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Segredos do orgasmo

Quase todos o procuram. É puro prazer físico. Há uns tão intensos que provocam um pequeno apagão, uma "petite mort", um momento de descontrolo que... sabe tão bem. Orgasmo, sim obrigado.

Bernardo Mendonça e Cândida Santos Silva

Numa boa partida de futebol há golos. Às vezes muitos. As equipas querem ganhar o jogo, despir a camisola, suar, gritar alto e levar a taça. Alguns jogos ficaram para a história mesmo quando o resultado foi um empate, mas com satisfação para ambas as partes. O mesmo se passa na cama. No jogo dos lençóis todos querem ganhar. O orgasmo é a taça, o ponto sublime, e poucas vezes a equipa chega ao empate. Há vitórias, derrotas, cartões amarelos e até expulsões. O que todos querem é ter muitos e memoráveis golos.

Mas nem todos são pontas-de-lança. Há quem nunca marque, nem tenha prazer com isso, mas também há quem queira sempre mais e mais. Dados recentes revelam que 27% das mulheres portuguesas raramente ou nunca atingem o orgasmo. Um número demasiado alto em comparação com o residual 1% de homens que não chega ao ponto máximo de prazer.

Estes indicadores resultam de um estudo coordenado por Nuno Monteiro Pereira sobre as disfunções sexuais dos portugueses residentes em Portugal Continental, a que chamou de "Episex dos Portugueses". Para o investigador, isto explica-se porque fisiologicamente os homens estão mais aptos a ter orgasmos e atingem-nos de forma mais rápida. "Eles têm um orgasmo, em média, ao fim de três minutos de iniciarem a relação sexual, enquanto elas precisam de oito." É, aliás, este o motivo que leva mais de um quarto das portuguesas a não atingirem o auge.

À escala global poderão ser milhões as mulheres que têm uma vida sexual insatisfatória. E, nesta matéria, a bola está do lado deles. Em regra, eles são mais dependentes do orgasmo, têm-no de forma mais frequente, estão obcecados com o coito e excitam-se facilmente. Chegam ao fim muito mais depressa. E nem sempre esperam por elas, nem sabem como ajudá-las a ter um orgasmo. Pensemos no homem como um interruptor on e off e na mulher como um ferro de engomar. Nele basta ligar e desligar, ou seja ter uma erecção para que tudo corra bem.

nquanto a mulher precisa de algum tempo para aquecer. "Elas demoram mais a chegar a um estado de excitação, a estarem suficientemente lubrificadas e preparadas para o coito", explica a terapeuta sexual Marta Crawford, que neste momento apresenta na TVI 24 o programa semanal "Aqui há sexo". É importante que os homens saibam que o clítoris é a zona do corpo que dá mais prazer à mulher. "Aliás, a sua única função é dar prazer sexual. E se não for estimulado durante o sexo, provavelmente elas nunca atingirão o ponto mais alto do prazer. O orgasmo é clitoriano e não vaginal."

O principal problema que leva os casais ao 'divã' da terapeuta é a falta de desejo. Logo seguido da preocupação feminina quando não consegue obter um orgasmo durante o coito. "Ainda há a ideia de que é só através dele que o sexo faz sentido. E quem não tem prazer com isso acha que não é normal. É um disparate. O sexo é muito mais do que a penetração.

Deve ser encarado como uma paleta de cores, com várias tonalidades, subtilezas e cambiantes para explorar a dois." Talvez assim o cobiçado orgasmo simultâneo aconteça. Mas não desespere no seu encalço. Ele é um assunto tornado mito através das falsas ideias veiculadas pelas revistas femininas. Consegui-lo é bem mais difícil do que parece.

O truque é investir nos preliminares. Cumplicidade, afecto, carícias, beijos e toques serão um bom caminho para que a mulher chegue ao mesmo estado de excitação do homem. E assim juntos poderão desfrutar do clímax em simultâneo ou em tempos muito próximos. Mas se é preciso complicidade para que as mulheres consigam acompanhar o homem no contra-relógio do prazer, elas têm uma arma de que eles não se podem gabar. Chama-se fingimento e algumas usam-no para "protegerem o ego dos seus homens. Todavia, a médio prazo, não resultar". Quem o afirma é o sexólogo Júlio Machado Vaz.

