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Reportagem - Body Art: O corpo é uma tela em branco

Transformam as formas naturais do corpo, sujeitam-se às dores mais severas em rituais de domínio da mente.Vaidade, crença, superação: a body art tem cada vez mais adeptos em todo o mundo.

Reportagem de Paula Cosme Pinto (texto) e José Ventura (fotografias) (www.expresso.pt)

"Para mim o corpo é como uma parede pronta para ser decorada". Ruben, carinhosamente apelidado por Binho, tem apenas 26 anos, mas já perdeu a conta a quantas modificações corporais fez. Além do manto de tatuagens que o cobre da cabeça aos pés, tem ainda múltiplos piercings, a língua bifurcada, alargadores de orelhas e implantes de silicone debaixo da pele que lhe criam formas pouco comuns, como por exemplo, dois pequenos chifres na testa. "Medo de um dia me arrepender? Nem pensar", assegura. "O que faço é body art. Só ainda não descobri uma forma bonita de terminar a minha obra pessoal".

Binho é o primeiro profissional em Portugal a vender ao público os seus serviços de modificador corporal. Original de São Paulo, chegou à Europa há oito anos e por cá ficou. Depois de quase dois anos em Barcelona "a trabalhar no meio e a aprender com alguns dos melhores", decidiu tentar a sua sorte em Portugal. Actualmente oferece os seus serviços na loja de tatuagens "Ink Lisboa": "Clientela não falta. Comecei devagarinho, com divulgação boca a boca e agora já vivo só disto".

Para que nada falhe, usa o corpo como tubo de ensaio: "Faço tudo primeiro em mim para ter noção dos processos. Só depois desenvolvo noutras pessoas". As mulheres são as suas maiores clientes e a escarificação - tatuagem feita com a incisão de um bisturi em vez da habitual tinta - é o trabalho mais procurado.

É o caso de Marisa, 24 anos, que durante duas horas é cortada nas costas, onde pretende ficar com uma scar (cicatriz) em formato de flor de lótus. Mais do que o lado estético, a cozinheira da margem sul afirma ser uma "forma de marcar o fim definitivo de uma época de sofrimento com este último". A dor não foi novidade já que é a segunda vez que faz uma scar (na primeira desenhou uma estrela, que simbolizava o nascimento da filha). Contudo, não teve dúvidas quando optou por uma escarificação em vez de uma tatuagem normal: "A scar não pode ser removida a laser, vai ficar para sempre mesmo. Assim como as memórias deste período da minha vida".

Durante duas horas Marisa foi tatuada nas costas... com um bisturi

Durante duas horas Marisa foi tatuada nas costas... com um bisturi

De luvas pretas - para se ver menos o sangue que escorre nas costas de Marisa - Binho explica que, desde as scars aos implantes de silicone (onde é feita uma incisão, descolada a pele do músculo, inserida a peça de silicone e por fim a costura), todos os seus trabalhos são feitos sem anestesias. "Não sou médico, nem anestesista. Não estou autorizado por lei. Funciona como nos piercings e nas tatuagens normais".

Binho admite que em Portugal este tipo de trabalho é feito à porta fechada por outros adeptos da modificação corporal, mas escusa-se a dizer onde ou quem o pratica. Por agora é pioneiro na abertura ao público, mas deixa clara a sua conduta: "A higiene é regra número um". Todos os instrumentos que usa são descartáveis e o espaço onde trabalha é devidamente desinfectado. Todos os seus clientes são seguidos por ele depois dos trabalhos concluídos, com avisos sobre infecções, períodos de recuperação, administração de anti-inflamatórios e exposições ao sol. Quanto à dor, é peremptório: "Há quem diga que dói menos que uma tatuagem, há quem ache demasiado agressivo. Para mim é tudo psicológico: a dor é controlada mentalmente".

Pendurados por ganchos

Joel é o principal impulsionador do evento Team Suspension, em Madrid

Joel é o principal impulsionador do evento Team Suspension, em Madrid

O domínio da dor é outra forma de body art que está em ascensão um pouco por todo o mundo. As suspensões corporais - onde os participantes furam a pele com grossos ganchos e são posteriormente pendurados nas mais diversas posições -  têm cada vez mais adeptos, de todas as idades, géneros e diferentes meios sociais.

Embora em Portugal estes rituais aconteçam ainda longe dos olhares curiosos e das autoridades, na vizinha Espanha há já um evento anual onde qualquer pessoa pode entrar, ver, experimentar e tirar as suas dúvidas. "Como este é um mundo muito fechado, decidimos fazer a Team Suspension aberta ao público em geral", conta Joel, um madrileno que trabalha há dez anos no ramo da body art e há seis a liderar a empresa A Sangre Fria, que se dedica a organizar suspensões corporais.

