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Refugiados nas montanhas

Destruição, desespero e impotência: eis o retrato do Líbano, uma nação despedaçada pela força da guerra

SUA Excelência Nabil Haj, arcebispo de Tiro, foi ontem para as montanhas à procura do seu rebanho. «A diocese é grande, cobre quase todo o sul do Líbano», disse ele. «Em tempos normais, teria aqui 50.000 maronitas, mas neste momento muito me surpreenderia se ainda houvesse 10.000. Os restantes fugiram aos combates».

A sua primeira paragem foi na aldeia cristã de Ein Ibil para visitar as freiras de lá, mas tinham caído alguns obuses perto do convento e as freiras também tinham partido.
Em vez delas, o Dr. Haj foi recebido por ruas desertas, cobertas de estilhaços e por casas vazias com paredes e telhados esburacados pelas bombas.

Cinco quilómetros para sudoeste, a artilharia israelita metralhava em campo aberto, apenas um pouco para lá da aldeia vizinha de Ayta. Planadores telecomandados voavam em círculos ao mesmo tempo que os obuses se esmagavam no chão a intervalos de segundos, o som produzido pelo impacto ecoando pelas montanhas.

«É assim a Terra Santa» , explicou o arcebispo. «Como cristãos temos uma missão espiritual aqui, a de fazer a paz entre os judeus e o povo muçulmano. Venho aqui para dizer às pessoas que ficaram que são elas que hão-de trazer uma nova nascente. Rezo a Deus para que o Líbano seja protegido e continue a sua missão no mundo como um país onde diferentes religiões e culturas se entenderam e não como um país de conflito».

Um obus por segundo

A igreja maronita do sul do Líbano devia estar a celebrar este ano o seu quarto centenário, mas o jubileu foi cancelado e a igreja paroquial de Ein Ibil está fechada. Não chegavam a uma vintena de pessoas. 

Contudo, a notícia da chegada do arcebispo espalhou-se de algum modo e a maioria dos habitantes que ainda restavam na aldeia veio a correr para o ver.

Georgette Kasrooni, de 70 anos, abraçou-o e desatou a chorar. «Estão a bombardear a estrada para Rameish», gritou ela. «Os nossos filhos estão lá. O que havemos de fazer? Para onde devemos ir? Não temos pão, nem combustível, nem energia».

E o arcebispo foi levado dali para beber um café e associar-se aos sinais de consternação em casa de Suleiman, mesmo à saída da aldeia, que já foi atingida por diversas vezes por mísseis israelitas. 

«A minha casa também foi completamente destruída, por isso vim para ficar aqui» , diz Therese Suleiman, 50 anos, mãe de doze filhos. «Havia trinta como nós aqui, a dormir na cave, quando as bombas caíram. Até agora, graças a Deus ninguém morreu, embora haja sete ou oito feridos. Deus está a olhar por nós».

Lá fora o bombardeamento está agora mais próximo e a sua intensidade é de um obus por segundo, uma barragem com a intensidade da Primeira Guerra Mundial. O fumo das explosões encheu lentamente o vale até Ayta desaparecer.

«Significa muito o facto do arcebispo ter vindo até aqui, mas precisamos de muita ajuda» , diz Therese Suleiman. «Os nossos filhos estão em Rameish e agora não sabemos se podemos ir buscá-los porque há cada vez mais bombas. Eu durmo em Rameish».

Então porque não obedecer às ameaças de Israel e fugir, como fizeram nos últimos dias 2.000 residentes da aldeia?

«Esta é a nossa casa e não a vamos abandonar, nem mesmo agora» , diz ela. «Para onde é que havíamos ir»?

Tradução de Aida Macedo