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«PT é o meu projecto de vida»

O novo accionista da PT, Nuno Vasconcellos, quer que a empresa aposte na internacionalização.

AOS 42 anos, Nuno Vasconcellos, presidente da Ongoing Strategies, lança-se sobre a PT, onde já tem 2,002%, com o objectivo de liderar uma alternativa à oferta pública de aquisição (OPA) da Sonae e criar um núcleo accionista coeso.

EXPRESSO — Quando concluiu que valia a pena investir na PT?
NUNO VASCONCELLOS — Há muito tempo. Conheço bem a empresa, trabalhei directamente com ela durante oito anos e meio.

EXP. — Já disse que concorda com a estratégia seguida pela PT mas pensa que ela devia ter sido mais dinâmica...
N.V. — Temos de ter em conta que há dois ou três anos Portugal estava a atravessar uma situação difícil e havia muito intervencionismo na PT. Nunca houve um corpo accionista totalmente dominante e quando as empresas não são de ninguém – quando são de todos – muitas vezes se calhar não têm a gestão mais eficiente. Mas isto não é nenhuma crítica a nenhuma gestão, nem a nenhuma comissão executiva pois penso que todas tentaram cumprir o dever de criar valor para todos os accionistas. Tentaram fazer o seu melhor nas circunstâncias de mercado que existiam. Hoje já existe alguma luz ao fundo do túnel não só na economia portuguesa como também na europeia pelo que a gestão actual pode aproveitar estas novas oportunidades.

EXP. — Concorda com os investimentos em África e no Brasil?
N.V. — Perfeitamente. O Brasil é um país em que se tem de estar presente, desde que as empresas tenham gestões profissionalizadas.

EXP. — Pensa que é importante clarificar o equilíbrio de forças entre a PT e a parceira espanhola Telefónica no Brasil?
N.V. — As empresas são feitas por pessoas. Se elas não se entendem, tem de se arranjar outras que se entendam. Acho que devemos ambicionar a que a PT seja tão grande como a Telefónica daqui a 10 anos. Não concordo com a ideia de que por sermos um pequeno país nunca conseguiremos fazer grandes coisas. Olhe-se para pequenos países como a Suíça, que tem grandes multinacionais, ou a Holanda. Temos de ter coragem para ir explorar o mundo, sem medos, como fez Vasco da Gama há 500 anos. E ter orgulho no que fazemos.

EXP. — Não concorda então que a PT venda à Telefónica os 50% que tem no Brasil, na Vivo...
N.V. — Se eu acreditasse que a OPA era uma boa opção não teria investido mais de 220 milhões de euros, porque estaria a fazer um mau investimento. Tomei o risco de avançar porque acredito que temos uma proposta de maior valor acrescentado para todos. A PT é o maior porta-bandeiras do país. 30% do «cash-flow» operacional (EBITDA) já vem da parte internacional. Talvez devesse ser 80% ou 50%, para começar.

EXP. — O que a Sonae tem dito é que não quer estar em empresas onde não seja maioritária...
N.V. — Toda a vida tive sócios, sempre me dei bem com eles. Cada um tem a sua maneira de ser, que não é criticável. Depende das pessoas. Todas as grandes empresas internacionais têm sócios. É preciso tratar bem os accionistas, de forma igual, independentemente de terem uma acção ou as equivalentes a 20% do capital. Quem tem este tipo de cultura consegue ter bons sócios.

EXP. — Há quem diga que a Sonae quer comprar a PT apenas porque nas telecomunicações não consegue a rentabilidade que deseja. O que pensa disso?
N.V. — Não gostaria de me pronunciar sobre a operação especificamente mas apenas deixo um exemplo: diz-se muitas vezes que a PT tem o monopólio. Quando criámos a Heidrick & Struggles em Portugal, há oito anos e meio, havia uma grande empresa multinacional e a Heidrick não era conhecida. Ao fim de três anos, ultrapassámos essa empresa. Outro exemplo: sou a quinta geração de industriais. Aos 14 anos o meu bisavô herdou uma fábrica. Tinha dez irmãos que teve de alimentar e criar. Na altura havia o monopólio do senhor Alfredo da Silva, do grupo CUF, que quis controlar o mercado e arranjou uma fórmula fantástica: vender abaixo do preço de custo. Como era muito rico, podia perder dinheiro, levando os outros à falência. Mas o meu bisavô continuava a vender e eles começaram a ver que não o conseguiam levar à falência. Quiseram então saber qual era o segredo e mandaram-no chamar. O meu bisavô, humildemente, explicou-lhe que tinha parado a produção e que mandou os trabalhadores ir à CUF comprar o sabão. Depois raspava a marca CUF e punha a marca dele. Assim não conseguiram levá-lo à falência. O Alfredo da Silva ficou com tanta admiração que se associou a ele e criou-se um grande império. Há muitas empresas que, em altura de recessão, crescem.

