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Renováveis pressionam ecossistemas

Empresários reconhecem que por vezes não sabem muito bem como "objectivar a defesa da biodiversidade nos negócios".

Mário de Carvalho

A pressão sobre as áreas protegidas para a instalação de parques eólicos e construção de barragens pode pôr em causa a biodiversidade, ainda existente nesses locais, igualmente ameaçada pela construção de vias rodoviárias.

O alerta foi lançado por Henrique Miguel Pereira, do Departamento de Gestão de Áreas Classificadas do Norte, do ICNB-Instituto da Conservação de Natureza e da Biodiversidade, durante o encontro do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável que decorreu em Lisboa.

Segundo Henrique Miguel Pereira, as pressões das "energias renováveis" em zonas naturais, representam um "risco" na preservação desses espaços pois são instaladas, geralmente, no cume das montanhas podendo, inclusive, alterar o sistema de recursos hídricos, provocar erosão e danificar o habitat das espécies.

Relativamente às construções de barragens, Miguel Pereira alertou ainda para o facto de estas infra-estruturas poderem fragmentar habitats e reduzirem os transportes de sedimentos nos rios aumentado a erosão na zona costeira. Recordou que outro dos impactos negativos é a perda de valores paisagísticos dos rios selvagens. E para que não houvesse dúvidas, sobre o que pode estar em risco, apelou aos convidados presentes no encontro, a visitar a região do rio Sabor para observarem "a riqueza natural de um rio ainda selvagem".

O responsável do ICNB destacou igualmente a necessidade de preservar e valorizar a floresta nativa como um dos meios de combate aos incêndios e conservação das espécies. Mais de 45% as espécies de anfíbios, répteis, mamíferos, aves e borboletas estão associados ao ecossistema da floresta.

"O carvalhal e a azinheiro estão a desaparecer, sendo substituídos por pinheiros e eucaliptos", disse Miguel Pereira, ao mostrar um mapa onde as manchas florestais em Portugal, indicam que os carvalhais, uma das características da paisagem nortenha, são agora minoritárias.

Assumindo a defesa do carvalhal, Henrique Miguel Pereira indicou tratar-se de uma árvore resistente aos fogos, enquanto as monoculturas de pinheiro e eucalipto têm um comportamento contrário.

Durante este debate, o presidente do Grupo Portucel/Soporcel, Pedro Queiroz Pereira, afirmou : "Não tenho oleado o discurso de fé em defesa de biodiversidade".

Queiroz Pereira encara a floresta como um ramo de negócio, garantindo que o sector das celuloses, pelo qual é responsável, tem "boas práticas de silvicultura".

Uma avaliação científica internacional do "Millennium Ecosystem Assessment" indica que, nos últimos 50 anos, a actividade humana alterou substancialmente os ecossistemas como nunca foi visto na história da Humanidade. As alterações do uso do solo, provocados pelos fertilizantes, pesticidas, alterações climáticas, a introdução de novas espécies e o desaparecimento de outras, como de insectos, constituem alguns dos elementos de desequilíbrios, em conjunto com o aumento da população e a globalização da economia.

Na sua intervenção, Henrique Montelobo, da Sonae Turismo, afirmou: "Os custos da biodiversidade podem ser esterilizados pelas empresas. Por vezes não se sabe muito bem como objectivar a defesa da biodiversidade nos negócios ainda que esta preocupação esteja cada vez mais presente nos gestores".

Um das sugestões avançadas por Henrique Montelobo foi a da criação de um fundo de compensação para os projectos que possam colocar em causa a Natureza. No fundo, a perda de biodiversidade leva igualmente à perda de benefícios económicos.

No caso da floresta portuguesa, avaliada em mil milhões de euros, a desvalorização dos seus produtos, como a cortiça, ou o aparecimento de doenças ou pragas podem ter impactos negativos em termos ambientais e económicos.

Esta semana, a chanceler alemã, Angela Merkel, anunciou que o seu governo vai subsidiar a protecção ambiental da floresta com mil milhões de euros. As verbas serão concedidas em duas fases. A primeira em 2009 e a segunda em 2012.