 "É uma extravasão, uma forma de expressar com o corpo uma série de sentimentos e estados", explica Joel. " Muita gente pergunta: é um prazer parecido com o sexo? Não, são coisas paralelas. Há que entender que as suspensões são uma arte que se baseia em aceitação e superação. Primeiro: assumir a dor. Segundo: enfrentá-la. Quando a superas há uma satisfação pessoal muito grande, porque te sentes poderoso, realizado".

"Team Suspension" ganha fama internacional

Dentro de um armazém nos arredores de Madrid mais de cem pessoas são, durante um fim-de-semana, suspensas. As paredes são pretas e a música varia entre o metal e os sons calmos de meditação. Também aqui, a higiene é lei. Pelas marquesas, desinfectadas a cada novo participante, passam pernas, braços, costas, peitos que são furados sem anestesia. As cicatrizes, essas ficam para sempre. Homens e mulheres, muitos deles com visíveis modificações corporais, mostram-nas com vaidade enquanto aplaudem entusiasticamente aqueles que dão o passo da superação da dor.

Rolf, um alemão de 50 anos, é silencioso mas não passa despercebido. Com a cara cravejada de piercings e o corpo totalmente tatuado, é um habitue no circuito europeu da suspensão corporal. Durante mais de uma hora fica pendurado por ganchos, enquanto o sangue lhe escorre lentamente pelas pernas. "Não dói", diz sem demoras. "Passo para outro nível, consigo até mesmo sonhar. Acho que estou viciado".

Rolf, 50 anos, diz que passa para outro nível onde há sonho em vez de dor

Rolf, 50 anos, diz que passa para outro nível onde há sonho em vez de dor

Todos os meses, Rolf procura um sítio onde possa ser suspenso. O mesmo acontece com as suas modificações: Fez o primeiro piercing aos 40 e dez anos depois tem mais de 400 espalhados pelo corpo. Não é casado, nem tem filhos. Trabalha como informático numa empresa de telecomunicações e garante nunca ter tido problemas por causa da sua aparência. Embora alguns o achem "bizarro", o alemão gosta do que vê ao espelho: "As tatuagens fazem-me sentir bonito. Já os piercings e os implantes de silicone nos braços não são só uma questão visual, gosto de senti-los em mim".

Rolf é conhecido e respeitado no meio, mas não faz vida da body art. Há quem leve a transformação corporal ao extremo e se torne em estrela de performances. É o caso do americano "Lizzardman", que tem o corpo totalmente tatuado de verde, a língua bifurcada e implantes de silicone, tudo para se assemelhar a um lagarto. Pelo mundo fora existem ainda o homem leopardo, o homem gato e uns outros quantos que ganham dinheiro com a sua aparência.

Longe da visão do negócio, a equipa da A Sangre Fria afirma que o seu evento não é uma forma de fazer dinheiro e que os seus participantes não vão em busca de protagonismo. Já habituado ao preconceito de quem nunca entrou neste mundo, Joel conclui: "É um clássico dizerem-me que sou louco. A essas pessoas eu pergunto: o que é a loucura? Muitas mulheres põem silicone  no peito para se sentirem melhores com elas próprias. A mim isto também me faz sentir bem. O corpo é meu, faço com ele o que eu quero".

As minhas angústias no meu corpo

Mas se para muitos as modificações corporais ainda são um sinónimo de exclusão social, para o psiquiatra António Sampaio a visão é outra: "Embora, por vezes, possa haver problemas de identidade, já não está ligado a nenhuma marginalidade. Pelo contrário: é uma forma de reflexão sobre as questões existenciais". Numa sociedade "onde se perdeu a crença comum", o especialista garante que muitas vezes as modificações são um mecanismo compensatório dos próprios medos e fantasias de quem as faz".

"Ao inscrever uma determinada ideia no meu corpo é uma espécie de juramento de fidelidade que faço à minha própria causa", diz o médico. Talvez por isso sejam muito comuns casos como o de Marisa, que fez as suas scars a pensar na filha. "A necessidade de fidelização àquela criança, de alguma forma compensa o medo e a angústia sobre a capacidade de ser uma boa mãe. Tê-la presente no corpo dá uma tranquilidade inconsciente". Já nos homens, as tatuagens com símbolos de virilidade - como espadas ou serpentes - colmatam, muitas vezes, inseguranças da infância e da adolescência.

As transformações acabam por substituir as fragilidades para algo físico". Nesse sentido, acrescenta António Sampaio, quanto maior for a dor ao marcar aquele momento ou ideal no corpo, mais dificilmente a pessoa se irá esquecer da razão que a levou a fazer. Quanto ao prazer da superação da dor, o médico lembra: "Perdeu-se a fé comum. Vivemos numa sociedade narcísica onde o Deus sou "Eu". Eu passo a ser o objecto da minha própria contemplação e prazer. Eu sou competente, não porque sou licenciado, mas porque resisto à dor. O corpo é o nosso actual ícone."