrasa família de Barcelos

A fuga inesperada de João Carlos para a congregação do Escorial, em 2005, deixou a sua família destroçada. Os irmãos calculam que em dois anos, se 'evaporaram' 35 mil euros, em nome da Virgem.

A data do casamento estava marcada. João Carlos já havia escolhido a casa e a mobília com a futura mulher. Porém, um mês antes da cerimónia, em Setembro de 2005, o professor de informática arrumou as malas e rumou para Madrid, sem bilhete de regresso. Queria ser padre, justificou, antes de abandonar a esposa, o emprego na escola e o negócio com os dois irmãos em Barcelos. “Nunca pensámos que ele tomasse uma decisão tão radical”, crítica o irmão C. Ferreira. “Eu, a minha irmã e os meus pais ficámos de rastos.”

As procissões ao local onde a vidente espanhola Luz Amparo Cuevas terá visto a Virgem das Dores, no Prado Novo do Escorial, haviam começado um ano antes, em 2004. Aos primeiros sábados de cada mês, João Carlos, hoje com 39 anos, viajava, sem a família, até Madrid nas excursões de autocarro que partiam do Porto.

Acabou por se tornar num fiel devoto da congregação espanhola. “Quando se instalou no Escorial, levou tudo o que tinha com ele, inclusive um cheque de 25 mil euros, que foi depositado em Espanha”, revela C. Ferreira, que tinha uma conta em conjunto com o irmão. “Uns dias depois, telefonaram-me do banco a informar que o saldo da conta era negativo”, acrescenta.

Antes da partida para Espanha, João Carlos passou uma procuração aos seus irmãos, mas um ano depois, em Julho de 2006, eles receberam a notícia de que o mandato havia sido anulado, num notário em Madrid. “O poder para mexer no seu dinheiro passou para as mãos de um advogado de Santa Maria da Feira, que não conhecíamos”, explica o familiar. No mesmo mês, João Carlos retirou nove mil euros de outra conta conjunta do negócio de pavilhões industriais da família. A família meteu as mãos na cabeça quando na mesma altura, recebeu uma ordem sua para transferirem todos os meses, perto de mil euros, dinheiro de um imóvel da família, para outra conta, em Espanha.

“No total, já evaporaram cerca de 35 mil euros. Não sabemos porque quer tanto dinheiro, mas ele não nos explica nada”, conta C. Ferreira, que não consegue falar com o irmão desde o Natal. “Sempre que ligo para o Escorial criam-me muitas barreiras para falar com ele. E quando consigo, não estamos mais de dois minutos ao telefone. Só me diz que está a estudar para padre.”

A mãe e a irmã visitaram-no no Escorial por duas vezes, a última das quais em Fevereiro. “Ele disse-nos que nem sabia para onde ia o seu dinheiro, uma vez que acreditava na responsabilidade da instituição para gerir os milhares de euros”, diz Ana, a irmã. Numa reportagem do "Diário de Notícias" do último sábado, no Escorial, João Carlos afirmou que tem tido o apoio das duas nesta sua “experiência de fé”, o que Ana desmente categoricamente: “Fomos vê-lo porque o amamos. Explicámos-lhe que respeitávamos os seus ideais mas não o aceitávamos. Pelo contrário, ele está cada vez mais convencido dos ensinamentos daquela seita”. No final das três horas de visita, as duas mulheres saíram deprimidas de Madrid. “Até as roupas dele eram velhas. Ele, que adorava estar bem vestido…”. Ana assegura que por causa do irmão mais novo, a sua mãe perdeu a alegria de viver. “Até já foi a consultas de psicólogos”. E o pai não consegue dormir. “Esta seita está a destruir a nossa família”, diz, com mágoa.

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