EXP. — Corre a ideia de que a vossa entrada na PT foi concertada com o Grupo Espírito Santo (GES).
N.V. — Se o GES fosse nosso accionista, até poderia haver alguma pressão para que entrássemos na PT, mas o que acontece é o contrário, é a Ongoing Strategies que é accionista relevante, com 2,01%, da Espírito Santo Financial Group (ESFG). Não existe qualquer concertação, a única coisa que houve foi um telefonema meu ao presidente do BES, Ricardo Salgado, assim como a outras pessoas, pois penso que era pouco simpático virem a saber pelos jornais da nossa entrada na PT. Entendemo-nos bem, somos famílias que foram sócias noutros negócios e noutras gerações. Temos o mesmo código de valores. Existem relações de confiança e amizade muito grandes. A partir de agora vou procurar arranjar um alinhamento de ideias para criar um núcleo estável de accionistas na PT, porque o grande problema da empresa é haver um núcleo disperso e instável.

EXP. — Comprou acções a Patrick Monteiro de Barros?
N.V. — É natural que tenha comprado, pois comprámos muitas acções nas últimas semanas. Mas não houve nenhuma coordenação nesse sentido... no entanto, se tivesse havido, não havia mal nenhum...

EXP. — O que pensa das medidas anunciadas pela administração da PTpara convencer os accionistas a não venderem as acções à Sonae?
N.V. — Concordo com elas. Com estas medidas e a estratégia de internacionalização, a PT pode valer muito mais do que vale hoje.

EXP. — Fala muito de um núcleo nacional de accionistas. Mas a Sonae também é portuguesa...
N.V. — Só há duas formas de a actual operação se concretizar: ou através do endividamento total da empresa ou da venda de património. E que património é que se vende? O internacional. Mas é exactamente aí que está o crescimento! O meu objectivo é falar com todos os accionistas. Já conversei com o presidente da Caixa Geral de Depósitos. Ao preço que a Sonaecom oferece nesta OPA não tenho interesse em vender, porque não ganho dinheiro. A nossa estratégia é de médio e longo prazo.

EXP. — Quando foi criada a Ongoing Strategies?
N.V. — No início deste ano. Toda a vida fiz uma carreira independente — trabalhei para uma multinacional, a Accenture, de onde saí para montar a Heidrick & Struggles. Fui várias vezes convidado para trabalhar para empresas da família. Nunca aceitei. As pessoas devem formar-se primeiro e depois seguir as suas vidas. Se vingarem lá fora, então aí, sim, podem ajudar a família a aumentar o património. Preparei-me durante 18 anos. Atravessámos momento difíceis a nível da economia mas hoje existe uma clara direcção e orientação, tudo aponta para que os próximos meses e anos sejam de crescimento económico. Perante este cenário, consideramos que devemos começar a investir novamente na economia real. E para investir directamente nas empresas, prefiro investir onde tenha uma palavra a dizer. O problema das empresas portuguesas é que querem ser muito grandes em Portugal. O mundo é global, e é por aí o caminho.

EXP. — Porquê o nome Ongoing?
N.V. — De facto, a Ongoing é uma empresa portuguesa com um nome inglês. Estava em Londres com o Rafael Mora, com quem lancei a Heidrick em Portugal, e era preciso arranjar um nome pois estava a ser feito um primeiro investimento para a família. Estava cheio de «stress», era preciso fazê-lo em 24 horas. Queria arranjar um nome associado à família – seria uma homenagem ao meu avô, que era o meu melhor amigo - , mas não consegui registá-lo e apareceu o nome de uma empresa já pré-registada – Ongoing. Eu queria que fosse Ongoing Strategic Investments e disseram-me que podia ser mas depois acabou por ficar Ongoing Strategies.

