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Portugal é o país com mais cidadãos a trabalhar na UE

Comunidades consolidadas e reactivação recente da emigração explicam o lugar cimeiro.

Daniel do Rosário, correspondente em Bruxelas, e Raquel Moleiro

Os portugueses continuam a ser os europeus que mais saem do país para trabalhar. Bruxelas divulgou na última semana a análise do impacto do alargamento da União Europeia (UE) a Leste sobre o mercado laboral, para concluir que a adesão de oito países em 2004 e da Bulgária e Roménia em 2007 não materializou os receios de uma 'invasão' de mão-de-obra barata em direcção aos 'antigos' Estados-membros. Mas a avaliação da Comissão Europeia foi mais longe e incidiu igualmente sobre todos os movimentos migratórios no seio da própria União. Conclusão: Portugal é o país com a maior percentagem de população activa (9%) a residir noutro Estado-membro.

Entre comunidades emigrantes consolidadas e aventureiros da nova vaga, existem mais de 500 mil portugueses a viver fora do país mas sem transpor as fronteiras da União Europeia. E é uma liderança incontestada, distanciada dos países de onde se esperavam êxodos de mão-de-obra mais significativos, como a Roménia e a Bulgária, na sequência da progressiva abertura das fronteiras.

Ainda que a maioria tenha deixado Portugal nos anos 60 a 70, fontes comunitárias explicaram ao Expresso que 1,2% de portugueses em idade activa abandonaram o país recentemente, entre 2003 e 2007, o que corresponde a quase 90 mil pessoas.

"Não é uma conclusão surpreendente", explica o investigador Jorge Malheiros, da Universidade de Lisboa. "Somos um país pequeno, temos uma tradição de emigração que estabeleceu e consolidou várias comunidades e fomos mantendo um fluxo de saída que as continua a alimentar. A crise, claro, intensificou as partidas nos últimos anos, mas não ao ponto de se registar actualmente um pico de emigração".

Enquanto os destinos privilegiados por esta fornada mais fresca foram a Espanha, a França e o Reino Unido (cerca de 30% para cada país), a esmagadora maioria dos emigrados antes de 2003, mais de 60%, instalou-se em França. Alemanha, Reino Unido e Luxemburgo surgem a seguir na lista, sendo de assinalar que os portugueses constituem a maior comunidade de imigrantes a residir no grão-ducado.

A construção civil foi o sector que mais portugueses atraiu para o estrangeiro, principalmente entre os que saíram depois de 2003. Outras áreas significativas são a transformação, o imobiliário, o arrendamento e as actividades empresariais.

"É sobre esta caracterização da emigração recente que Portugal deve reflectir, porque revela um claríssimo fracasso na qualificação da população e na redução das desigualdades sociais", salienta Malheiros.

Ainda que a nova emigração tenha mais instrução, as baixas qualificações ainda predominam: mais de metade só estudou até ao 6º ano e menos de 20% tem acima do 9º ano. Em matéria de discrepância social, a OCDE classifica Portugal como um dos mais injustos no que respeita à distribuição dos rendimentos e coloca o país na dianteira em matéria de diferenças entre ricos e pobres.

No relatório agora divulgado, a Comissão Europeia conclui que a livre circulação de trabalhadores oriundos dos mais recentes membros não levou a um aumento do desemprego, nem a uma quebra salarial nos países de acolhimento.

Por isso, Bruxelas, apela aos antigos 15 Estados-membros da União para que acabem com as restrições que muitos ainda mantêm relativamente aos trabalhadores daqueles países, como é o caso de Portugal.

A crise económica pode, porém, estar a alterar os fluxos de saída. O desemprego que afecta toda a Europa (e Espanha com especial incidência) começa a pressionar a franja mais recente de emigrantes a regressar a casa. A diminuição em 7% das remessas enviadas para Portugal, no primeiro semestre deste ano, é o primeiro sinal de que nem tudo vai bem na diáspora.

Texto publicado na edição do Expresso de 29 de Novembro de 2008