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Quem é Harrison Ford?

Harrison Ford já tem idade para ser pai de Indiana Jones mas nem por isso deixa de ser o nosso herói preferido. Quinta-feira, o arqueólogo de chapéu e chicote está de volta.

Rui Henriques Coimbra, correspondente em Los Angeles

Menino adulto. Herói, mas desastrado como todos nós. Romântico, embora cínico. Professor e aventureiro. Corajoso mas com um medo terrível de cobras. Seja qual for a definição que tentemos colocar à frente do nome Indiana Jones, a contradição segue logo atrás. E seja qual for a imagem que tenhamos dessa figura lendária, a cara de Harrison Ford fica sobreposta.

O actor não é de grandes palavras, geralmente. Mas, hoje, metido num fato, gravata e óculos de intelectual no lugar do habitual chicote, chapéu e casaco de cabedal, Harrison Ford aparece demasiado limpo, leve e feliz para ser verdade. A carreira dele é, como sabemos, estratosférica desde que, há mil anos, apareceu nas sagas cósmicas do George Lucas a fazer de Han Solo, o único que conseguia achar piada à ideia de ser obliterado por um raio laser. Antes disso tinha trabalhado com Coppola. Depois disso fez o "Blade Runner". Ontem, hoje e amanhã, Harrison Ford será sempre associado à colaboração que tem com Steven Spielberg na execução dos filmes de aventuras, todos eles guardados e lembrados como tesouros por sucessivas gerações. "Menino de ouro" que gosta de trabalhar sem deixar que o ego se meta na conversa, Harrison Ford tem 66 anos e, no cadastro, um feito magnífico: internacionalmente, os filmes dele já totalizaram seis mil milhões de dólares. Mais magnífico ainda é ele não explorar o facto, recusa-se a falar do que não é indiscutivelmente público ou a portar-se como uma vedeta cheia de manias.

Com este homem toda a gente em Hollywood sabe que o filme fica bem servido, porque ele está ali para servir a história, não a sua carreira já nos píncaros. É estrela número um, o actor incansável nascido como John Wayne no Midwest. Relutante mas sorridente, sentou-se o tempo suficiente para abrir um bocadinho a porta da sua eterna privacidade. O senhor desceu da montanha e, quem sabe se por causa da namoradinha Calista Flockhart, diz-se mais feliz que nunca. Quanto ao velho Indiana Jones, o jovem Harrison Ford assegura que a criatura irrequieta estará em topo de forma quando aparecer nos cinemas já no dia 22.

Steven Spielberg disse que, quando chegou o momento de lhe entregar outra vez a farda oficial do Indiana Jones - chapéu, chicote, casaco de cabedal - serviu tudo que nem uma luva. Não me diga que tem o mesmo peso que tinha há 18 anos. De facto, sim, sou capaz de ter o mesmo peso que tinha. Faço desporto com regularidade. Além disso, para este filme era importante exercitar-me diariamente de maneira a proteger-me contra todo o tipo de distensões musculares e ossos partidos. Já houve momentos em que me magoei a fazer filmes. Agora, não é que esteja velho demais para fazer as cenas de acção - o que estou é demasiado velho para me magoar. Mantenho-me sempre em forma. Jogo ténis e vou ao ginásio de manhã cedo. Hoje, às 7 horas, já estava a jogar ténis com um treinador profissional. Depois fui correr até já não poder mais e, logo a seguir, fiz musculação durante uns 40 minutos. Só isso.

