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Portugueses são solidários e tolerantes

A consulta feita este fim-de-semana a 30 portugueses, no âmbito de um projecto europeu, revela que somos mais tolerantes, abertos e preocupados com o ambiente.

Os portugueses querem uma Europa em que os problemas da energia e do ambiente sejam minorados, uma Europa solidária e que promova o conceito plural da família e, enfim, uma Europa em que os imigrantes vejam reconhecidos os seus direitos em pé de igualdade com os nacionais.

Em termos gerais, são estas as conclusões nacionais da Consulta aos Cidadãos Europeus, um projecto promovido ao nível dos 27 Estados-membros da União Europeia com a participação de mais de mil pessoas e que em Portugal foi levado a cabo pelo Instituto de Ciências Sociais.

Reunidos durante dois dias nas instalações daquele Instituto, 30 portugueses escolhidos aleatoriamente mas representativos da população, pronunciaram-se sobre três temas (Energia e Ambiente, Fronteiras e Imigração, Políticas Sociais e Família), considerados como os que mais preocupam os cidadãos europeus. Essa escolha foi resultado de um debate anterior de cidadãos europeus, na primeira etapa do projecto, idealizado pela Fundação Rei Balduíno da Bélgica.

Cidadãos de outros seis países (Luxemburgo, Dinamarca, Grécia, França, Polónia e Holanda) estiveram igualmente reunidos nos seus países, no âmbito do mesmo projecto, efectuando consultas e trocas interactivas de opinião.

Ambiente: a prioridade

Em termos ambientais, os portugueses manifestaram-se particularmente preocupados com questões como as energias renováveis e o equilíbrio entre os espaços verdes e a construção, mas também com a poluição industrial e a gestão dos resíduos urbanos e industriais.

Uma particularidade portuguesa, por comparação com outros países europeus, foi a apreensão relativamente à reflorestação com espécies autóctones e à utilização racional dos recursos naturais, nomeadamente a água.

Uma preocupação que, segundo Luisa Schmidt, a investigadora que acompanhou este debate, tem muito a ver com a realidade específica de Portugal, dos incêndios e da utilização da água.

“O ambiente é o que mais me preocupa porque sou jovem e é o meu futuro que está em causa”, dizia João Palhares, de 18 anos, o mais jovem membro do grupo, carpinteiro de profissão e estudante à noite.

“O fundamental é mudar a mentalidade de forma drástica – afirmou – porque a mudança tem que começar por nós. Nós é que fazemos o mundo, não os governos, aliás é graças a nós que eles lá estão”.

Família: tolerância e ambivalência

Segundo os resultados desta discussão, os portugueses parecem ser tolerantes em relação às diversas formas de família (casamentos homossexuais e a sua adopção de crianças, nomeadamente), mas renitentes quanto à sua legalização.

Ao mesmo tempo, revelam-se muito apegados à ideia que deve ser a família a responsabilizar-se em primeira-mão pelas crianças e idosos, embora reclamem do Estado apoios sob a forma de creches, infantários e subsídios.

Esta ambivalência é considerada pela socióloga Sofia Aboim como fruto da rápida modernização sofrida por Portugal nos últimos 30 anos, temperada pela permanência de uma mentalidade tradicional.

Quanto a políticas sociais, os portugueses querem tudo da União Europeia e dos governos: desde reformas mínimas obrigatórias a sistemas de saúde gratuitos e que englobem as medicinas alternativas, incentivos à natalidade e aumentos salariais inversamente proporcionais ao rendimento e, até, melhores condições de vida nas prisões.

Imigrantes iguais

A reivindicação de legislação que consagre o princípio da igualdade entre nacionais e imigrantes e a atenção específica que deve ser dada à imigração oriunda do mundo lusófono são as duas características mais relevantes que sobressaíram deste debate, onde também se falou da necessidade de legalizar em vez de expulsar os imigrantes ilegais e da exigência de melhor controlo de fronteiras.

“Não é igual um imigrante vir do Brasil ou do México ou da China”, dizia a reformada Maria de Lurdes Bernardino, de 68 anos, a mais velha do grupo. “A UE deve decidir quotas, porque nem todos poderão ter capacidade para receber, mas é fundamental que se olhe para a proximidade histórica e cultural”, afirmava, chamando a atenção para a delicadeza e penosidade deste assunto, porque “muitos imigrantes julgam que vão encontrar Sol e, no fim, deparam com trovoada”.

Segundo o geógrafo Jorge Malheiros, que acompanhou o grupo que debateu este tema, estas “peculiaridades” portugueses reflectem em grande parte a experiência de emigração portuguesa e, portanto, a nossa sensibilidade ao tema. O que o surpreendeu foi a reclamação da igualdade de direitos, mesmo políticos, após um determinado período de residência. Afinal, um espírito aberto, que faz jus ao passado português.