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«Reescrever o futuro» das crianças

Quarenta e três milhões de crianças não podem ir à escola. A denúncia é da organização não governamental «Save the Children».

"A educação é a arma mais poderosa de protecção das crianças". Esta é uma das conclusões de um estudo divulgado hoje pela ONG «Save the Children».

O relatório relança a discussão sobre a situação do sistema educativo nos países afectados por conflitos armados, que têm uma duração média de dez anos. Os cenários de guerra afectam 43 milhões de crianças que "passarão toda a sua infância sem receber educação", informa a ONG.

Histórias reais

Sifa tem 15 anos e vive em Darfur, no Sudão. Há dois anos foi sequestrada e violada por soldados. Foi obrigada a integrar a milícia e a combater como um soldado. "Estávamos cansados dos ataques e da guerra. Morreram filhos e pais. Não havia escola. Tudo era mau e caótico. Em vez de ficarmos à espera que nos assassinassem, pensámos que era melhor convertermo-nos em combatentes activos". Foi o que fez durante três anos.

Tal como Sifa, também Henang foi apanhado nas teias da guerra. Foi sequestrado, aos 13 anos, pelas guerrilhas maoístas do Nepal. Passados dois, ainda não regressou a casa. Consideram-no um traidor, por ter delatado os seus sequestradores. O seu drama começou precisamente na escola que frequentava, quando um soldado da guerrilha lhe apontou uma arma, forçando-o a acompanhá-lo. Esteve nove meses detido, tentou fugir várias vezes e, em todas elas, foi violentamente agredido pelo comandante que matou antes de conseguir, finalmente, escapar.

"Quando era pequena só conhecíamos a guerra, essa era a nossa educação". É Sarah, uma sudanesa de 15 anos, quem o diz. A menina perdeu o pai e o irmão na guerra e hoje vive numa cabana, resguardada por paredes de barro e tecto de palha, com a mãe e a irmã mais nova. Sarah integra os 28% de meninas que frequentam a escola, no Norte do Sudão. "Ao início pensei que a escola era só para os rapazes. Mas deram formação a professores e aceitaram que as raparigas também têm direito à educação".

Apesar da distância geográfica que os separa, estes três jovens partilham o quotidiano da guerra e a frustração de uma infância interrompida. A «Save the Children» quer inverter esta tendência e, por isso, lançou a campanha mundial "Reescrevamos o futuro", com o objectivo de "proporcionar educação de qualidade a oito milhões de crianças que vivem em países afectados por conflitos armados até ao ano 2010".

Os donativos irão permitir que três milhões de crianças vão pela primeira vez à escola e outros cinco milhões beneficiem de um ensino com mais qualidade.

NÚMEROS ALARMANTES

– Desde 1990, 80% das vítimas civis de guerras são mulheres e crianças. Durante a última década, dois milhões de crianças foram assassinadas em conflitos armados, seis milhões ficaram feridos e outros 20 milhões foram obrigados a abandonar as suas casas;

– Dezasseis dos vinte países mais pobres do mundo estiveram em guerra nos últimos 20 anos;

– Na República Democrática do Congo, mais de 5 milhões de crianças entre os 6 e os 11 anos não vão à escola, e mais de 6 milhões de crianças entre os 12 e os 17 nunca receberam instrução;

– Em Dafur, no Norte do Sudão, só 39% dos rapazes frequentam o 1º ciclo. As raparigas não ultrapassam os 20%;

– No Nepal, entre Janeiro e Agosto de 2005, foram sequestrados pelas milícias 11.800 estudantes de escolas rurais;

– No Afeganistão, menos de 15% dos professores possuem título profissional e têm turmas que podem chegar aos 200 alunos;

– Na Libéria, a guerra civil converteu em ruínas 80% das escolas do país.