Mas as cenas de acção de qualquer Indiana Jones são exigentes e arriscadas. Não há um ponto em que tem de dizer ao Steven Spielberg e ao George Lucas 'Desculpem mas isto eu não faço!'? Porque haveria eu de dizer tal coisa? Não. Repare. Um filme é o meu exercício. É isto que faço quando quero divertir-me. Entregar as cenas a um duplo? Estão a brincar? Mas eu adoro a minha profissão. Adoro correr, saltar, ser atirado, cair e rebolar-me no pó do chão com uma cambada de criminosos transpirados. É exactamente isto que me agrada no que faço. Se não fosse isso, meu deus, acho que teria de, sei lá, representar ou coisa parecida! Não, agora a sério. Amo. É muito divertido. E sabe o que é ainda mais gratificante em tudo isto? De cada vez que faço essas cenas com o meu próprio corpo, é-me dada outra oportunidade de cimentar a personagem. Sou eu a participar na história e sou eu a dar contexto. Há por aí muitos realizadores que se esquecem que uma história também se conta através destes exercícios. Daí não termos entregue tudo nas mãos dos efeitos especiais. O Indiana Jones não é uma mera imagem em movimento. A história que contamos é física. Quero dizer: imagino que o novo filme, mais do que os anteriores, beneficie dos efeitos gráficos gerados com a ajuda dos computadores, mas alegra-me saber que o Steven Spielberg fez questão de manter os princípios da história. Podíamos ter enveredado por uma via completamente diferente e ter passado para o outro lado, como sucedeu com o The Matrix, onde as leis da física são completamente abandonadas. Mas num filme desse tipo perde-se a escala humana e passa a ser impossível identificar-mo-nos com a personagem no ecrã. Nesses filmes, um murro não nos magoa, a nós que estamos na plateia, da mesma maneira. Para magoar é preciso fazer cinema físico no estilo da velha guarda.

E a um nível mais pessoal, que preocupações sentiu quando decidiu pegar na personagem 20 anos mais tarde? Um novo desafio? Sabe que mais? Não preciso de novos desafios. Os antigos servem perfeitamente. Quando já passaram 20 anos, isso quer dizer que não há preocupações nenhumas. Sinto-me muito feliz por estar aqui. Até me sinto feliz por falar com a imprensa.

Aos 66 anos, Harrison Ford continua a dispensar os duplos e diz que gosta de «cinema físico»

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David James

Mas tem de existir um segredo qualquer. Como é que se mantém tão jovem? Não há segredo nenhum. Tive apenas imensa sorte, geneticamente. Tanto o meu pai como a minha mãe viveram vidas longas e com bastante saúde. Além disto, sou do tipo que amadurece mais tarde. E, claro, ter uma criança de 7 anos lá em casa é algo que ajuda imenso neste processo que é viver. É tão interessante ver uma criança a crescer, a progredir, a prosperar. Purifica-me.

Referia-me também às novas técnicas de fazer cinema. Certamente, com o progresso tecnológico, há novas maneiras de filmar uma aventura com estas características. Para um actor, as exigências são sempre as mesmas. Faço o melhor que se posso de acordo com as circunstâncias e exijo de mim um comportamento profissional. Não creio que, para o actor, haja desafio maior que o de tentar fazer sempre o seu melhor. Agora, se as pessoas pensam que o regresso do Indiana Jones significa que o Harrison Ford aparece outra vez a fazer a mesma coisa, a única resposta que tenho é esta: um actor nunca faz a mesma coisa. É verdade que a matéria-prima chega da mesma maneira, neste caso um texto cru que tentei moldar à parte que me cabe. Mas quando chega o momento de dar vida às palavras, é tudo novo. Claro que as pessoas podem dizer: 'Diz-me Harrison, há quanto tempo não fazes Shakespeare?' mas a verdade é que não tenho esse tipo de ambição. A minha ambição é viver uma boa vida, sentir-me feliz lá em casa na companhia da família, gostar do que faço e trabalhar bem rodeado de gente fantástica.

Falemos, então, da passagem do tempo de outra forma. Vinte anos depois, o professor-doutor Indiana Jones dá consigo, já não nos anos 30 da subida nazi ao poder, mas no final dos anos 50, com a Guerra Fria e a ameaça soviética. Ainda se lembra de ser um jovenzinho em, por exemplo, 1957? Vou especular que em 1957 o Harrison tinha para aí 15 anos. Não me lembro bem. Lembro-me de que ouvia muito rock'n'roll, ainda no começo. Quando apareceu, tornei-me fã de Bill Haley and the Comets, os Persuasions, os Temptations... adorava esse tipo de música. Mas não me lembro do cinema. Aos 12 ou 13 anos, o meu sonho era ser guarda florestal e, portanto, diria que aos 15 anos dei-me conta de que não era bem isso que queria fazer. Acho que, aos 15 anos, não tinha qualquer visão para o meu futuro.

