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Ségolène, candidata real

Para muitos, é o rosto da mudança na política francesa. Para outros, tão somente um fenómeno mediático. Ségolène Royal, mãe de quatro filhos, poderá vir a ser a candidata do PSF às presidenciais de 2007.

O «Fórum cidadão militante» decorria animado, numa sala municipal com lotação esgotada, no bairro número 18, no norte de Paris. Ségolène Royal era, como sempre quando aparece em público, a estrela da noite. Toda a gente bebia as palavras desta mulher esbelta, vestida com um conjunto saia-casaco azul marinho de bom gosto, que, aos 52 anos e mãe de quatro filhos, exibe com prazer evidente um físico de adolescente e um sorriso desarmante.

A certa altura, um jovem levantou-se, pegou no microfone e disse-lhe: «Eu não quero falar de política, apenas lhe quero dizer que a senhora é lindissima, ainda mais bonita do que quando aparece na televisão! Não desista, vou votar em si!». A companheira, não casada, do líder do PSF, François Hollande, deixou escapar uma espontânea e sonora gargalhada e respondeu: «Obrigada, mas você também não está nada mal, é um bonito rapaz!».

Ségolène Royal é o mais recente fenómeno da política francesa e a fulgurância da sua popularidade transformou-a na mulher a abater tanto pela direita como pelos seus adversários socialistas, reunidos este fim-de-semana para lançar o processo das candidaturas partidárias ao Eliseu. A escolha definitiva do candidato presidencial do PSF acontecerá no Outono - através do voto dos militantes -, mas, no passado domingo, dia 20, na concorrida e tradicional «Festa socialista da Rosa», na região da Borgonha, Ségolène deliciou-se com o delírio que a sua presença provoca nas bases socialistas.

Ela é a favorita, largamente à frente de todos os «elefantes» do partido, chamem-se eles Lionel Jospin, Jack Lang, Laurent Fabius, Martine Aubry, Dominique Strauss-Khan ou mesmo François Hollande. Domina facilmente, como poucos, o contacto directo com as bases partidárias e com os franceses. Ganhou a batalha das sondagens, falta-lhe ganhar o voto do PS.

O exercício de funções no Governo, nas pastas do Ensino (de 1997 a 2000) e da Família (de 2000 a 2002), deram-lhe definitivamente uma imagem que cala fundo numa França que, apesar da atitude liberal de Paris, é um país profundamente tradicionalista. Em 2000 surgiu como a defensora da moral e dos bons costumes ao lançar uma guerra contra as adolescentes que exibiam cuecas «fio-dental» nas escolas.

Intuitiva e convicta, coloca frequentemente o PSF em dificuldades - bem como o próprio companheiro e seu líder partidário -, quando, por exemplo, diz ser contra o casamento entre homossexuais ou a legalização do consumo de drogas leves. Sobre o casamento dos homosexuais comentou: «No casamento há o aspecto matricial, mãe, filiação, e é preciso que as palavras correspondam ao que significam». A seguir, por pressão de Hollande, moderou esta sua posição.

Ségolène é a melhor ilustração da apropriação pela esquerda de temas tradicionalmente de direita. Tenaz, é politicamente incorrecta e abana fortemente as ordens estabelecidas. Sobre a segurança em França, a todos surpreendeu ao propor o «enquadramento militar dos jovens delinquentes das periferias». Há quem já a apelide «Sarkozy de saias».

O actual ministro do Interior e líder do partido maioritário (UMP), Nicolas Sarkozy, será provavelmente o seu principal adversário na corrida à presidência francesa, na Primavera de 2007. Aliás, Ségolène nunca se esquece de atacar duramente Sarkozy. No domingo passado, acusou-o de querer «pilhar os cérebros» ao Terceiro Mundo com o seu projecto sobre a «emigração escolhida». E, dois dias antes, sugeriu ter sido ele quem passou informação a um jornal sobre um estranho assalto - sem roubo aparente - ao seu apartamento nos arredores de Paris. Acusou-o, então, de pôr em dificuldades a vida da sua filha mais jovem, de 14 anos. Devido à publicação de uma foto do prédio onde habita, o casal Royal-Hollande poderá ter de mudar brevemente de residência.

