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Sagres “preso” no Uruguai pelo menos até meio da semana

O histórico navio português precisa de uma série de combinações perfeitas para conseguir sair de Montevideu a tempo para ainda cumprir com um programa já prejudicado. Por cada dia perdido, a margem de manobra e a quantidade de visitantes diminuem.

Aventureiros eram aqueles navegadores portugueses que durante os séculos XVII e XVIII atravessavam o Rio da Prata a vela até Buenos Aires sem GPS, fintando espanhóis e os numerosos bancos de areia. Claro que muitos terminaram encalhados e naufragados. Séculos depois, para não correr o mesmo destino, o tradicional navio-escola Sagres, orgulho da Armada portuguesa, precisa de um motor que funcione. O que parece fácil está a transformar-se numa odisseia que deve durar até quarta ou quinta-feira.

O Sagres permanece preso no porto de Montevideu desde sexta-feira passada, quando a caminho de Buenos Aires, na entrada do Rio da Prata, o motor sofreu uma avaria e o comandante José Luís de Vila Matos precisou de pedir ajuda à Armada uruguaia que enviou um rebocador.

À espera de peças de reposição

O barco deveria ter chegado à capital argentina na manhã de domingo, no entanto, continua à espera de um diagnóstico definitivo. Depois, do remédio para o problema: peças de reposição.
 
"Temos a expectativa de até o final de o dia de hoje [segunda-feira] ficarmos com tudo resolvido. Tivemos um problema ligado ao circuito de injecção de combustível no motor, mas não excluímos a possibilidade de sairmos de Montevideu ainda nesta segunda à noite e chegarmos a Buenos Aires na terça", disse ao Expresso o comandante Vila Matos.
 
No entanto, o optimismo do comandante choca com a realidade descrita por Germán Benítez, gerente de operações da agência marítima Silver Sea, responsável pela organização da viagem tanto no Uruguai como na Argentina.
 
"Se tudo correr bem e com rapidez, o melhor cenário é que o barco saia de Montevideu na quarta-feira e chegue a Buenos Aires na quinta, mas não há nenhuma certeza sobre isso. Acredito que até a metade da semana e até um pouco mais o Sagres não sairá de Montevideu".
 
No domingo, a Armada uruguaia levou a bomba que injecta combustível no motor para ser desarmada nas suas instalações. Hoje, depois de analisarem as falhas mecânicas, entregarão uma lista com as peças necessárias para o funcionamento.
 
"Teremos que ver onde conseguiremos as peças e se existem no mercado uruguaio. Se faltar alguma, pode ser necessário procurar na Argentina ou até no Brasil", prevê Benítez.

O técnico que vem de longe

Além disso há mais um obstáculo: A Bosch, marca da bomba em questão, tem representante em Montevideu, mas a MTU, fabricante do motor do navio, não. E como a bomba vai na entrada do motor, no Sagres querem um técnico da MTU presente no momento de armar a bomba no motor. O representante mais próximo fica na cidade argentina de Bahía Blanca, a oito horas, por terra, de Buenos Aires, de onde partem transportes marítimos ou aéreos para Montevideu. Como nesta segunda-feira é feriado na Argentina e como a MTU não tem técnicos de sobra, só haverá uma resposta na terça-feira.
 
"Devido ao feriado na Argentina, talvez não haja técnicos disponíveis até quarta-feira. Talvez tenha de trazê-los do Brasil. Se eu me deparar com falta de técnicos ou de peças, os prazos vão estender-se ainda mais", indica Benítez.
 
A MTU no Brasil fica em Santos, cidade de onde o Sagres partiu antes da peripécia no Rio da Prata. De Santos a São Paulo por terra e de São Paulo a Montevideu por avião pode ser até mais rápido, isto se não houver os habituais atrasos que os aeroportos brasileiros vêm enfrentando ultimamente.

Impossível prever uma nova programação do Sagres

Em Buenos Aires, a Embaixada portuguesa já divulgou aos meios de comunicação locais um comunicado no qual indica que o Sagres poderia chegar só no dia 23, quinta-feira. Pelo programa original, no dia 23, o navio português deveria deixar a Argentina em direcção a Montevideu, onde ficaria entre os dias 24 e 28. Mas saber qual seria a nova programação do Sagres a esta altura é como descobrir o sexo dos anjos.
 
"Não tenho confirmação nenhuma. Estamos numa situação complicada. Não podemos fazer nada. Não podemos convidar nem avisar ninguém. Está tudo à espera: Marinha argentina, comunidade portuguesa, jornais. Precisamos de um mínimo de tempo para avisar e para redefinir o programa", explica o embaixador português na Argentina, Joaquim Ferreira Marques.
 
Há a possibilidade de o Sagres continuar em Montevideu e aproveitar os dias de motor avariado para antecipar o que seria o seu programa original. Há a possibilidade da visita à Argentina ser encurtada e não chegar ao fim-de-semana. Se encurtar, poderá não cumprir com o programa. Se só estiver durante a semana – apanhando naturalmente dias de trabalho e de aulas –, poderá não ser visto pela maior parte da comunidade portuguesa que vive fora de Buenos Aires.
 
"Todas essas possibilidades foram colocadas e a conclusão dessa ponderação ainda não está fechada. Admito que possa haver prejuízos relativamente ao programa original quanto mais não seja até na perspectiva do próprio planeamento dele. Faremos todos os esforços para que essas visitas a Buenos Aires e a Montevideu possam ser minimamente afectadas", reconhece o comandante Vila Matos.

Inércia dos portugueses comentada

Fonte da Armada uruguaia garantiu ao Expresso que se está a encarar com surpresa o grau de dependência do Sagres. O facto do chefe de máquinas não ter posto ainda "as mãos na massa" é o que mais se comenta entre quem está a lidar com o assunto.
 
"Ele não desarmou a bomba, não analisou o problema, não tem nenhum ‘kit’ com peças de reposição. Eles estão constantemente à espera do apoio de terceiros. Não tocam em nada. Esperam que os outros solucionem. Estão a mercê da nossa ajuda ou da dos representantes da bomba ou do motor", questionam.
 
Todas as cartas estão sobre a mesa. Só uma coisa é certa: o mais tardar, no dia 27, de Buenos Aires, ou no dia 28, de Montevideu, o navio tem que sair impreterivelmente para o Rio de Janeiro onde deve chegar no dia 5 de Setembro. No Rio, o Sagres vai representar Portugal numa regata naval comemorativa do bicentenário do nascimento do patrono da Marinha brasileira, Almirante Tamandaré. Por sorte, a Baía de Guanabara pode ser navegada sem motor.

Marinha Portuguesa confiante

Confrontado com a situação do navio, o gabinete de relações exteriores da Marinha afirmou que espera que a situação fique resolvida hoje.

O gabinete adiantou ainda que, assim que o problema estiver solucionado, o navio partirá, imediatamente, em direcção a Buenos Aires. Como consequência da avaria, o programa foi reajustado e agora prevê-se que o Sagres esteja de 21 a 24 em Buenos Aires. 

Apesar do Sagres ser um navio à vela, a Marinha preferiu não arriscar navegar sem motor por se tratar de uma missão de representação.