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Revista "Science" não publicaria artigo do Nobel James Watson

Os editores da mais importante revista científica consideram que as declarações sobre a alegada inferioridade genética dos negros não estão fundamentadas. E não hesitariam em censurar o prémio Nobel da Medicina (de 1962). A "Science" foi distinguida, a par da "Nature" com o Prémio Príncipe das Astúrias.

José Pedro Castanheira (texto) e Ana Baião (fotos), enviados a Oviedo

A revista "Science" não publicaria nenhum texto do professor e Nobel da Medicina James Watson que retomasse as suas recentes e polémicas declarações sobre a alegada inferioridade dos negros em matéria de inteligência, provocada por razões de ordem genética.

Foi o próprio editor, Colin Norman, quem o afirmou hoje, taxativamente, em resposta a uma pergunta do Expresso: "Se nos está a perguntar se publicaríamos um texto de opinião de James Watson com esse tipo de observações, a resposta é não". Antes, já o seu colega Andrew Sugden, chefe da edição internacional da "Science", o dera a entender, ao enfatizar que, em termos genéricos, "todas as declarações sobre matérias científicas devem basear-se em provas. E duvido que qualquer declaração sobre herança genética esteja fundamentada em provas". Além disso, lembrou o procedimento daquela revista norte-americana, que obriga qualquer artigo "a ser visto previamente por um comité científico e editorial". É esta regra que leva a que, dos mais de 12 mil manuscritos científicos que chegam todos os anos à redacção da "Science", "apenas se publicam menos de oito por cento".

A "Science" é considerada, juntamente com a britânica "Nature", a principal revista científica do mundo. Razão porque ambas foram distinguidas este ano com o Prémio Príncipe de Astúrias de Comunicação e Humanidades.

Dois dos membros directivos da "Science" deram uma conferência de Imprensa na quarta-feira em Oviedo. Interrogado sobre qual o maior "furo" da centenária revista, Andrew Sugden admitiu que, "provavelmente, foi a descrição do genoma humano", o que também foi feito pela "Nature" em 2001. "Em termos de ligação entre ciência e sociedade, e ciência e política", Sugden sublinhou "a enorme importância da atribuição do Prémio Nobel da Paz" deste ano a Al Gore e ao Painel Inter-Governamental sobre Mudanças Climáticas, a instituição da ONU reconhecida como a principal autoridade científica sobre o aquecimento global. O editor da "Science" previu ainda que "a investigação na área da genética irá registar rápidos progressos nos próximos anos".

"Declarações do Presidente do Irão são difamatórias"

Antes, apresentaram-se na sala de imprensa do Prémio Príncipe de Astúrias uma delegação do Yad Vashem (o Museu da Memória do Holocausto, de Jerusalém), a que foi atribuído o prémio da Concórdia. Perla Hazan, a directora para os países de línguas ibéricas, fez-se acompanhar de três judeus sobreviventes do holocausto. Um deles, o polaco Zygmunt Fleischer, figurava na famosa lista de Schindler - que o realizador Steven Splielberg imortalizou com o filme homónimo -, com o nº 610. Ele a mulher, Anna de Rotter, igualmente polaca, vivem na Venezuela, onde conseguiram criar uma cátedra numa universidade católica precisamente sobre o holocausto. Zygmunt sublinhou que o filme de Spielberg "reflecte exactamente o que se passou". E apelou a que se divulgue o que ocorreu. "Esse é o principal objectivo do museu Yad Vashem, principalmente entre a juventude", acentuou a sua directora para os países ibero-americanos.

O Expresso pediu aos sobreviventes que comentassem as insistentes declarações do presidente do Irão, Ahmadineyad, negando a existência do holocausto. A resposta foi dada por Jaime Vándor Koppel, um judeu de origem austríaca que conseguiu escapar do nazismo através da Hungria, com o auxílio do então embaixador de Espanha em Budapeste. "A opinião pública internacional foi unânime ao classificar essas declarações de difamatórias e incitadoras ao ódio", comentou Jaime Koppel, para quem os que negam o holocausto "fazem-no ou por simples interesses políticos - como é o caso em apreço - ou por ignorância. Em qualquer dos casos, são culpados [pela difamação] e não se lhes pode dar nenhum crédito".

Já no final da conferência de Imprensa, o Expresso quis saber se Jaime Koppel estaria disponível para expor de viva voz ao presidente iraniano o que foi a experiência dos judeus perseguidos pelo nazismo. "Não sou político, prefiro não dizer mais nada", limitou-se a dizer. Antes, este sobrevivente reconhecera que os países lidam de maneira muito diversa com o fenómeno da perseguição aos judeus. Na antiga Alemanha Federal, por exemplo, "há quase uma obsessão", traduzida designadamente na literatura, no cinema e no teatro, "em tentar compreender como é que os alemães se deixaram levar por aquelas ideias nefastas". Já na antiga Alemanha Democrática, "toda a história do holocausto foi varrida". Para as autoridades comunistas, "não havia que falar do passado, mas sim enfrentar o futuro". Por outro lado, criticou a situação na Polónia, "onde algumas manifestações anti-semitas estão a ser toleradas". Num campo oposto, lembrou que há países que já fizeram aprovar legislação "que pune os que negam a existência histórica do holocausto".

Bob  Dylan não vem nem se faz representar

Criados em 1981, são oito os prémios distribuídos anualmente pela Fundação Príncipe de Astúrias. Para além dos dois já referidos, os laureados deste ano são Al Gore (Cooperação Internacional), Bob Dylan (Artes), Peter Lawrence e Ginés Morata (Investigação Científica e Técnica), Amos Oz (Letras), Ralf Dahrendorf (Ciências Sociais) e Michael Schumacher (Desporto).

O cantor norte-americano Bob Dylan, ícone da geração de sessenta, não compareceu em Oviedo e, tanto quanto se sabe, nem sequer se fará representar na cerimónia de entrega dos prémios - 50 mil euros e uma estatueta da autoria do artista catalão Joan Miró. O sociólogo e economista alemão Ralf Dahrendorf far-se-á representar pela mulher. Quando ao também alemão Michael Schumacher, sete vezes campeão do mundo de Fórmula 1, vem apenas para a cerimónia, não estando prevista nem conferência de imprensa nem qualquer outra entrevista.

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