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Rio demarca-se e fragiliza Manuela

Em Setembro acordaram não avançar com o enriquecimento ilícito. Manuela Ferreira Leite mudou em 6 meses.

Ângela Silva e Ricardo Jorge Pinto

Rui Rio parece estar num claro processo de afastamento de Manuela Ferreira Leite. A sua declaração de oposição à proposta do partido para criminalizar o enriquecimento ilícito está a ser lida, dentro do PSD, como uma demarcação politicamente relevante face à líder de quem Rio é 1º vice-presidente. Muitos admitem que os objectivos que o movem poderão ter em vista a sucessão no partido e a eventual precipitação de uma crise caso o PSD perdesse as europeias.

Os mais próximos colaboradores de Rui Rio garantem que o cenário de abandono do lugar de número dois do partido está fora de questão. Mas o afastamento é inegável e, apesar da declaração que fez sobre o projecto de lei contra a corrupção ter sido previamente comunicada a Ferreira Leite, as relações políticas entre os dois parecem irremediavelmente afectadas.

Rio levou esta questão do enriquecimento ilícito muito a peito e não gostou que o partido agendasse o polémico projecto para debate no Parlamento apesar da sua oposição. O Expresso sabe que até ao momento da votação, Rio contactou vários deputados manifestando-lhes a sua divergência. De resto, ele já tinha mostrado desagrado em relação a esta questão quando Marques Mendes liderava o PSD e, em Setembro passado, quando o assunto foi discutido na Comissão Permanente do partido, ficou clara a sua objecção à criminalização do enriquecimento ilícito que o socialista João Cravinho tinha colocado nas agendas.

Na altura, o PSD, sob a batuta de Ferreira Leite, decidiu que era inoportuno avançar com legislação deste tipo. Posição que foi revista muito recentemente, sob pressão do caso Freeport (texto em baixo). Com a mudança de posição do partido, Rio veio acusar o PSD de eleitoralismo e os termos em que o fez não foram nada simpáticos para a líder. Lembrou que em 1995 Fernando Nogueira também teve a tentação de trazer as questões da ética na política para o combate eleitoral, e avisou: "Pouco tempo depois ele perdeu as eleições". Na sua opinião, ao avançarem com isto agora PSD e PS estão a alinhar pela pior demagogia e a usar o combate à corrupção "como arma de arremesso político". "Estão a fazê-lo da pior maneira", foi a sua frase às rádios, na véspera do debate parlamentar.

Preparar o futuro

Face à forma e aos termos com que Rio divergiu de MFL, não falta quem aqui veja uma estratégia para ir criando condições e distância para preparar uma eventual candidatura à sua sucessão.

Nos bastidores do PSD, diz-se mesmo que Rio tem concertado posições como José Luís Arnaut e Morais Sarmento com vista a acautelar a eventual precipitação de uma crise no partido e o avanço repentista de Pedro Passos Coelho para líder.

Preparar a resposta a Passos é uma prioridade para esta ala do PSD que, embora continuando leal a Ferreira Leite, mostra-se já atenta aos cenários futuros. Curiosamente, Passos veio de imediato divergir de Rui Rio e concordar com o projecto sobre enriquecimento ilícito. "Quero aproveitar esta ocasião para deixar isto claro", disse à Lusa, classificando de urgente "restaurar a confiança nos agentes públicos". Quanto às divergências na equipa de Manuela, o candidato ao seu lugar disse esperar "mais coesão" na direcção do partido.

De facto, em duas semanas, foi a segunda divergência entre a líder do PSD e o seu 1º vice: primeiro sobre o cabeça de lista às europeias (Rio apoiou Paulo Rangel mas começara por defender Marques Mendes); agora sobre um tema tão fulcral quanto o combate à corrupção.

Sintomáticos são, ainda, os sinais de namoro de Rio ao PSD-Porto (a importante distrital do partido de quem se tinha distanciado), ao defender Agostinho Branquinho, muito próximo de Marco António, o líder da distrital, para as listas do Parlamento Europeu. Manuela vetou-o, mas o gesto de Rui Rio ficou. Para memória futura?

Não foi brilhante a estreia de Manuela a fazer listas. Houve pressões, cedências e amuos. Candidatos ao PE passaram... de braço no ar.

Ferreira Leite diz não gostar de negócios mas viu-se obrigada a virar do avesso a lista ao PE para evitar brechas irremediáveis no PSD e, apesar das cedências, deixou um rasto de insatisfação.

A decisão de excluir quase todos os actuais eurodeputados causou mau-estar em Estrasburgo, com Manuela acusada de parecer "um manual de instruções sobre como não fazer as coisas". Graça Moura e Silva Peneda confiaram ficar (a líder ter-lhes-á telefonado a garantir-lhes estar a fazer tudo para os manter) mas os reequilíbrios internos condicionaram tudo.

À partida, certos estavam Rangel como nº1 e Carlos Coelho como nº2. Pela lei das quotas, em 3º, 6º e 9º ficariam mulheres e Mário David (ex-assessor de Durão) seria o 4º. Braga, a distrital que vale mil votos em directas, exigia um lugar. A JSD também e deveria ter o 7º, e a Madeira aceitou, numa negociação Jardim/Manuela, o 8º lugar, com a garantia de dois deputados por Lisboa nas legislativas.

Sérgio Marques, da Madeira, bateu com a porta. E Berta Carbral, líder do PSD/Açores, ameaçou abrir guerra com a Região em 10º. O repto resultou e os Açores ficaram em 6º, com Céu Neves, consultora do PR, a substituir Duarte Freitas, que saiu. A Madeira exigiu subir e Nuno Teixeira, em vez de Sérgio Marques, passou de 8º para 5º. Foi a vez de Aveiro exigir o 7º lugar para Regina Bastos, que já esteve no PE, e Joaquim Biancard (JSD), saltou para 9º. Braga pôs um autarca em 8º e o 3º coube a Graça Carvalho, ex-ministra.

O partido aprovou a lista por unanimidade, mas de braço no ar. Com tanta crítica ao processo, como seria em voto secreto?

Daniel do Rosário

Textos publicados na edição do Expresso de 25 de Abril de 2009