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Ramos, o empresário insistido

Uma semana após a VI Cimeira da CPLP, que se espera ter dado uma imagem mais apelativa do país, a hotelaria e a restauração são os sectores de actividade que mais benefícios imediatos extraíram do evento.

NOS DIAS que antecederam a VI Cimeira da CPLP, um bom número de pensões, residenciais, restaurante e bares abriram portas na capital guineense. Quase todos ostentavam na fachada os desenhos das bandeiras dos oito Estados membros da Comunidade Lusófona. Todos tentando tirar o máximo proveito possível de um acontecimento que raramente ocorre no país e que, no espaço de uma semana, trouxe cerca de 300 pessoas do exterior.

Nas vésperas da conferência foi inaugurado com pompa e circunstância o primeiro hotel de cinco estrelas do país, o «Bissau Palace Hotel», a uns dez quilómetros do centro, cujo luxo e sofisticação estão acima dos padrões locais.

Já ninguém se lembra da polémica que rodeou a concessão, sem concurso, do edifico em ruínas da antiga sede do Parlamento, transformado no Palace, feita pelo Governo ao empresário argelino Tarek Arezki. Na altura, alguns deputados ainda protestaram, mas o Executivo negou a existência de qualquer ilegalidade. Isso não impediu um semanário local de observar, com ironia, que «o Governo não vendeu o edifício, ele apenas foi comprado».

Por estes dias, deverá também reabrir um dos restaurantes mais emblemáticos de Bissau, o Lusófono, situado a cerca de três quilómetros do lado oposto da avenida onde está situada o Palace. Ao contrário do novo hotel, o restaurante foi construído de raiz, entre 1997 e 1998, e a sua história testemunha as convulsões que abalaram a Guiné-Bissau nos últimos oito anos. Noventa dias após a sua inauguração arrebentou um conflito militar e o país ficou paralisado durante 11 meses.

A reabertura do Lusófono ilustra ainda a determinação do seu proprietário, Francisco Ganhão Ramos, um alentejano de Ervidel, distrito de Beja, que há 16 anos escolheu o minúsculo Estado lusófono da África Ocidental, para terra de emigração, em vez de ir para a Austrália onde até tinha familiares.

Ramos, como é mais conhecido em Bissau, conta que este destino lhe foi sugerido pelos alunos guineenses que teve em Lisboa, quando dava aulas de cozinha num Centro de Formação. Muitos antes, ainda garoto, já revelava interesse em conhecer as antigas colónias de África. Talvez por causa da língua comum, ou do serviço militar que fez em Timor, «país maravilhoso dos montes Maubere, que me aguçou a curiosidade em relação à Africa de expressão portuguesa».

Obviamente, o empresário não guarda boas recordações do conflito de 7 de Junho de 1998. A construção do Lusófono tinha sido a obra-prima da sua vida e o culminar de seis anos de esforço. Além do restaurante, o empreendimento devia incluir 22 apartamentos, piscina, campo de ténis, espaço de estacionamento, zonas verdes e um parque infantil. «Estava no caminho do sucesso, mas a guerra levou-me à estaca zero», lamenta Ramos.

De um dia para o outro, o projecto ruiu, e viu-se na contingência de fechar, já que o restaurante se encontrava em Háfia, não longe do aeroporto, plena zona da rebelião. Com o receio de que o local fosse saqueado, permaneceu lá, coabitando com os homens armados e aí dormindo, na companhia de amigos portugueses, sob a ameaça das bombas. As mulheres e as crianças foram levadas para Cupedo, um local mais seguro, nos arredores da capital, na quinta do Vidigueira, um português de Ourém, que também ficou encurralado pela sublevação, e que acabou por ganhar a alcunha de «coronel».

Nesses dias de brasa nasceu o António, um dos três filhos guineenses de Ramos, hoje com oito anos. Algumas semanas depois, quando o vaso de guerra Honório Barreto - nome de uma prestigiada figura da Guiné colonial - veio resgatar os portugueses, Ramos, para proteger a família, apanhou boleia até Cabo Verde. Com o navio fundeado ao largo, só lá chegaram em lanchas pneumáticas. E a viagem foi quase digna da Odisseia. Às tantas, o barco teve uma avaria e a travessia do Atlântico foi feita só com um motor e durou dois dias.

