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Raptora de Andreia fica em prisão preventiva

Em menos de três horas a PSP de Valongo desfez o mistério do rapto da bebé de Penafiel desaparecida há um ano. A família biológica espera ter Andreia em casa até ao final da semana.

Carlos Manuel ainda não acredita como foi possível a mulher, Alice, tê-lo engano durante um ano sobre a paternidade de Joana, o nome que escolheu para a filha que julgou ter nascido a 17 de Fevereiro de 2006 no Hospital de Santa Maria da Feira e que desde então criou como sua. Enquanto mostrava aos jornalistas as dezenas de fotos digitais tiradas à filha desde esta chegou a casa, Carlos murmurava com voz embargada não perceber como “ela teve tanta coragem para fazer o que fez”. “Nunca pensei que isso um dia me acontecesse...”, desabafou, saindo momentaneamente da sala para esconder as lágrimas.

Não sabe se um dia voltará a ver Andreia, o nome que os pais biológicos deram à menina raptada com três dias no Hospital de Penafiel e que só voltaram a ver ontem nas instalações da Polícia Judiciária, do Porto. Isaura Pinto, a verdadeira mãe, não tem dúvidas que a criança que voltou a ter no colo por breves minutos é a sua filha, tão parecida é com um dos irmãos. “É a cara mãe”, observa Rosa Barbosa, a subcomissária da PSP de Valongo, responsável pela captura da sequestradora, a quem o Tribunal de Penafiel decretou, hoje, a pena de prisão preventiva até ao julgamento.

Os testes de ADN, feitos em tempo recorde através de recolha de saliva, confirmaram hoje ao fim da tarde que Isaura e Albino Pinto são os verdadeiros pais da criança desaparecida há mais de uma ano. Em Cernadelo, a família espera ansiosa pelo regresso de Andreia antes do fim-de-semana, enquanto que em Valongo a família adoptiva desfez-se em meia dúzia de horas.

Denunciada pela cunhada Amélia, que vinha acumulando suspeitas que algo de errado se passava com a criança a quem a mãe sempre protelou o registo de nascimento, Alice foi escoltada, por volta do meio-dia de ontem para as instalações da PSP de Valongo, onde depressa confessou o rapto da criança sem esconder pormenores.

Segundo Rosa Barbosa, fê-lo para manter uma relação instável e que ameaçava ruir a qualquer instante. “A vinda de uma criança comum ao casal era uma muleta para ela, que vivia sem rectaguarda familiar nem outro meio de subsistência para além do ordenado do companheiro”, refere a subcomissária, que aguardava hoje pela notificação das medidas de coacção de Alice antes de tentar localizar o ex-marido, pai das suas duas filhas de 13 e 10 anos. “Quando lhe perguntei pelo pai das filhas, disse-me que era como se não existisse e que há anos não sabia do seu paradeiro”; acrescenta Rosa Barbosa, membro da Comissão de Menores de Valongo, onde as crianças ficaram sinalizadas desde ontem.

Ainda na PSP de Valongo, as filhas ficaram a saber que afinal Joana não é irmã delas e que a mãe iria ser detida. Com o consentimento da mãe, a mais velha foi encaminhada temporariamente, conforme sua vontade, para casa de uma amiga de escola. A mais nova ficou a viver com uma tia adoptiva, sobrinha do padrasto.

“O núcleo familiar que a Alice tentou unir recorrendo ao rapto deixou de existir, tendo agora a Comissão de Menores e o Tribunal de encontrar a melhor solução para o futuro das criança”, frisa Rosa Barbosa.

O filho de 15 anos que Carlos Manuel adoptou durante um anterior casamento, ficará a viver com ele, que já decidiu que irá passar a residir em Valongo todos os dias em vez de só aos fins-de-semana, como até agora. A trabalhar na EDP em Coimbra, Carlos sustenta que nunca suspeitou que Alice pudesse não estar grávida por ser muito forte e volumosa, “até porque já tinha tido duas filhas”.

Segundo Amélia, o maior foco de desentendimentos entre o casal que vivia em comunhão de facto há três anos, em Valongo, era as desculpas sucessivas de Alice em arranjar os papéis de nascimento para que Joana fosse registada. “Dizia que estavam no Hospital de santa Maria da Feira, onde nascera a Joana. Depois dizia que tinha ido procurá-los mas que já não estavam no hospital e quem os tinha era uma amiga”, conta.

No último domingo, farto de desculpas, Carlos enviou à irmã um SMS dizendo que algo de errado se passava com o nascimento da filha. Ontem, às 9 horas da manhã, Amélia resolveu contar a situação à Comissão de Menores de Valongo, que a aconselhou a verificar se a criança está registada na Conservatória Local. “Não estava registada nem aqui, nem em Santa Maria da Feira, conforme me disse o funcionário. Foi então que decidi fazer queixa na PSP”, acrescenta Amélia, sustentando que o irmão nunca chegou a visitar Alice no hospital por se encontrar a trabalhar em Coimbra e esta só o ter avisado do nascimento da bebé quanto ele chegou a casa de fim-de-semana.

Em menos de três horas, Alice dava entrada na PJ do Porto, ficando a menina numa instituição da Segurança Social. Alice confessou que tirara a menina da maternidade de Penafiel com facilidade, dado conhecer bem o hospital onde estivera internado um familiar. Após analisarem as imagens divulgadas há um ano pela Judiciária, Rosa Barbosa e Carlos Manuel não tiveram dificuldade em reconhecer a raptora como sendo Alice, a única pessoa captada pelo sistema de vídeo-vigilância do hospital, no dia do rapto, que nunca fora identificada pela PJ.

De acordo com a subcomissária, a menina não apresentava quaisquer sinais de maus-tratos, embora fosse evidente alguma negligência de higiene, bem como marcas inflamatórias de uma possível candidíase na zona vaginal. “A negligência de cuidados de higiene era visível ainda por toda a casa. Era uma daquelas situações que teriam o acompanhamento da Comissão de Menores no caso de ter existido um alerta”, conclui.