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Saúde: DECO acusa médicos de receitarem antibióticos sem necessidade

Lisboa, 22 Mar (Lusa) - A associação para a defesa do consumidor DECO acusou hoje os médicos de receitarem antibióticos sem necessidade e as farmácias de os venderem sem prescrição.

Esta é a conclusão de um estudo da associação, publicado na edição de Abril da Teste Saúde, baseado em visitas de colaboradores da DECO a várias clínicas, centros de saúde e farmácias.

Ao todo foram visitados 58 consultórios privados e nove centros de saúde, por colaboradores saudáveis que consultaram os médicos queixando-se de dores de garganta e de um ligeiro incómodo ao engolir, sem outros sintomas.

"Em 37 casos, os profissionais receitaram antibióticos, que eram desnecessários para a situação em causa", refere a DECO naquele estudo.

Destes 37 profissionais, seis médicos prescreveram os antibióticos numa receita à parte e disseram que a prescrição só devia ser aviada se o problema se agravasse, nomeadamente se tivesse febre e pontos brancos na garganta.

"Esta atitude é mais cautelosa, mas continua a facilitar o acesso àqueles fármacos", acusa a DECO.

A maioria dos médicos visitados prescreveu os antibióticos espontaneamente, sem que o suposto doente tivesse manifestado o desejo de tomá-los, o que a DECO critica.

"Na Clínica d'Avenida (Faro), Jardim da Piedade (Almada), Nossa Senhora da Saúde e Notre Dame (Porto), fizeram-no por sugestão paciente", lê-se no estudo.

A dor de garganta simulada também serviu de motivo para os colaboradores da DECO visitarem 90 farmácias, queixando-se de dor e pedindo um antibiótico sem apresentar receita médica.

Segundo a Teste Saúde, oito farmácias venderam o medicamento de prescrição médica obrigatória "sem problemas".

A DECO alerta que o consumo abusivo de antibióticos, em situações para que são desnecessários, aumenta as resistências das bactérias e dificulta o combate às infecções.

"Os microrganismos tornam-se, a pouco e pouco, insensíveis à acção dos ditos medicamentos. O desenvolvimento de resistências é um processo natural, mas o uso massivo e pouco racional daqueles fármacos acelera o processo. Se a situação se mantiver, podemos ficar sem armas contra certas doenças", lê-se na publicação.

A DECO exige que o Ministério da Saúde tome medidas para racionalizar o consumo dos antibióticos e alerta para a necessidade de conhecer melhor a realidade nacional, através de mais estudos aos hábitos de prescrição e consumo.

"Cabe ao Ministério da Saúde fazer um forte investimento em campanhas para sensibilizar os consumidores sobre o perigo da auto-medicação com antibióticos e o seu uso desregrado. Os utentes devem ser dissuadidos de pedir estes medicamentos aos profissionais", refere a DECO.

A associação considera também fundamental criar Snormas de boas práticas" claras e precisas, ao nível da prescrição - quando, quanto e o que receitar -, com base em informações científicas.

"Ao Ministério cabe também desenvolver um sistema de avaliação da qualidade da prática clínica. Entre outros aspectos, este permitirá saber onde se encontram os problemas de prescrição de antibióticos e combatê-los", adianta a associação.

Dado que considera que a saúde pública está em risco, a DECO comunicou os resultados do estudo à Direcção-Geral da Saúde, Inspecção-Geral de Saúde, Secretaria de Estado da Defesa do Consumidor, Entidade Reguladora da Saúde e Infarmed (instituto da farmácia e do medicamento).

VP.

Lusa/fim