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Retirados 500 cádaveres do Atlântico

Milhares de imigrantes oriundos de África já perderam a vida na viagem a caminho do arquipélago das Canárias. Só este ano já foram retirados 500 cadáveres do Atlântico.

A avalanche por via marítima da imigração ilegal continua em Espanha, a par da discussão da necessidade de adopção de regras comunitárias com o objectivo de um controlo mais eficaz nas fronteiras externas. Para o presidente da Associação Guineense de Solidariedade Social, não são os planos de contingência nas fronteiras marítimas que vão travar a entrada de ilegais na Europa. A batalha, defende Fernando Ka, deveria começar pelo levantamento do sigilo bancário e pela investigação dos investimentos imobiliários dos governantes africanos cujos negócios proliferam como cogumelos na Europa.

Em declarações ao EXPRESSO, o ex-deputado socialista diz que, sendo a pobreza a causa da imigração clandestina, é “inútil” a Europa continuar a “injectar dinheiro sem qualquer controlo” nos países de origem dos imigrantes. Pelo que considera urgente a discussão do problema no âmbito das Nações Unidas, “para que haja um compromisso sério de investimento das ajudas internacionais, através de projectos credíveis, por parte dos governantes africanos”.

“Em certa medida, a Europa é cúmplice da má governação, da corrupção” nos países de origem dos imigrantes ilegais, afirma Fernando Ka, que esteve recentemente na Guiné onde contactou guineenses que estiveram muito tempo na Mauritânia, "em condições desumanas", a tentar dar o salto para o continente europeu.

“Há uma certa hipocrisia. A cumplicidade começa quando fechamos os olhos para o desvio de dinheiro, para o mau uso das ajudas internacionais”, afirmou.

Portugal não foge à regra: “Não há nenhum dirigente guineense que não tenha um andar e contas bancárias em Portugal, que não são fruto do seu trabalho. Toda a gente sabe disso”.

Cooperação Norte/Sul

O plano de contingência anunciado recentemente pelo Governo para travar a imigração clandestina por via marítima ainda está “em fase de elaboração”. O documento deverá alegadamente ficar pronto até ao final do ano, mas segundo o assessor de imprensa do MAI, Duarte Moral, ainda é cedo para avançar com mais pormenores “para além do que já foi divulgado”.

Em declarações ao EXPRESSO, Teresa Tito de Morais considera essencial a partilha de responsabilidades entre os Estados para o auxílio aos imigrantes clandestinos e refugiados, mostrando-se satisfeita com o facto de o Ministro da Administração Interna (MAI) – que tutela o plano de contingência – “colocar a tónica na questão humanitária”.

Para a presidente do CPR, “esse organismo poderá ter um papel determinante na salvaguarda dos direitos humanos destas pessoas que merecem todo o nosso respeito pela coragem e perseverança que demonstram ter quando a sua vida está, muitas vezes, em risco”. Lamenta, no entanto, o facto de o CPR não ter sido contactado pelo MAI: “Para além de uma coordenação entre diferentes organismos governamentais, deveria ter sido considerado um envolvimento de organizações não-governamentais de auxílio aos imigrantes e refugiados, que não devem nem podem estar excluídas desta discussão e de todo este processo”.

Teresa Tito de Morais – que se desloca esta sexta-feira a Malta, acompanhada por representantes do Centro Distrital da Segurança Social de Lisboa, do Centro de Formação Profissional para o Sector Alimentar e da Santa Casa de Misericórdia, com o objectivo de comparar as políticas de acolhimento e integração dos requerentes de asilo – mostra-se preocupada “com o envolvimento de Portugal em relação ao grave problema humanitário dos refugiados”.

Na sua opinião, o país deveria ter um papel mais activo. “Tenho a certeza de que Portugal poderá fazer mais pelos requerentes de asilo, com novas e boas infra-estruturas de acolhimento e uma articulação com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados”.

Também a organização Médicos do Mundo-Portugal está preocupada face à continuação da entrada massiva de imigrantes clandestinos oriundos da África Subsariana e as medidas que estão a ser preparadas para a travar. Em comunicado recente, defendeu “um debate alargado e  profundo sobre o problema” cuja solução “tem de passar pelo fim das causas que o originam – a pobreza extrema que vivem milhões de pessoas naquele território”.

Refira-se que os 12 refugiados provenientes dos enclaves de Ceuta e Mellila que foram acolhidos por Portugal em Janeiro – a pedido do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres – já abandonaram as instalações do CAB-Centro de Acolhimento da Bobadela do CPR e estão em fase de integração na sociedade portuguesa. Continuam, porém, a  ter aulas de português e a usufruir temporariamente de uma ajuda para alimentação e alojamento oferecida pelo CPR.

Desde o dia 7 de Agosto, continuam a residir no CAB cinco imigrantes, provenientes da Etiópia e Eriteia, no âmbito de novo processo de reinstalação. Em Novembro, o CPR inaugura o novo centro na Bobadela, cuja capacidade passará de 23 para 35 refugiados.