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“Público” já dispensou 55 funcionários este ano

Administração quer saída dos oito trabalhadores que não aceitaram a proposta de rescisão e admite prescindir de mais “cinco ou seis” antes do lançamento do novo modelo.

O processo de reestruturação avançado pela administração do “Público” para reduzir os custos anuais do jornal em 15 por cento (cerca de 4,5 milhões de euros) já levou à dispensa desde o início do ano de 55 trabalhadores da empresa. Os números foram avançados na passada sexta-feira à Comissão de Trabalhadores (CT) pelos administradores do jornal, que confirmaram a intenção de rescindir ainda com oito funcionários que não aceitaram a primeira proposta e pelos menos outros “cinco ou seis” antes do lançamento do novo modelo do jornal, previsto para Fevereiro do próximo ano.

Segundo o presidente da administração da empresa, Hugo Figueiredo, cerca de metade dos 55 trabalhadores saíram antes de Setembro e representaram um custo de 1,7 milhões de euros, um valor que agravou o prejuízo líquido do jornal nos primeiros nove meses do ano para os 6,1 milhões de euros. Figueiredo admitiu ainda que as restantes dispensas deverão acarretar um valor superior ao que foi gasto até Setembro, pode ler-se na acta da reunião a que o EXPRESSO teve acesso.

Nas contas da empresa, os oito trabalhadores que ainda não aceitaram a proposta de rescisão representam um quarto dos custos que esta tem que reduzir para atingir os seus objectivos. No caso concreto de dois funcionários, o “Público” deverá avançar para a figura jurídica da extinção do posto de trabalho. À administração da empresa, a CT repudiou o facto de um desses trabalhadores não ter recebido a proposta por escrito e estar, há mais de duas semanas, sem secretária, computador ou funções. Figueiredo explicou que não pode dar nenhuma tarefa ou função ao funcionário em questão, pois, caso o fizesse, “a administração já não poderia alegar a extinção do posto de trabalho”.

Com o futuro indefinido estão ainda os trabalhadores do centro de documentação do jornal, que a partir de 5 de Dezembro passará a utilizar os serviços da Gesco, empresa do universo Impresa. A administração pretende ainda passar ao regime de avença “oito a dez” dos colaboradores internos, reduzir as colaborações externas e avaliar os cronistas do jornal.

Regalias abolidas

No âmbito da redução dos custos fixos anuais do jornal, a administração do diário avançou ainda que vai abolir, unilateralmente e sem negociação, três regalias dos trabalhadores: pagamento dos feriados a 200 por cento, das pernoitas e do complemento de doença. Em relação a este último, o presidente da administração da empresa disse no encontro com a CT ser “imoral que uma pessoa ganhe mais quando está doente”. Figueiredo admitiu serem estas “decisões com algum grau de polémica”, mas que estão salvaguardadas por pareceres jurídicos. A CT considerou inaceitável a decisão unilateral de acabar com o pagamento adicional dos feriados – que passarão a ser remunerados a cem por cento e com direito a uma folga – e estuda a legalidade desta medida, que, como as restantes, terá efeitos a partir de 1 de Dezembro ou 1 de Janeiro.

Com este corte, o jornal espera poupar 500 mil euros, valor que somado às outras acções em curso – rescisões dos contratos de trabalho, renegociação de rendas, das telecomunicações, racionalização das deslocações em táxi, entre outras – faz com que a empresa atinja três quartos do objectivo a que se propôs: a redução dos custos fixos anuais em 15 por cento. Neste momento, a administração está a um quarto de atingir esse objectivo, ou seja, a cerca de um milhões de euros.

Face ao cenário actual, e à inexistência de qualquer regalia ou benefício para “minorar o impacto dos cortes” que a administração vai impor, a CT considerou que “dificilmente se conseguirá envolver e entusiasmar toda a redacção na refundação do jornal”, cujo novo “esqueleto” foi já apresentado às agências de meios.

Contactado pelo EXPRESSO, o director do “Público”, José Manuel Fernandes disse acreditar que o diálogo que “que sempre permitiu, nos últimos anos, ultrapassar outros momentos difíceis” irá possibilitar “unir e mobilizar toda a equipa” em redor da reinvenção do jornal. Fernandes disse ainda assumir as suas responsabilidades nos resultados negativos que o jornal tem tido, mas rejeitou abandonar a direcção do diário a curto prazo. “Acredito que estamos a fazer as escolhas certas, mesmo quando tomar certas decisões é difícil. Mas eu não sou pessoa de desistir facilmente”.

SJ requer intervenção da Inspecção do Trabalho

O Sindicato de Jornalistas (SJ) adiantou ontem, em comunicado, que solicitou à Inspecção do Trabalho que fiscalize a prestação de trabalho dos jornalistas do “Público” nos próximos feriados, depois da administração do jornal ter anunciado que deixará de pagar o trabalho suplementar e as compensações por trabalho externo. Segundo o SJ, ao cortar no pagamento do trabalho suplementar e das chamadas pernoitas, o “Público” “age ilicitamente e entra em processos de concorrência desleal com as empresas que cumprem a lei”.

No documento, o SJ repudia ainda o “ataque frontal à dignidade” dos trabalhadores por parte da administração do diário, que insiste "em assediar jornalistas para que abandonem a empresa". “Relativamente a novas abordagens (eufemisticamente apelidadas de "convites") para rescisão de contratos de trabalho, isto é, para novos despedimentos, o SJ insiste em que não podem ser aceites os métodos já usados e que a empresa persiste em manter”, pode ler-se no documento.