EXP. — Que outras áreas de negócio têm neste momento?
N.V. — A Ongoing agrega apenas novos investimentos da família, não quis misturar as coisas. Os mais antigos ficaram de fora — imobiliários, pequenas empresas onde temos sócios. Quis começar do zero. Queremos entrar em força na economia real para fazer a reconstrução de um grupo que já existiu. A Ongoing não é uma gestora de participações sociais, que é o que parece neste momento. Se calhar vai ter de o ser durante algum tempo mas o objectivo é chegar depois a posições dominantes em algumas empresas. Começámos por entrar na ESFG.

EXP. — Porquê?
N.V. — É o braço financeiro do GES, é um verdadeiro grupo de empresários e famílias portuguesas. O meu avô já tinha sido accionista e depois vendeu. Eu quis entrar com uma posição significativa porque acredito muito na gestão do Grupo Espírito Santo, que tem adicionado imenso valor aos accionistas. Além de que a empresa está bastante desvalorizada. Quando foi privatizado o banco tinha uma quota de 12% e agora está nos 18% e a crescer. É um banco que se soube reestruturar, sem fazer grandes exigências de aumentos de capital aos seus accionistas, sem diluir. O grande esforço já foi feito pelo que acho que está agora na altura de entrar. A partir de agora os bancos vão ganhar mais dinheiro, pois já se reestruturaram. Depois temos um investimento permanente na Impresa, vamos aumentando, diminuindo... Não ultrapassa os 2%. Apostamos também nos serviços de valor acrescentado, na consultoria, empresas de formação e no imobiliário e estamos a pensar investir em Angola. Mas onde me quero concentrar é na PT, é o meu projecto de vida. O que gostaria mesmo era de liderar uma alternativa à OPA e criar um núcleo accionista coeso. Penso que tenho algum valor acrescentado porque conheço bem a companhia. A PT tem de ter um dono, alguém que consiga reunir o consenso dos accionistas para uma estratégia comum. Eu gostaria de ser essa pessoa. Estou disposto e disponível para me dedicar de corpo e alma a este projecto. Estive a preparar este investimento durante meses...

EXP. — Onde foi buscar os 220 milhões de euros?
N.V. — O segredo é a alma do negócio. Não se fazem investimentos sem dinheiro, sem credibilidade e sem assumir responsabilidades. A família gosta de discrição. Eu não acredito muito em herdar, acho que é uma responsabilidade que temos para com os outros, somos um veículo de passagem, temos a obrigação de deixar o que nos foi deixado para aqueles que vêm a seguir, educando-os a terem um dever para com a sociedade, porque a sociedade foi generosa para eles e tem de haver retribuição. Nunca trabalhei para o pai, para a mãe, para o tio... aliás, sempre trabalhei nas férias, enquanto os meus amigos recebiam dinheiro dos pais com altas mesadas e se calhar eu era mais rico do que eles. As pessoas têm de aprender que o dinheiro custa a ganhar.

EXP. — É a favor da manutenção dos direitos especiais do Estado na PT?
N.V. — O Estado terá de decidir se a PT é ou não estratégica para Portugal. A «golden share» vai ter de acabar por imposição da União Europeia, mas há sempre formas de manter influência. Através de empresas e empresários nacionais, como acontece com a EDP, Galp ou Portucel. Para mim um exemplo a seguir é o do Pedro Queiroz Pereira, que em 10 anos criou um grande grupo industrial. Outro bom exemplo é o Grupo Espírito Santo. Estou na idade de construir um grupo, tenho os meios disponíveis e a confiança da família. O Estado pode ter sempre uma palavra a dizer. Tem sempre meios. Tem de apoiar a criação de grupos fortes em Portugal – temos muito poucos – com empresários novos para que constituam grupos com dimensão suficiente para proteger o que são as bandeiras nacionais no caso de isso ser necessário.

EXP. — É a favor da desblindagem dos estatutos da PT?
N.V. — Neste momento a desblindagem não é oportuna. Noutras circunstâncias, logo se verá...

EXP. — Acha que a PT corre o risco de ser engolida pela Telefonica?
N.V. — Penso que a blindagem de estatutos resolve essa questão. A mim custar-me-ia imenso que isso acontecesse. Mas para mim, enquanto accionista, preferia que não houvesse empresas concorrentes dentro do conselho de administração, como acontece com a Telefonica na PT.