Ficou famosa a cena do filme "Um Amor Inevitável", de 1989, em que Meg Ryan simula um espectacular orgasmo num restaurante, perante um Billy Crystal embaraçado. A cena é um ícone da história do orgasmo no cinema. Perante um homem incrédulo, a actriz demonstra como uma mulher é capaz de simular prazer, entre duas garfadas, no meio de um restaurante cheio. É algo adquirido, conhecido de cor pelas mulheres. Ao longo da história muitas mulheres já usaram esse truque para ludibriar os seus parceiros.

Uma artimanha que aos homens está vedada. Hoje as mulheres já não fingem tanto. De acordo com a experiência clínica de Marta Crawford, o sexo feminino já não está para isso. Também elas querem ter prazer e exigem mais. É esse um dos motivos que leva os terapeutas a afirmarem que na última década tem aumentado o número de homens a solicitar ajuda médica. "Quando vejo entrar no meu consultório homens com menos de 30 anos, das duas uma, ou vêm queixar-se da falta de desejo, e então trata-se de casos quase sempre ligados ao ecstasy, uma droga altamente destruidora da líbido e irreversível. Ou então entram por aqui adentro angustiados, por se sentirem diminuídos perante as exigências da sua parceira. Actualmente os homens estão mais preocupados com a sexualidade delas. E isso perturba-os imenso", esclarece Nuno Monteiro Pereira, andrologista e terapeuta sexual.

Essa realidade era bem visível na série televisiva americana "O Sexo e a Cidade", de Candance Bushnell, onde quatro amigas se tornaram populares pelas suas numerosas conquistas e devaneios sexuais, sem pudores, limites ou tabus. A provar que nos tempos que correm, em matéria de sexo, as mulheres podem desejar e actuar como os homens. A loura e fogosa Samantha Jones, a personagem interpretada pela quarentona Kim Cattrall, é o paradigma da mulher moderna e cosmopolita. Emancipada, profissional e sexualmente muito activa.

Fora dos sets de filmagens, a actriz que deu corpo a Samantha falou da sua experiência íntima e pessoal no livro "Satisfação - A Arte do Orgasmo Feminino", onde se propôs, em conjunto com o ex-marido, ensinar os segredos para se chegar ao ponto mais alto do prazer. "No início dos meus trintas, o sexo queria dizer ser fisicamente dominada por um homem e ter algum prazer através da penetração, mas nunca chegar ao orgasmo com os meus parceiros. Cheguei aos quarenta e tinha passado por duas décadas de relações sexuais insatisfatórias."

Não é de estranhar, por isso, que também a maioria das portuguesas (56%) confesse que gostaria de receber do parceiro mais e melhor estimulação sexual. Um resultado a que chegou Ana Carvalheira, psicóloga clínica e autora do estudo português sobre "A Resposta Sexual Feminina" a ser apresentado brevemente. Ao Expresso adiantou ainda que há uma percentagem considerável de mulheres (12%) que apenas atinge o orgasmo através da masturbação. A maioria delas toca nos genitais, outras usam uma almofada (15%) ou optam por se satisfazer com o jacto do chuveiro (21%). A investigadora reforça ainda que as mulheres que sempre se masturbaram têm uma boa relação com o seu corpo e têm tendência a ter mais orgasmos.

A mesma opinião tem Marta Crawford. A sexóloga afirma que a maior parte das pacientes que recebe nas consultas de terapia sexual com problemas em atingir o orgasmo tem algum desconforto em tocar-se. "Não se masturbaram na adolescência, nem mais tarde. Talvez devido a uma educação conservadora e asfixiante em que a masturbação era tabu ou pecado."

Esta ideia de culpa vem de há muito tempo. Até aos finais do século XIX, a masturbação era ainda mais mal vista e tida como a origem de vários males, e até causa de algumas doenças, como a tuberculose. Hoje sabe-se que o prazer solitário não tem inconveniente nenhum, desde que não interfira na relação com o outro e não atinja excessos. Machado Vaz considera, no entanto, que "acaso seja interpretada pelo parceiro como um sinal de impotência para preencher a sua vida erótica pode tornar-se um problema".

