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"Portugal não é periférico"

As aventuras de um italiano (que não gosta de Berlusconi) em Portugal: os lugares, os artistas, a grande literatura, mas também a inveja e a dependência em relação ao poder político.

Acaba hoje o seu contrato, mas fica mais três meses em Portugal, para assegurar a gestão do TNSC até ao fim da temporada. O que gostaria de fazer antes de ir embora?
Gostaria de conhecer melhor o país, que de facto ainda não conheço muito bem, porque fiquei muito em Lisboa, entre as paredes deste gabinete. Quero fazer um passeio tranquilo pelo Alentejo. Só conheço Évora, onde passei um dia, e gostaria de conhecer o Alentejo Interior e a Costa Vicentina.

O que conhecia de Portugal quando chegou em 2001?
Pouco, porque tinha vindo só uma vez. Sabe, eu nunca fui um grande viajante, porque não gosto de ser turista. Gosto de viajar em trabalho, mas não gosto de fazer férias. Pode parecer incrível, mas quando fiz a primeira viagem ao estrangeiro tinha já 25 anos.

E viajou para onde?
Suíça, que não era propriamente longe. Eu viajava como na sátira de Ariosto, com as cartas geográficas. Era um grande consumidor de mapas e atlas, gostava de planear viagens que não fazia. Conheci Portugal em 1996 e, por ironia do destino, a convite do professor Mário Vieira de Carvalho [o actual secretário de Estado da Cultura, que o despediu do São Carlos], que era professor da Universidade Nova de Lisboa e colega do projecto Erasmus, do qual eu também fazia parte como professor da Universidade de Veneza. Convidou-me para um congresso que teve lugar em Dezembro desse ano, na casa Guimarães, em Cascais. Eu não gosto muito dos colóquios de musicologia, fiz muitos mas não gosto, porque são muito rígidos – vai-se de manhã ouvir os outros, depois está-se à espera de falar, com o horário todo já planeado…Então, um dia fiz gazeta. Mas não escolhi o melhor dia, pois não havia sol. Apanhei o comboio e fui visitar Lisboa. Eu tinha um guia de Portugal e Espanha que comprara nos anos 70, posterior à revolução dos cravos mas anterior à queda de Franco. No âmbito do congresso, fiz ainda um passeio por Cascais e por Sintra, e fui ao Cabo da Roca (tenho um diploma da Câmara de Cascais a prová-lo!)

Sabia portanto muito pouco de Lisboa e de Portugal quando foi convidado a vir para cá.
Conhecia o teatro, porque na geografia histórica do mundo da ópera o S. Carlos é uma referência importante.

Fazia parte das tais viagens imaginárias…
Exacto.

Nestes seis anos viveu onde?
Primeiro, na Lapa. Depois mudei para a Graça, quando a minha filha decidiu estudar no estrangeiro, há três anos.

O que gostou na Graça?
Esta ideia de um bairro popular. Lisboa é, por um lado, uma capital com uma dimensão cosmopolita, mas também há uma dimensão ainda vivida, sem aquele anonimato das grandes cidades. Esta conjugação dos dois aspectos é o que mais aprecio. E sempre gostei da arquitectura, embora alguém que chega de Itália e diz isto possa parecer um louco, porque Itália é o centro da arquitectura… Lisboa não é uma cidade de zoom, não há pormenores deslumbrantes. É uma cidade de grande ângulo, cenográfica. Agora que estou a acordar, que tenho de fazer as malas, sinto uma certa tristeza. Já tenho saudades.

Fez vida de bairro na Graça?
Claro. Ia sempre comprar o pão à padaria, depois ia comprar a fruta, o jornal.

É casado e tem dois filhos. Como é que a família encarou a mudança para Lisboa?
Quando eu recebi o convite, em 2001eles foram muito favoráveis a esta vinda. E acho que para os meus filhos esta experiência foi fundamental para a sua formação. Veneza nunca lhes teria oferecido as mesmas oportunidades que eles tiveram aqui a nível escolar, a minha filha foi para o Liceu Francês, o meu filho para um colégio inglês. Hoje a minha filha está numa universidade francesa, o meu filho volta para Itália com um bom domínio da língua inglesa e do português, isso é muito importante. E Lisboa é uma capital, Veneza não. Veneza é muito bonita, mas é um bonito museu, onde vivem turistas. As pessoas ficam espantadas quando eu digo isto, mas é verdade e quem conhece Veneza sabe que é verdade.

E a sua mulher?
Logo que nós chegámos ela começou a trabalhar, deu cursos de italiano para portugueses, depois interessou-se por literatura portuguesa e começou a traduzir algumas obras por sua iniciativa. Em 2005, no Salão do Livro de Turim houve interesse de uma editora italiana por um livro do Mário de Carvalho que a minha mulher queria traduzir, «Um Deus passeando pela brisa da tarde». Não havia nenhum livro dele em italiano e agora esse livro está nomeado para um importante prémio literário em Itália.

