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Sarkozy acusado de querer controlar os media

O meio jornalístico francês está em ebulição devido à musculada detenção pela Polícia de um ex-director do 'Libération'.

Daniel Ribeiro, correspondente em Paris

O poder político francês tem sido acusado, nas últimas semanas, pela oposição bem como pela maioria das associações e sindicatos de jornalistas, de querer controlar os media de França. Mas a brutalidade policial sem precedentes com que foi tratado o jornalista Vittorio de Filippis, ex-director do diário 'Libération', surpreendeu toda a gente, fez transbordar o vaso das críticas e escandalizou o país inteiro.

Implicado num banal processo de difamação, o jornalista foi detido pela Polícia às seis da manhã em sua casa, à frente dos filhos de 14 e 10 anos de idade. Vittorio diz ter sido então insultado, humilhado e detido pelos agentes que o trataram de "escumalha".

Transportado à força para um posto de Polícia, só aí foi informado que a detenção estava ligada a um processo de difamação em curso num tribunal de Paris contra o 'Libération'. O caso refere-se a um artigo publicado há dois anos na edição online do jornal por um jornalista do diário fundado por Jean-Paul Sartre, quando Vittorio era director do diário.

No posto policial, Vittorio foi revistado e obrigado a despir-se duas vezes, antes de ser fechado num calabouço com outros alegados malfeitores enquanto aguardava por ser interrogado por um magistrado. "Fui humilhado diversas vezes", disse.

"Se a Polícia age assim com os jornalistas imagino o que faz com pessoas sem instrução nem contactos, com os emigrantes estrangeiros, que não têm qualquer meio de defesa e se encontram na mesma situação em que eu estive", acrescentou.

A detenção do jornalista provocou escândalo em França e os próprios Presidente, Nicolas Sarkozy, bem como o primeiro-ministro, François Fillon, reagiram deplorando o acontecimento. Ambos anunciaram a intenção de rever as regras dos mandados judiciais de procura e do tratamento dos casos de difamação.

Vittorio de Filippis, que continua a trabalhar como editor no 'Libération', foi objecto de um mandado por alegadamente não ter respondido a algumas convocações do juiz. Mas ele alega que enviou todas as cartas do tribunal ao advogado do jornal - "como habitualmente fazemos", acrescentou.

Esta polémica surge num mau momento para o Presidente e Governo franceses, cuja proposta de lei sobre o audiovisual, em discussão actualmente no Parlamento, é criticada por todas as organizações representativas dos jornalistas do país.

A nova legislação prevê o fim da publicidade no serviço público do audiovisual e a nomeação dos presidentes dos canais de rádio e de televisão do Estado pelo Presidente da República.

Os sindicatos, que organizaram na semana passada uma greve contra a proposta de lei, acusam o poder de querer "asfixiar economicamente e controlar totalmente" os media de França.