Mudam-se os tempos e as vontades. Se, no passado, falar de sexo era tabu e a cópula tinha como objectivo a procriação, hoje andamos todos obcecados com o prazer físico. Seja através do sexo ou da masturbação, a corrida à serotonina e oxitocina produzidas pelo orgasmo e à momentânea descontracção muscular constituem as drogas mais potentes e apetecíveis que possuímos. E mesmo que não tenhamos uma grande apetência para o sexo, somos diariamente alvo de uma forte pressão cultural, social e mediática para conseguirmos altas performances.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), praticam-se todos os dias em todo o mundo mais de 100 milhões de actos sexuais. Os portugueses parecem contribuir, e muito, para estas estatísticas. De acordo com o estudo "Epidemiologia das Disfunções Sexuais em Portugal Continental", promovido pela Sociedade Portuguesa de Andrologia, cerca de 50% dos portugueses têm sexo duas ou mais vezes por semana. Ao tomarmos esse número como referência e tendo em conta que a duração média de um orgasmo é de cerca de dez segundos, a maior parte dos indivíduos experimenta uns meros 20 segundos por semana. Cerca de um minuto por mês, ou um total de 12 minutos de êxtase por ano.

No livro "A História Íntima do Orgasmo", do americano Jonathan Margolis, publicado em Portugal pela Bizâncio, "se considerarmos cinquenta anos um período de actividade sexual normal, numa visão algo optimista, poderemos então desfrutar umas dez horas de orgasmo em toda a vida". Parece pouco para todo o tempo que passamos a pensar, a analisar, ou a falar de sexo. Mas convenhamos que sabe bem.

O que acontece aos homens e mulheres quando atingem o orgasmo? Todos nós achamos que sabemos, mas o facto é que se desencadeia um processo físico e psicológico complexo que nos escapa. Vamos a factos. Na hora do grande Ó, apesar do espasmo durar apenas alguns segundos, muita coisa acontece. Os órgãos genitais dilatam-se com o fluxo sanguíneo, os movimentos cardíacos e respiratórios aceleram-se, os músculos contraem-se, as bocas entreabrem-se, os rostos ruborizam-se, os dedos grandes dos pés reviram-se e há aquilo a que os franceses chamam de la petite mort. Ou seja, uma espécie de apagão. Um momento de descontrolo total. Variável de pessoa para pessoa e com intensidades diferentes.

Durante muito tempo achou-se que o orgasmo feminino era menos intenso do que o masculino. Nuno Monteiro Pereira desfaz esse mito: "Os orgasmos femininos podem ser tão poderosos como os masculinos. O apagão tanto pode acontecer ao homem como à mulher. Só acontece menos na mulher porque ela tem orgasmos menos frequentes." E quando o tem resulta de uma forma mais refinada de desejo. Jonathan Margolis chega mesmo a considerar que "o orgasmo feminino é uma experiência infinitamente maior e mais expansiva do que a sensação que os homens têm quando ejaculam". O autor diz que neles a experiência se resume, descontando o aspecto emocional, "a algo semelhante ao alívio da micção de uma bexiga a transbordar, de um espirro ou de um movimento intestinal".

Mas, se no estudo "Episex dos Portugueses" se fica a saber que para esmagadora maioria dos homens (85%) o sexo é muito importante ou fundamental na sua qualidade de vida, nenhum consegue atingir aquilo que é exclusivo de algumas mulheres, os multiorgasmos. São elas que têm a capacidade de fazer durar o prazer e de voltar ao poderoso estremecimento duas, três ou mais vezes, se o estímulo persistir - mais de 20% das mulheres consegue esta proeza. Um estado de êxtase ao que parece vedado a eles. "O homem tem um período refractário a seguir a ter um orgasmo. Fisiológicamente é incapaz de voltar logo a ter outro.

Para um melhor domínio da arte do sexo o que podemos todos é tentar prolongar o prazer. Há quem o faça através da prática do sexo tântrico. Uma técnica que passou a ser mais conhecida a partir dos anos 90, quando o cantor pop Sting veio a público fazer alarde deste seu gosto. O ex-vocalista dos Police apregoava mesmo que as suas performances sexuais chegavam a durar oito horas. Uma proeza mais tarde posta em causa pelo seu amigo e músico Bob Geldof ao afirmar que Sting incluía nessa sua contagem "o jantar mais a ida ao cinema". Verdade ou mentira, talvez não seja preciso ir tão longe. "A técnica para um bom orgasmo é a tentativa de atrasar a inevitabilidade ejaculatória, prolongar o prazer e adiar o clímax", considera Monteiro Pereira.

