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Quando mais simples melhor

As comemorações terão lugar esta terça-feira, às 16h30,na Faculdade de Motricidade Humana, na Cruz Quebrada, com o lançamento do site ‘Vida Fácil’, cujo lema é o de que quando não se consegue utilizar um objecto, o problema pode ser do design.

A cadeia de hotéis ‘Hilton’ mandou construir um despertador de raiz porque não conseguiu encontrar no mercado mundial nenhum modelo que fosse efectivamente fácil de usar. A iniciativa baseou-se na constatação de que as dificuldades de utilizar este ou aquele objecto, comuns a muita gente em todo o mundo, não têm nada a ver com a inaptidão mas sim com o seu design. O facto remete para a questão da usabilidade – característica de um produto que se adapta convenientemente ao objectivo para o qual foi concebido – cujo impacto nas vidas das pessoas vai ser discutido amanhã em Lisboa, no âmbito das comemorações do Dia Mundial da Usabilidade.

O Dia Mundial da Usabilidade, que se celebra a 14 de Novembro, será assinalado pela segunda vez em 40 países, com mais de 200 eventos, desta vez sob o tema ‘Tornando a Vida Mais Fácil’. As comemorações em Portugal, organizadas pela Associação Portuguesa de Profissionais de Usabilidade (APPU), vão ter lugar na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa, reunindo designers, psicólogos, arquitectos, ergonomistas e especialistas na matéria.

Quanto mais simples, melhor

Mas o que é que tem de diferente o despertador que os hóspedes dos hotéis 'Hilton' encontram nos seus quartos? Segundo o presidente da Associação Portuguesa de Profissionais de Usabilidade, Bruno Figueiredo, o novo modelo "reúne características que não se encontram normalmente em despertadores domésticos". Ou seja:  é fácil e rápido acertar o alarme. Mostra ambas as horas: a actual (em tamanho maior) e a hora de despertar, indicando se se refere à manhã ou tarde. Além disso, tem botões pré-programados para rádios por género musical; permite ligar um iPod ou outro leitor de mp3, fazendo com que o utilizado possa acordar com a música que mais gosta. A hora actual é ajustada automaticamente através das estações de rádio, estando sempre certa.

Os problemas de usabilidade estão à vista em casa e nos locais públicos. São os botões dos fogões dispostos numa linha e os bicos numa matriz quadrada, que fazem com que não consigamos utilizar instintivamente, tendo sempre que consultar os diagramas. São os puxadores das portas que não dão a indicação correcta se são para empurrar ou puxar. 

Na maioria das máquinas de emissão de bilhetes, os controlos estão dispersos de forma aleatória, obrigando os utentes a procurar os locais para inserir cartões e dinheiro ou recolher os recibos.  Alguns modelos de  telemóveis são mais difíceis de usar do que outros.

"Até os objectos mais simples têm hoje ecrãs de controlo: escovas de dentes, máquinas de barbear, máquinas de café, etc. Daí que a usabilidade seja tão importante, não só em termos económicos, devido ao impacto na produtividade de sistemas mal concebidos, como também ao nível da segurança, existindo relatos de acidentes graves em avaliação e energia nuclear originados por falhas de usabilidade", afirma Bruno Figueiredo.

"Quantas vezes se enganou com o sentido de abertura das portas da sua empresa?", questiona João Pedro Martins, afirmando que "a culpa é geralmente de um design defeituoso". Este presidente de mesa da Assembleia-Geral da APPU dá outro exemplo: "todos sabemos, na Europa continental, conduzir qualquer modelo de automóvel. Isto não é por acaso. Mas em alguns carros é mais difícil perceber como ligar o limpa-vidros de trás".

Os casos de "design defeituoso" sucedem-se: "Algumas torneiras são mais difíceis de perceber que outras, especialmente em WC's públicos. E quantos sabemos programar vídeos sem olhar para o manual? Ou conhecer todas as opções do telemóvel ou telefone da empresa?". Segundo João Pedro Martins, "mais uma vez, se não é óbvio, o problema pode ser do design".  

O que se passa na Internet é paradigmático. Quantas vezes não concluímos uma compra num site porque não conseguimos encontrar informações sobre os custos de expedição?

"Este meio é cada vez mais utilizado para transações comerciais, quer no «Businesse-to-Consumer» quer no «Business-to-Business»", afirma João Pedro Martins. "Lojas e centros comerciais online, portais, «home bankings», correctoras online, sites institucionais, todos estes, para ser bem sucedidos, têm de ser concebidos e estar organizados de forma a não fazer perder tempo ao utilizador: dar-lhe o que ele quer, e fazê-lo da forma mais simples e intuitiva possível".

Para este defensor da usabilidade, "a simplicidade pode não bastar, mas é sem dúvida necessária. Caso contrário, com mais de mil milhões de páginas na Internet ( mais de dois milhões só em Portugal), alguém vai fazer «back» no «browser» - e sem intenções de voltar".