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Primeira antestreia numa prisão portuguesa

Lídio Semedo, Daniel Cristoforo e Aduramane Djaló, três dos reclusos do Estabelecimento Prisional de Lisboa que assistiram à antestreia de Estômago

Um filme brasileiro passado na cadeia foi apresentado em ante-estreia aos reclusos do Estabelecimento Prisional de Lisboa. O que eles sentiram. (veja o trailler no final do artigo)

Katya Delimbeuf (texto) e José Ventura (fotos) (www.expresso.pt)

Exibição do filme Estômago no Estabelecimento Prisional de Lisboa. 42 reclusos viram a longa-metragem que estreia a 13 de Maio em Portugal

Exibição do filme Estômago no Estabelecimento Prisional de Lisboa. 42 reclusos viram a longa-metragem que estreia a 13 de Maio em Portugal

A sessão prometia. "Uma fábula nada infantil sobre Poder, Sexo e Gastronomia", rezava o sub-título da película brasileira, multi-premiada (36 prémios). "Estômago" foi exibido na quarta-feira, em ambiente de sala de cinema, a 42 reclusos da maior cadeia de Lisboa (com cerca de 1.000 presidiários, na presença do realizador, Marcos Jorge, um brasileiro com ar de alemão - alto, louro e de olhos azuis.

Parcialmente rodado na prisão de Curitiba, no Brasil, a película conta a história de Nonato, um rapaz ingénuo, sozinho na vida, cujo único talento é cozinhar. Ao longo de duas horas, o espectador acompanha as suas desventuras, a forma como é explorado, as suas pequenas vitórias e o amor por uma prostituta que acabará por o levar à cadeia. Aí, Nonato conseguirá subir na hierarquia da cela, que partilha com seis reclusos, graças ao seu dom para os temperos. Mas nada é tão simples como parece nesta história em que quem aparenta ser devorado também devora... E qual a reacção dos presos, perante a trama?

Retrato fiel

Divididos em duas alas, com uma dezena de guardas a velar pela segurança, o filme foi acompanhado de muito riso, a comprovar a atenção de todos. A linguagem dura, como na cadeia, e algumas cenas mais cruas de sexo, tornavam o filme realista aos olhos de quem "está dentro". Mas por altura do clímax, quando acontece o crime, só algum desassossego nas cadeiras denuncia a força do momento.

No fim da projecção, houve espaço para debate com o realizador e partilha de sentimentos. "Por que decidiu chamar ao filme 'Estômago'?", pergunta um recluso careca, nos seus quarentas. Pelo impacto da expressão, explica o realizador, já que é preciso ter estômago para lidar com uma série de coisas, nomeadamente na cadeia. Mas também porque queria transmitir a ideia de sistema digestivo, dos "sapos" que se têm de engolir. Por isso o filme começa com o plano de uma boca e termina com a imagem de um traseiro, o do protagonista. "No meio, está o estômago", confessa Marcos Jorge.

Interessava ao realizador mostrar "as tramas de poder de pequenos universos - fossem elas numa cozinha ou numa prisão". Na longa - que teve como consultor um escritor brasileiro que esteve preso 21 anos -, o personagem principal vai subindo de beliche à medida que sobe na hierarquia da cela (ao contrário do que acontece na realidade das prisões).

O realizador Marcos Jorge conversa com os reclusos após a projecção do filme

O realizador Marcos Jorge conversa com os reclusos após a projecção do filme

Açúcar, sal, cebolas...

Daniel Cristoforo, um dos reclusos que viu o filme com toda a atenção, divide a cela com 10 pessoas. Considera que "Estômago" retrata bem o dia-a-dia na prisão. É brasileiro, tem 29 anos e está na EPL há 3 anos e 4 meses. Assalto à mão armada. A trabalhar na cozinha da cadeia há um ano, tem semelhanças evidentes com o protagonista, que vive os seus únicos momentos de liberdade quando lida com comida.

A vida de Daniel melhorou desde então, admite. Passou a ter acesso a "açúcar, sal, cebolas", que servem para dar outro sabor à comida. O açúcar vai directinho para o leite do pequeno-almoço, que Daniel diz já não conseguir engolir... Como no filme, também ele improvisou um 'fogão' na cela, que usa para aquecer e melhorar o que lhes é dado a comer.

.. dão sabor ao arroz

Daniel, Aduramane e Lídio contaram-nos alguns truques que usam para melhorar a comida da cadeia

Daniel, Aduramane e Lídio contaram-nos alguns truques que usam para melhorar a comida da cadeia

O sal e a cebola têm como destino "o arroz sem sabor", concorda Aduramane Djaló. Este recluso, de origem guineense e 41 anos, está detido há 34 meses. Tráfico de droga. Por ser muçulmano, ainda tem mais restrições alimentares - não pode comer carne de porco.

"Às vezes, conseguimos cebola da cozinha, cortamos às fatias e juntamos ao arroz", conta. Ao almoço, às 12h, impreterivelmente (o jantar é às 18h), serve-se frequentemente "peixe com batata ou arroz sem sal e rissóis. A nossa salvação é a comida que a família traz para nós. Arroz, carne e peixe - mas com sabor", realça. "Se a comida fosse boa, os reclusos andariam mais bem-dispostos, sem dúvida", acrescenta. As refeições numa prisão ocupam um espaço da maior importância.

A directora do EPL, Eduarda Godinho, prova a comida diariamente. Confessa: "Há dias melhores que outros". Naquelas duas horas, os cozinhados de Nonato fizeram salivar as papilas gustativas de quem não come uma boa refeição há anos. Nesses momentos, também os reclusos foram livres. O filme estreia a 13 de Maio em Portugal.

ATENÇÃO: A linguagem rude dos protagonistas, com recurso sistemático ao calão, poderá ofender pessoas mais sensíveis