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"Pouca coisa vai mudar" com Gordon Brown

Neal Lawson, ex-conselheiro de Gordon Brown e director do grupo de pressão Compass, em entrevista ao EXPRESSO.

O que é que pode mudar com um governo liderado por Gordon Brown?
Pouca coisa. Ele vai fazer o possível para tranquilizar o eleitorado e o mundo empresarial em particular e dizer que vai continuar com as reformas e políticas de Tony Blair. Vai haver mudanças na “cultura” do governo. Brown faz parte da “família” trabalhista, enquanto Blair esteve sempre à margem do partido. Ao contrário de Blair, ele não está fascinado com milionários nem se impressiona com o seu estilo de vida. Brown é uma pessoa muito funcional, austera, diligente e muito obcecada com o trabalho. É altamente improvável que vá passar férias a Barbados com o cantor Cliff Richard ou com o ex-primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi. Não podemos esquecer que Brown é escocês e filho dum pastor prebiteriano. Mas a centralização de poder em Downing Street continuará e possivelmente vai aprofundar-se. Brown vai ter que aprender a delegar.

Que implicações terá este estilo pessoal na orientação ideológica do governo?
Pouca coisa vai mudar. As políticas económica, anti-crime, anti-terrorismo vão permanecer inalteradas. Mas vão haver pequenas mudanças de tom. A veia puritana e quase calvinista de Brown significa que as relações com o mundo empresarial vão ser diferentes. As relações vão ser mais distanciadas de modo a evitar novos escândalos de corrupção. Quanto aos serviços públicos Brown vai concentrar energias no investimento nos serviços públicos e no combate à pobreza e desigualdades sociais. Mas a sua margem de manobra para prosseguir estes fins é limitada.

Que ameaça representam Alan Johnson, Alan Milburn e outros possíveis interessados à eleição de Brown para a liderança do partido?
Todos estes possíveis candidatos são sinais positivos, porque vai haver uma eleição a sério. A coroação de Gordon Brown seria algo pouco democrático. Não queremos uma coroação, queremos um debate sério sobre o futuro do partido. É altamente improvável que Gordon Brown não seja eleito devido a sua estatura no partido e no governo. De momento ele é o único candidato a sério, mas nunca se sabe.

Qual é a maior fraqueza de Brown?
É a sua incapacidade de forjar uma alternativa de esquerda ao Blairismo.  Tal como Blair, Brown, acredita que a globalização é uma força para o bem e que o Estado só deve intervir para emendar os erros do mercado. Para se afirmar Brown vai ter que indicar um ponto de ruptura com uma parte da agenda blairista e este poderá ser o financiamento do ensino superior ou a privatização dos serviços públicos. Ele vai ter que quebrar com uma parte da agenda de Blair, senão as pessoas vão perguntar porque é que o partido mudou de líder.

Que prevê para as próximas eleições legislativas?
É difícil de prever porque o líder conservador, David Cameron, está a mudar o terreno da competição eleitoral. Brown vai ter que abordar os temas da “política da felicidade” em que Cameron está a tocar com algum sucesso. Ele vai ter que reconhecer que há mais coisas na vida do que a ética do trabalho e o crescimento económico. Terá que se debruçar de forma mais consistente nas questões do ambiente e de qualidade de vida se quiser ganhar eleições.