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Quando falta o desejo

Considerado ofensivo, o conceito da frigidez foi enterrado mas a mudança semântica não garantiu prazer a todas as mulheres.

A infinita sabedoria popular já o havia anunciado: "Não há mulheres frígidas... apenas homens incompetentes!" A comunidade científica e médica confirma-o: a frigidez morreu. Descansa em paz depois de anos em que foi utilizada popularmente para definir, de forma algo ambígua e quase sempre pejorativa, as mulheres que eram blocos de gelo na hora do sexo. Já não há mulheres frígidas, assim como não há homens impotentes. O que há são mulheres com desejo sexual hipoactivo (isto é, a falta dele) e disfunção orgásmica, e homens com disfunção eréctil. Palavras novas para problemas velhos.

A semântica é como a cosmética: pode disfarçar um problema mas não o trata. A frigidez pode ter desaparecido do vocabulário clínico, mas o prazer sexual está longe de ser um privilégio de todas as mulheres. Segundo o primeiro grande estudo nacional sobre a prevalência de disfunções sexuais femininas, realizado pela Sociedade Portuguesa de Andrologia em conjunto com os laboratórios farmacêuticos Pfizer, mais de metade das mulheres portuguesas (56%) apresenta ou apresentou algum tipo de disfunção sexual.

A investigação sustenta ainda que mais de um terço das mulheres (35%) tem falta de desejo sexual e 32% apresenta dificuldades em atingir o orgasmo independentemente da forma de estimulação, embora os homens só detectem 24% dos casos. O trabalho congrega dados recolhidos junto de 1250 mulheres e outros tantos homens com idades compreendidas entre os 18 e os 75 anos, o que inclui mulheres nas fases pré e pós-menopausa, nas quais as alterações hormonais interferem inevitavelmente na função sexual.

Ao contrário do que acontece no cinema e na televisão, o sexo de muitas mulheres está, pois, longe de ser um maravilhoso fogo-de-artifício de orgasmos imensuráveis. Mas será este realmente um problema de inaptidão sexual masculina como afirma a expressão popular? A ideia é profundamente sexista, como o é, aliás, o próprio conceito de frigidez. Se este tendia a culpabilizar a mulher por qualquer "falha" na fruição sexual - se ela não desfrutava normalmente do sexo é porque era fria ou "frígida" -, a avaliação da competência masculina remete para o homem toda a responsabilidade. Por paradoxal que possa parecer, estas duas ideias opostas radicam no mesmo preconceito: o da mulher como um agente passivo da sexualidade, um mero receptáculo para as necessidades do seu parceiro. "Apesar da revolução sexual, a percepção do sexo não mudou assim tanto desde o tempo da minha avó", garante a sexóloga Marta Crawford.

Voltemos à defunta frigidez. Para explorar as versões modernas do fenómeno é preciso entender primeiro a sua etimologia, algo que se revela muito mais complicado do que seria de esperar. Seja porque o termo caiu em desuso ou talvez porque sempre esteve revestido de alguma ambiguidade, qualquer tentativa de definição esbarra numa teia de poucos consensos. Nuno Monteiro Pereira, professor de sexologia e director da Clínica do Homem e da Mulher, entende que aquilo a que popularmente se convencionou chamar de frigidez se referia ao que a literatura actual chama de disfunção do desejo sexual hipoactivo, ou seja, a ausência de desejo sexual. O psiquiatra Francisco Allen Gomes, fundador da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica, atribui-a "não à falta de desejo sexual, mas à incapacidade de ter prazer com o sexo". Júlio Machado Vaz entende que se aplicava às duas situações. "Umas vezes referia-se à falta de desejo sexual, outras à falta de satisfação/excitação, incluindo o orgasmo." O psiquiatra Manuel Esteves, do hospital de São João, no Porto, acrescenta-lhe ainda um terceiro conceito, o da disfunção sexual geral, no qual a mulher "não consegue obter prazer sexual através da estimulação erótica". Confuso(a)? Acredite que não está sozinho(a).

