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PS incomodado com farpas de Ferro

"Faz-me confusão que, para algumas pessoas, dizer bem deste primeiro-ministro seja dizer mal de Guterres"

José Carlos carvalho/Visão

Porta-voz socialista diz que críticas do ex-líder resultam de uma visão "distorcida pela distância" de quem vive fora de Portugal.

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

O PS reagiu com incómodo à entrevista de Ferro Rodrigues hoje publicada na revista Visão. O anterior secretário-geral socialista apontou o dedo à arrogância com que o Governo de José Sócrates tem imposto sacrifícios aos portugueses, recomendando uma outra abordagem: "Se esses sacrifícios são pedidos, é indispensável que isso se faça com menos arrogância e mais humildade." Em resposta, o porta-voz do PS, Vitalino Canas, recusou a ideia de que o Governo se comporte de forma arrogante, e considerou que a opinião de Ferro está "distorcida pela distância", uma vez que o ex-líder socialista vive há três anos em Paris, onde dirige a delegação portuguesa na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

Embora admitindo que algumas decisões do Executivo possam passar a ideia de que este seja "insensível", Canas garantiu que "não existe arrogância, há é medidas e reformas que têm que ser tomadas, que parecem duras e têm impacto na vida dos cidadãos, mas são inevitáveis".

Também a crítica de Ferro Rodrigues ao desaparecimento do PS ("um partido com pouca vida própria", nas palavras do antigo ministro da Segurança Social) foi rebatida pelo porta-voz do partido. "O PS tem uma vida interna rica", garantiu Vitalino Canas, embora reconhecesse que "quando a actividade do Governo é muito intensa e exigente, essa actividade requer muita atenção por parte dos militantes principais e dirigentes" do partido. Tudo "normal", garante o dirigente socialista, pois quando um partido chega ao poder, atenções "centram-se na actividade do Governo".

Outro ponto que tem sido a imagem de marca de Sócrates merece farpas de Ferro Rodrigues: o contraponto entre a capacidade de decisão deste Governo e o de António Guterres. "Faz-me confusão que, para algumas pessoas, dizer bem deste primeiro-ministro seja dizer mal de Guterres", desabafa.

Na entrevista à Visão, a primeira intervenção de fundo desde que abandonou a liderança do PS, em 2004, depois de Jorge Sampaio ter aceite o Governo de Santana Lopes, Ferro garante que continua a ser amigo do ex-Presidente da República, mas assegura que "ninguém se esquece nunca de nada". Garante também que não tenciona regressar em breve à primeira linha de acção política. "Não tenho vontade de assumir um protagonismo forte na vida político-partidária com este sistema. (...) Não tenho saudades do sistema político-partidário e jurídico-mediático português", afirma, numa referência ao processo Casa Pia, outro dos temas abordados na entrevista.

Ferro mostra-se muito crítico do funcionamento da Justiça em Portugal, e lamenta que até hoje não tenham sido apuradas "as razões e as motivações" de indivíduos que diz terem-no caluniado na fase de inquérito do processo. Desmente que alguma vez tenha pressionado o Procurador-Geral da República ou o Presidente da República, por causa deste processo, e deixa o aviso: "É importante provar que Portugal não é um país de pedófilos impunes, nem um paraíso de caluniadores."