Que estranho não ter sentido, logo cedo, uma força gravitacional a puxá-lo para os filmes. Nem sequer ia ao cinema? Não era grande admirador. Foi certamente o filme Bambi que estragou a festa toda, durante muito tempo. Não regressei ao cinema até começar a namorar. Mas, aí, o entretenimento era já outro, bastante diferente.

Sei que não pode revelar o mais pequeno pormenor sobre a história do novo filme. Mas veja se pode esclarecer estas coisas que apareceram nos noticiários. Primeira: é verdade que o George Lucas queria que, desta vez, o Indiana Jones passasse algum tempo a conviver com extraterrestres? Conviver? Não sei bem... o boato dizia de que maneira eu iria ser visto a conviver? (ri-se)

Acho que era mais ou menos no estilo rudimentar dos filmes de terror os anos 50. Alegadamente, o Harrison disse que não queria fazer parte do filme se a ideia fosse por diante. Dito assim é demasiado simples. Quando as pessoas virem o filme hão-de perceber a génese da ideia. Sabe, fazer um filme é como seguir uma receita. Depende do gosto de cada um. Para algumas pessoas, de repente fica demasiado salgado. Para outros está demasiado doce. É preciso estar sempre a calibrar os ingredientes, de forma a que não haja preponderância de um sabor sobre os outros. Só lhe posso dizer que, nesta corrida, os desacordos aconteceram apenas em questões de minúcia. Nem sequer era um despique a ver quem ganhava. O que houve foi uma colaboração.

Pronto, fica o esclarecimento. E o boato de que não se deu nada bem com a Cate Blanchett porque ela insistia em fingir que era a personagem, mesmo quando não estavam a filmar? Tretas. Acho inacreditável que, com a Internet, de repente se possa ter por verdade aquilo que não foi verificado ou confirmado. É realmente espantoso aquilo que a Internet criou: de repente, é possível disseminar informação que ainda não sofreu os rigores do escrutínio.

Conclusão: é tudo mentira. Ora bem, eis aquilo que eu posso oferecer em reposição da verdade. A verdade é que a senhora Blanchett é uma grande profissional. Não exigiu cláusula que lhe permitisse manter-se na pele da personagem. Nem sequer precisa. A nível social é uma companheira cheia de boas maneiras. Também lhe posso dizer que, quando a vi pela primeira vez, ela já tinha a peruca preta e o fato de espia, mas porque a agenda de trabalho era cerrada não houve grande chance de fazer conversa. Duas semanas mais tarde, chego ao local das filmagens e reparo que há uma rapariga loira junto da câmara. Pergunto a quem me acompanha 'Aquela loira ali, quem é a gaja?', ao que me dizem 'Estás a fazer-te de parvo ou quê? É a Cate Blanchett!' Ou seja, o trabalho que ela faz é tão convincente e a personagem dela é tão forte que nem sequer fui capaz de a reconhecer quando ela apareceu vestida como anda normalmente.

Com o produtor George Lucas, durante as rodagens de «Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal»

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David James

E o Shia LeBoeuf? Fica a ideia de que é uma maneira de perpetuar a série. Talvez criar com ele novos filmes, com um novo Indiana Jones Jr. Não faço ideia. Estou aqui para trabalhar e não sei nada dessas coisas. Mas posso assegurar que ele tem imenso talento e que vai ter um grande futuro em Hollywood. Vi-o pela primeira vez quando estávamos a fazer ensaios no aeroporto de Agua Dulce, a cerca de duas horas de onde vivo. Porque eram cenas de grande risco e porque o aeroporto tinha sido fechado para nosso uso exclusivo, decidi ir de helicóptero. Meu helicóptero. Eu a pilotar. Não sei se aquilo foi interpretado como sendo uma entrada em cena demasiado bombástica mas o Shia ainda hoje fala disso, de como eu pousei e saí da cabina a estalar o chicote. Claro que não foi bem assim, mas ele gosta de repetir 'Lá vem ele outra vez a pilotar o helicóptero'. Acho que o Shia foi apresentado aos filmes do Indiana Jones através do pai. Não sei se trazia a noção de que eu era uma pessoa distante ou agreste, difícil enquanto parceiro. Mas demo-nos muito bem e gostei muito de trabalhar com ele. Actor genial, sério, de facto um colaborador. Tivemos imensa sorte em tirar vantagem do dom que ele tem para o cinema.