Além de Lisboa o que é que conheceu?
Muito pouco. Fiz a viagem que todos fazem a Óbidos, fui pela costa até ao Porto, Coimbra, Viseu (onde visitei o museu e conheci o grande pintor Grão Vasco), Lamego, Foz Côa e o Douro. Lindíssimo. Também fui a Sagres e à Costa Vicentina, mas sempre muito rapidamente, dois dias no máximo. A viagem maior que fiz em Portugal foi no primeiro ano, aos Açores, a São Miguel. Eu estava à procura de um sítio isolado e tive a sorte de encontrar uma casa em Mosteiros. Não tivemos sempre sol mas foram sete dias encantadores.

Após estes seis anos, qual acha que é a mais-valia de Portugal em termos culturais?
É difícil responder a isto. Para mim, o mundo cultural é por definição cosmopolita. Então não consigo encarar estas questões de forma nacionalista. Aqui, conheci personalidades e artistas de altíssimo nível mas me relacionei com eles numa lógica de tipo cosmopolita, não sei atribuir-lhes uma especificidade portuguesa. Encontrei um grande actor como Luís Miguel Cintra, conheci pessoalmente um escritor como Saramago, encontrei um grande realizador de cinema, de quem já conhecia a obra, que é o Manoel de Oliveira. Fui passar uma tarde com ele ao Porto porque queria convidá-lo a encenar uma ópera Ele não aceitou, mas o diálogo foi muito simpático.

Disse um dia que Portugal é um país com baixa auto-estima. Mantém essa ideia?
Sim. Portugal é um país com baixa auto-estima e também me parece que os portugueses não querem aproveitar as oportunidades que têm. Não lutam até ao fim.

Como assim?
Eu batalhei muito, o que se calhar não é uma característica portuguesa. Tive a sensação que, quando alguém ganha uma dimensão de grande visibilidade, começam a puxá-lo para baixo. Não o senti pessoalmente, mas olhava-se para o S. Carlos e o seu sucesso com uma certa dor de cotovelo. Claro que, no mundo do espectáculo, como dizia justamente Jerry Lewis, um actor desfruta mais do fracasso do outro do que do próprio êxito. Mas em Itália eu sentia uma concorrência saudável. Cá nem sempre é assim, muitas vezes a concorrência, em vez de puxar para cima, puxa para baixo.

Acha que as pessoas se deixam derrotar pela ideia de que o país é pequeno e periférico?
De vez em quando, sim, embora eu não considere Portugal periférico. É-o geograficamente, mas esta periferia pode tornar-se uma ponte para outros mundos. Por exemplo, eu só visitei Nova Iorque quando já vivia em Portugal. Porque é mais perto, são umas cinco horas de voo.

Mas quando estava em Itália, imagino que achasse Portugal periférico. Mudou de opinião quando chegou cá?
Logo! Há uma abertura para a América do Sul, para África, para mundos com os quais o velho continente terá que confrontar-se mais cedo ou mais tarde. E acho que Portugal não está a aproveitar essas potencialidades. A mera presença de pessoas que chegam de vários continentes e que estão perfeitamente integradas em Portugal deu-me outra perspectiva do país. Dos países europeus que visitei, Portugal é aquele onde a integração dos imigrantes é melhor conseguida. A intolerância que se vive no Norte de Itália em relação aos imigrantes, que têm uma presença irrelevante, é muito maior. O presidente de uma câmara como Treviso chegou a vetar aos imigrantes a possibilidade de se sentarem nos jardins públicos. E um deputado da Liga propôs comboios para imigrantes e comboios para italianos…Essa intolerância é exercida por essa pequena burguesia que votou Berlusconi – que eu odeio desde o mais fundo do meu coração. Eu não apanhei o Berlusconi, já estava cá. Mas fui lá votar.

Foi de propósito a Itália para votar?
Claro! Perdemos, mas eu tive: emigrei.

Voltando para a Itália, preocupa-o a influência que Berlusconi ainda mantém?
Berlusconi não acabou, mas também isso é um pouco opereta. Tem um lado de farsa.  É claro que foi um episódio inquietante, porque era uma conjugação e concentração de poder para além da mediação política. Para mim, a política é o lugar da mediação entre diferentes poderes, e ali havia uma enorme concentração de poder. Mas, por outro lado, hoje muitas decisões já não são tomadas pelos Estados, mas a nível superior, seja pela União Europeia, pelo Banco Central Europeu, ultrapassam os Estados…