E se nos homens o orgasmo é sinónimo de satisfação sexual, no caso feminino não é bem assim. "As mulheres têm uma coisa fantástica. Muitas vezes ficam bem, realizadas, sem atingir o clímax. Mas muitos homens não percebem isso. Eles não aceitam que as mulheres não os acompanhem no pico de prazer. O padrão é que as mulheres se sentem satisfeitas, compensadas numa relação sexual, mesmo sem orgasmo", esclarece Monteiro Pereira. Certo é que a esmagadora maioria deles e delas não dispensa o sexo. Querem sempre mais e melhor. E aquele momento fugaz, de plenitude, que provoca formigueiro no corpo todo é procurado por todos. Mesmo quando se sabe que é um fogo-fátuo.

Sobre o tema "sexo" muitas piadas circulam na Internet. Eis uma lista de vários tipos de orgasmo:

O matemático: Mais, mais, mais, mais... O religioso: Ai! Meu Deus! Ai! Meu Deus!... O ateu: Oh! Que diabo! O suicida: Ai que eu morro, ai que eu morro... O homicida:  Se parares agora, eu maaatooo-teeeeeeeeee!!! O exigente:  Agora! Agora! Agora! O enfadado:  Hum! O guloso:  Que delícia, que delícia... O bondoso:  Oh! É bom! É bom! O masoquista:  Bate-me, bate-me! O sádico:  Toma, toma, toma! O negativo:  Oh! Não... Não... Nãoooooo!... O positivo:  Oh! Sim... Sim... Simmmm!... O egocêntrico:  Estou-me a vir! Estou-me a vir! O asmático:  Uhh... Uhhh... Uhhh... O geógrafo:  Aqui, aqui, aqui, aqui... O sôfrego:  Outro, outro. Mais! Mais! O inseguro:  É meu? É meu? O possessivo:  É meu! É meu! O acidental:  Ups! O paternal:  Oh! Sim, bebé! O desinformado:  O que é isto? ....o que é isto? O cozinheiro:  Mexe... Mexe... Mexe... O analista de sistemas:  OK! O rápido:  Já está! O asneirento:  F#&#=ee!

Ao longo dos séculos muitos foram os tabus, falsas crenças e mitos em redor do sexo. Subsistem ainda hoje algumas superstições. Os especialistas afirmam que a culpa é das revistas femininas. 

1. Até ao século XIX acreditava-se que as mulheres não tinham orgasmos e que as que desfrutavam o sexo eram mentalmente doentes, moralmente degeneradas ou ambas as coisas. Pelos médicos eram chamadas histéricas.   2. O único sentido que o sexo tinha para a maior parte das pessoas era que o homem devia ejacular o mais rápido possível, com vista a despachar o 'serviço' - e, de preferência, emprenhar a mulher.   3. A masturbação era vista como um pecado, psicologicamente corrosivo e perigoso para a saúde. Aliás, no século XIX consideravam que era a causa directa de algumas doenças, como a tuberculose.   4. A maior parte das mulheres desconhecia que possuía um clítoris ou onde se situava.   5. O orgasmo que valia a pena ter era o simultâneo e conseguido através do coito.   6. Durante décadas acreditou-se que o orgasmo feminino era vaginal.   7. O orgasmo clitoriano era próprio das mulheres imaturas.   8. Todas as mulheres são capazes de ter orgasmos múltiplos.   9. Não há sexo sem penetração.   10. As mulheres que não têm um orgasmo não são sexualmente felizes. 11. Se um homem tem falta de desejo por uma mulher é homossexual. 12. As mulheres têm dois tipos de orgasmo: vaginal e clitoriano.   13. O sexo só é bom quando há orgasmo simultâneo.   14. Ejaculação e orgasmo são sinónimos.   15. É possível um homem ter multi-orgasmos.   16. No homem não é possível atingir o orgasmo sem ejaculação.

 

Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Maio de 2009