«Dividas são dívidas»

Esteve apenas dois meses em Cabo Verde, onde ainda explorou um restaurante. Assim que o conflito cessou na Guiné, decidiu regressar, mas deixou a família na Cidade da Praia. E foi um dos seus clientes, o então cônsul português na capital cabo-verdiana, que lhe arranjou dinheiro da passagem.

Voltou ao arquipélago dois anos mais tarde, para levar a família de volta, e fez questão de devolver o dinheiro ao diplomata, apesar deste ter sido transferido para o Canadá, porque, disse, «dívidas são dívidas».

Tornou a abrir O Lusófono, em Maio de 1999, na expectativa de que o pós-conflito traria almejada retoma. Enganou-se. Apenas servia jantar, e mesmo assim muitas vezes só tinha dois clientes. Conseguiu um crédito bonificado da Cooperação Portuguesa, ainda assim não logrou endireitar o negócio, porque a constante instabilidade política no país não ajudou.

Por isso, em vez de contrair mais dívidas, optou novamente por encerrar o restaurante, em finais de 2002. Desde então, a recuperação foi penosa. Tanto mais que todo o mobiliário da sua casa desapareceu durante a guerra.

«Não foi fácil», reconheceu Ramos, quatro anos depois. «Estou quase sempre a necessitar de dinheiro, porque os bancos não emprestam e eu invisto tudo o que ganho». Aos 59 anos, valeu-lhe a experiência no ramo da restauração, onde se iniciou aos 14 anos, e que na Guiné-Bissau «é uma área em que tudo ainda está quase por fazer».

Também encontrou forças nos ensinamentos do pai, que sempre lhes dizia que «as duas coisas na vida que os pobres não podem perder são a coragem e a esperança». Além de suspender a actividade do restaurante, e de vender parte do terreno adjacente, outra solução a que recorreu para sair da crise, foi voltar a vender frango no churrasco nas modestas barracas de Carnaval, no bairro da Ajuda, à entrada da capital. Abriu duas, com o mínimo de investimentos.

Esta tinha sido a chave do seu sucesso na Guiné, quando aqui se fixou no início da década de 90, e abriu o bar Asa Branca, nome inspirado numa antiga novela brasileira, na altura muito em voga no país. Nessa altura, operava na Verbena, uma espécie de Feira Popular, mas com construções de bambu, também no bairro da Ajuda. O êxito foi tal, que em poucos anos adquiriu uma vivenda, onde instalou o restaurante Asa Branca.

O estabelecimento, na zona residencial, tornou-se passagem obrigatória de cooperante e da elite guineense. A maioria dessa clientela permaneceu fiel a Ramos, quando abriu O Lusófono, com o lucro da venda do Asa Branca. Ramos assegura que os preparativos para a reabertura do Lusófono nas vésperas da Cimeira da CPLP foram pura coincidência. Mas era um sinal de que o negócio voltava a sorrir-lhe. Além do Lusófono, explora mais três pequenos restaurantes, onde vende exclusivamente frango.

Está tão optimista que fez vontade à filha Sofia, que estuda em Lisboa, e que quis vir passar as férias de Verão em Bissau, onde não punha os pés desde o ano do conflito. Ramos diz que não receia o trabalho, que é muito. Hoje, a sua maior preocupação é que a actual acalmia na Guiné não seja de novo perturbada. Por isso, pede às autoridades «condições e seriedade no trato com os investidores nacionais e estrangeiros», mas também que garantam a estabilidade.

Quanto ao regresso a Portugal, onde tem dois filhos adultos de um primeiro matrimónio, afirma que está fora de questão. Ramos considera-se um cidadão do mundo, e nessa qualidade, à sua terra Natal, só pensa ir nas férias, para matar saudades.