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Português estuda venenos para criar novos antídotos

O geneticista Agostinho Antunes analisou a variação dos venenos em répteis para  produzir antídotos "mais eficientes.

Um estudo liderado pelo geneticista Agostinho Antunes analisou a variação dos venenos em répteis para "conhecer melhor" como evoluem as moléculas envolvidas no veneno e poder produzir antídotos "mais eficientes" contra os seus efeitos, disse à Lusa o cientista.

Todos os anos, milhares de pessoas morrem em todo o mundo, na sequência da mordedura de animais venenosos, o que acentua a importância do estudo de venenos, tanto em países desenvolvidos como em países subdesenvolvidos.

A variação da composição bioquímica dos venenos naturais produzidos é elevada, mesmo em indivíduos da mesma espécie, o que dificulta a produção de antivenenos.

Agostinho Antunes e o indiano Kartik Sunagar, do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), da Universidade do Porto, integram a equipa de cientistas internacionais que estudaram os genes que codificam as proteínas CRISP, glicoproteínas exclusivamente encontradas nos animais vertebrados e relacionadas com funções diversas, como a reprodução em mamíferos e a produção de venenos em répteis venenosos.

Informação para salvar vidas

Segundo Agostinho Antunes, o principal objetivo da investigação foi "conhecer a variação dos venenos naturais, nomeadamente em cobras e em outros animais".

As principais vantagens do estudo é conseguir "uma informação adicional para o desenho de antídotos mais eficientes, também chamados antivenenos, que permitem salvar vidas humanas", explicou.

Durante a investigação, que decorreu no CIIMAR e no Instituto Nacional do Cancro, Estados Unidos da América, foram estudados répteis venenosos, nomeadamente cobras e lagartos, e mamíferos, uma vez que a proteína está envolvida também na reprodução em mamíferos.

"O estudo da genética molecular dos genes que codificam as proteínas CRISP em répteis venenosos revelou que esses genes são altamente influenciados pela seleção natural positiva, o que causa grande variação das proteínas produzidas, mais nas cobras do que nos lagartos venenosos", refere a investigação publicada na "Molecular Biology and Evolution", uma publicação da Universidade de Oxford.

Lagartos com mandíbulas mais possantes

Por contraste, as proteínas CRISP nos mamíferos, envolvidas na reprodução, possuem muito pouca variação, pois são influenciadas por seleção purificadora.

Segundo o estudo, as proteínas CRISP são muito mais variáveis em cobras do que em lagartos venenosos, sendo a maior potência do veneno em cobras compensada nos lagartos por mandíbulas mais possantes e eficientes na predação, como no caso do dragão de Komodo (ilha da Indonésia).

"A variação das proteínas CRISP nos répteis venenosos encontra-se particularmente direcionada para diversificar a região exterior da proteína, como estratégia para alterar a homeostase das presas, nomeadamente pelo bloqueio de canais de iões e inibição da contração muscular", adianta.

Esses 'hotspots' de mutações genéticas no exterior da proteína permitiram tornar as proteínas CRISP altamente eficientes na destruição das células e tecidos das presas e sugere que são um dos componentes mais importantes nos venenos dos répteis venenosos.