Ségolène e Hollande mantêm uma relação equilibrada. É com ele que discute, frequentemente na cama, as grandes estratégias político-partidárias. Quando, a 21 de Abril de 2002, o «paquete» socialista se ia afundando como o «Titanic» com a estrondosa derrota do ex-primeiro-ministro, Lionel Jospin, na primeira volta das presidenciais, foi em conjunto que o casal definiu o caminho para que o PS regressasse rapidamente à tona da água. As três da manhã, na intimidade dos lençóis, delinearam as etapas a seguir, segundo revela o jornalista François Bachy no livro «L'Enigme Hollande» (O Enigma Hollande). A primeira decisão, acertada apesar das reticências de Jospin, foi a necessidade do PS apelar ao voto em Jacques Chirac na segunda volta, contra o chefe da extrema-direita, Jean-Marie le Pen. A estratégia para a difícil reunião do secretariado do PSF, a 22 de Abril, dia da ressaca eleitoral, foi igualmente definida na cama.

«Com Ségolène comecei a reflectir sobre a nossa posição depois do cataclismo da primeira volta», confessou Hollande. «Foi uma longa discussão, não discutimos coisas abstractas mas as concretas. Ambos discordávamos, já antes, do estilo e do conteúdo da campanha de Jospin, à qual nunca estivemos directamente ligados», explicou Ségolène ao EXPRESSO.

Ségolène é um caso sério no domínio da arte de comunicar através dos «media». Num dia de Verão, em 2004, no decorrer de um programa televisivo côr-de-rosa («Sagas»), fez corar o companheiro e deixou-o visivelmente atrapalhado quando disse aos animadores: «Estou à espera que François me peça em casamento!». Hollande sorriu, incomodado. Ela passou do sorriso à risada e, virando-se para ele, perguntou-lhe olhos nos olhos: «François, queres casar comigo?». Engasgado, o chefe do PSF remexeu-se, nervoso, na cadeira e respondeu: «Falaremos disso depois da emissão...». «Acho que o desestabilizei um pouco, mas as perguntas eram tão chatas e banais!», explicou posteriormente Ségolène.

Ségolène e Hollande conheceram-se nas salas de aulas da Escola Nacional da Administração, em 1980. O namoro começou alguns meses depois, durante um estágio de uma semana num gueto dos arredores de Paris, quando faziam um trabalho de equipa sobre a violência e a juventude dos bairros sociais. Desde então, nunca mais se separaram. Mas são muito diferentes. Hollande é politicamente redondo e procura constantemente - detesta asperidades e os habituais confrontos no interior do partido. Ségolène é o inverso, adora os ângulos, cultiva a liberdade individual da palavra e irrita constantemente os dirigentes do seu partido.

Feminista e «sexy», é deputada, tal como Hollande. Na Assembleia Nacional, separam-nos alguns lugares de distância e ela própria reconhece que não é fácil ser mulher, companheira do líder, e ter as maiores ambições políticas. Tem de suportar frequentemente olhares e «bocas» machistas, vindas até do seu próprio campo. Ela encolhe os ombros. «São uns palermas!», diz, enquanto lembra o ambiente que teve de viver durante meses quando chegava ao parlamento grávida do terceiro filho. «Com uma grande barriga tinha de suportar olhares nada simpáticos, longe disso, mais do género ‘olhem aquela, não sabe que a pílula existe?’... foi um momento pesado».

Contudo, esta situação acabou por lhe ser favorável. Desde esse momento, os franceses registaram uma imagem de que ela gosta particularmente: a da mulher-política-feminina-mamã. Nos muitos «fóruns cidadãos» que recentemente efectuou por toda a França, dirigiu-se à assistência, com ar sincero e ligeiramente grave, assim: «É uma mãe que vos fala!»... Defende a lei sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez mas, pessoalmente, é contra o aborto. Ségolène é filha de uma família da província, conservadora e católica, onde o pai, coronel, impunha em casa um rigor militar à mãe e aos oito filhos.

Entrou na política pela mão do falecido ex-Presidente, François Mitterrand, em conjunto com o companheiro, em 1980/81. Redigia então notas para o candidato socialista que venceu as presidenciais de 1981 e, depois, foi sua conselheira oficial no Eliseu.

No entanto, apesar da sua inegável beleza e da sua imagem tranquila e amável, é uma mulher com punho de ferro. Muitos dos seus colaboradores no Eliseu ou nos ministérios que ocupou, demitiram-se, exasperados porque não suportavam as suas ordens, o seu feitio conflituoso, «parasitado por questões de imagem, que eram uma obsessão», segundo revela num livro Alain Etchegoyen, ex-conselheiro de Claude Allègre, ministro da Educação do Governo de Jospin e superior hierárquico de Ségolène.

Mas o que os franceses retêm de Ségolène é a encarnação das suas aspirações - o desejo de verem outra forma de fazer política respeitando alguns dos principais valores ancestrais franceses.

Agora, falta-lhe conquistar o aparelho, a máquina eleitoral socialista. A guerra interna começa neste fim-de-semana, junto às calmas águas do porto de La Rochelle, na costa oeste francesa, na chamada «Universidade de Verão» do PS.