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Portugueses deportados já são 600

As autoridades canadianas ignoraram os apelos de Freitas do Amaral, há cerca de três meses. A vaga de deportações não parou.

Desde o início do ano, cerca de 600 portugueses imigrados no Canadá receberam ordem de deportação. O ritmo de expulsões não abrandou desde que o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral, visitou aquele país, há pouco mais de três meses.

«O resultado dessa visita foi nulo», revelou ao EXPRESSO o presidente do Congresso luso-canadiano, o advogado Peter Ferreira, adiantando que o ritmo dos repatriamentos ameaça mesmo aumentar a partir deste mês. «Com o final do ano lectivo, aquelas famílias, autorizadas a ficar até os filhos concluírem as aulas, deixaram de ter razão para aqui permanecerem».

O ministro canadiano da Imigração, Monte Solberg, numa reunião com representantes da comunidade portuguesa, recusou mesmo redigir uma moratória que acabaria com os repatriamentos, pelo menos até ser discutida uma nova lei de imigração, menos penalizadora. Esta informação foi dada ao EXPRESSO pela presidente da federação dos empresários luso-canadianos, Ana Bailão, que participou no dito encontro.

Outro esforço inglório foi feito, há oito dias, pelo deputado Mário Silva (até hoje o único luso-canadiano a conquistar um lugar no Parlamento). No comité de Imigração e Cidadania apresentou uma moção que na prática teria o efeito de parar com as expulsões. Os parlamentares do Partido Conservador (força política que apoia o Governo) bloquearam a proposta. «Senti-me insultado. Na realidade, este Executivo quer aumentar o drama», confessou. E percebe-se porquê. O primeiro-ministro canadiano, Stephen Harper, traçou o objectivo de, até final deste ano, repatriar 13 mil clandestinos. Resta saber qual será a percentagem de portugueses.

Recuar 30 anos

Com este episódio, «parte da comunidade lusa recuou 20 ou 30 anos», para um tempo em que viviam na mais absoluta «clandestinidade e miséria humana», garante Pedro Barata, advogado e Conselheiro de Imigração. «Entre estar aqui a monte, mas empregado, e ficar em Portugal sem trabalho, as pessoas arriscam. Tenho certeza de que 99% das pessoas que me telefonam a pedir ajuda acabam por optar pela clandestinidade».

Com a atitude persecutória das autoridades, outro comportamento alterou-se. Antes, parte das pessoas chegavam e procuravam a legalização, com o auxílio dos procuradores de imigração - advogados que os ajudavam a tratar da burocracia. Hoje, chegam, beneficiando do facto de não ser preciso visto para entrar no Canadá, e «escondem-se», disse Ferreira.

As perseguições policiais continuam: nas estradas, em operações stop, ou em bairros associados às comunidades imigrantes. Vários são traídos pelos próprios compatriotas. «Há portugueses a denunciarem portugueses», garante Peter Ferreira.

Responsáveis políticos e associativos residentes no Canadá, ouvidos pelo EXPRESSO, não perspectivam qualquer mudança no actual cenário. «Vimos que quando Lisboa pediu satisfações, Otava ouviu. Mas logo a seguir tudo ficou na mesma. Há uma certa arrogância», desabafou uma fonte oficial.

O EXPRESSO tentou ouvir os responsáveis da embaixada portuguesa em Otava e do Consulado geral em Toronto, mas ninguém se mostrou disponível para falar.