Referiu há tempos que, entre o lado académico e o aventureiro, não tem semelhanças nenhumas com o Indiana Jones. Mas há, pelo menos, o facto de ambos gostarem de pilotar aviões. Verdade. Mas lembra-se daquela conversa que ele tem com o Sean Connery, quando lhe pergunta se sabe pilotar um avião? A resposta é 'Pilotar sei. Não sei é aterrar.'

Mas quantos aviões é que tem? E para onde é que vai quando se mete no "cockpit"? O que lhe posso revelar é que tenho, provavelmente, mais aviões do que aqueles que preciso. Voar é aquilo que mais gosto de fazer quando não estou a trabalhar. Adoro trabalhar. Adoro a minha família. Adoro voar. Não colecciono carros e não sou pessoa de grandes luxos mas gosto muito de pilotar aviões. Gosto da liberdade, bem como da responsabilidade - para comigo mesmo e para com os meus passageiros -, que estão sempre ligadas à navegação aérea. É uma combinação que me enche de euforia. Para onde vou? Vou para onde posso. Quando viajo, 95 por cento das vezes sou eu que estou aos comandos. Aliás, já não viajo se não posso ser eu a chegar lá pelos meus meios. Mas, sim, gosto imenso do prazer puro que é estar lá em cima a olhar em redor e a aproveitar a vida. Não preciso de destino.

Porque é que não faz outro tipo de filmes com o Steven Spielberg? Suponho que tenham existido ofertas. Ou há decisões que lamenta ter tomado? Não sou pessoa para lamentar decisões tomadas. Como indivíduo, não fui feito com esse tipo de fibra. Sim, já houve momentos em que o Steven me fez chegar argumentos para saber se me interessavam e, sim, já houve momentos em que fui eu a enviar-lhe projectos que achava interessantes. Talvez por questões de calendarização pessoal, minha ou dele, nunca houve oportunidade. Mas claro que gostava de trabalhar com ele noutras coisas. Espero que ainda venha a ser possível.

Desta vez colaboraram depois de ele ter feito filmes de acção marcados por uma linguagem mais contemporânea - caso do "Relatório Minoritário" - e, sobretudo, depois de ele ter explorado temas que exibem uma profunda e muito polémica convicção política ou espiritual, como foram o caso do "Inteligência Artificial" e do "Munique". Apesar de Steven Spielberg se manter, claro, o adulto ameninado de sempre, pergunto-me se encontrou nele um homem diferente. Creio que não. O Steven sempre foi de uma grande erudição. Diria mesmo que ainda não conseguiu sair do armário intelectual. É o tipo de pessoa que pensa nas coisas até ao fim, invariavelmente metido em pensamentos profundos. Gosta de desafios, sejam eles mentais ou outros, e acho que é suficientemente sábio para encaminhar as suas energias para os temas que lhe interessam. Gosta de, através do cinema, analisar aquilo que lhe vai na mente. Dou imenso valor aos filmes que ele tem feito ultimamente, aqueles a que poderíamos chamar os filmes sérios. Mas não é por isso que ele deixa de ser o mesmo realizador sério e atento quando se dedica a uma história como a do Indiana Jones. Aquilo que tenho dito sobre ele é o seguinte: por mais estranho que pareça, ele é, 20 anos passados, melhor realizador agora do que era antes. O que não deixa de ser espantoso e difícil de imaginar, dado que há 20 anos ele já era um dos melhores realizadores que existem. Portanto, foi com imenso prazer que voltei a trabalhar com ele. Agora que o James Brown morreu, Steven Spielberg é o homem que mais trabalha na indústria do entretenimento. Nunca vi nada assim. O homem é indescritível. Não se trata apenas da facilidade com que ele navega os problemas que vão aparecendo, ou a prontidão com que se apresenta e faz o trabalho. O resultado da sua devoção é incrível e, porque conseguiu criar em torno de si uma máquina de produção cheia de capacidade, a sua obra é variada, abundante e com imensa qualidade. Para este filme, o meu horário de trabalho foi de 80 dias a filmar. Deram-me apenas um dia de folga. Mas nunca fui para o emprego com tanta vontade. Puro prazer.