Esqueçamos, portanto, a frigidez e foquemo-nos nas disfunções sexuais da mulher. A mais frequente é a perturbação do desejo sexual hipoactivo. Segundo o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-IV-TR, na sigla em inglês), a "bíblia" dos psiquiatras, refere-se à "deficiência ou ausência de fantasias sexuais e desejo de actividade sexual", causando na pessoa um "acentuado mal estar ou dificuldade interpessoal". Por outras palavras, para que o problema seja considerado uma disfunção não basta que a mulher não tenha vontade de manter relações sexuais com o seu parceiro. "É preciso que isso cause perturbação pessoal", sublinha a psicóloga clínica e sexóloga Ana Carvalheira.

Segundo a especialista em sexologia, é preciso, pois, resistir à "patologização da sexualidade feminina". "O desejo sexual feminino é muito flutuante, muito mais relacionado com o contexto que o dos homens. Uma dificuldade não é necessariamente uma disfunção. Muitas vezes está associada a um contexto de circunstância, que pode ter a ver com factores relacionais (cansaço, falta de atracção, etc.), emocionais (percepção negativa da sexualidade, por exemplo), psicológicos e mesmo biológicos doenças crónicas ou hormonais". O uso de determinados medicamentos, nomeadamente de antidepressivos, pode também interferir com o desejo sexual.

Diferentes do desejo sexual hipoactivo são as perturbações do orgasmo. Segundo Machado Vaz, incluem não apenas a ausência de orgasmo (conhecida como anorgasmia) mas também o atraso persistente ou recorrente em atingi-lo a seguir a uma fase de excitação normal, seja através do coito ou da masturbação. Sendo que as mulheres exibem uma enorme variabilidade do tipo ou intensidade de estimulação que desencadeia o orgasmo, o diagnóstico deverá basear-se no juízo clínico de que a capacidade de orgasmo é menor do que seria razoável para a idade, experiência sexual e adequação da estimulação sexual que a mulher recebe.

"A mulher é capaz de excitar-se com os estímulos eróticos, mas bloqueia no momento do orgasmo", explica Ana Carvalheira. Ou seja, não tem a capacidade de perder o controlo, que é, no limite, o que caracteriza um orgasmo, segundo Allen Gomes. Muitas acabam por fingi-lo, por vergonha em admitir o problema ou para poupar o ego do parceiro. Uma vez que a capacidade orgásmica da mulher aumenta com o conhecimento que esta tem do seu corpo, este tipo de disfunções podem ser mais prevalecentes nas mulheres mais jovens.

As causas, explica a terapeuta sexual, são essencialmente psicológicas e sócio-culturais, embora em alguns casos possam também estar associadas a problemas clínicos, como determinadas lesões na espinal medula. Entre os maiores inibidores do orgasmo estão "sentimentos" predadores como a culpa, a vergonha ou a ansiedade, decorrentes de laços educativos, culturais e religiosos que favorecem a repressão sexual.

"O desejo sexual feminino é um processo extremamente complexo, que envolve componentes biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Essa complexidade explica, por exemplo, porque não existe ainda um fármaco para combater estes problemas", lembra Carvalheira. A intervenção nestes casos, sublinha a especialista, passa sobretudo pela psicoterapia e pela terapia sexual com vista a derrubar as barreiras psicológicas e emocionais que se interpõem entre a mulher e a sua plena fruição sexual.

Uma solução farmacológica para o problema da falta de desejo sexual poderá chegar em 2010, altura em que o mercado deverá conhecer o LibiGel, já conhecido como o "Viagra das mulheres". Desenvolvido por cientistas da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, o medicamento, um gel aplicado na parte superior do braço, encontra-se na última fase de ensaios clínicos e promete um aumento de quase 300% no número de relações sexuais satisfatórias.

32%

das mulheres admitem ter dificuldades no orgasmo, mas os homens apenas detectam 24%

44%

das mulheres portuguesas inquiridas com mais de 18 anos referiram não sofrer de qualquer tipo de disfunção sexual

(último estudo da Sociedade Portuguesa de Andrologia)

Texto publicado na edição do Expresso de 29 de Novembro de 2008