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Portugal dos pequenitos

Não é preciso invocar o Empire State Building para se perceber que as torres previstas para Lisboa ficam muito abaixo do que se vai fazendo pelo mundo, mesmo na mais comedida Europa.

Na cidade das sete colinas, os miradouros ainda proporcionam as melhores vistas. A concorrência, porém, está a chegar: vêm aí as torres – altas para Lisboa, mas modestas para os padrões europeus – e os seus terraços trarão novos panoramas.

O hotel Sheraton, no alto dos seus 100 metros, orgulhava-se de ostentar o título de ‘edifício mais alto de Lisboa’. Com a abertura da Expo-98, perdeu a designação para a Torre Vasco da Gama, com mais de 140 metros até ao topo. Encerrada desde Outubro de 2004, um dos «ex-líbris» da Exposição Mundial de Lisboa tem um novo destino traçado. Em Junho deste ano, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) aprovou a construção de um hotel de 21 andares acoplado à estrutura da torre. Da autoria do arquitecto Nuno Leónidas, o plano prima pelo arrojo, mas se comparado com os três novos edifícios que vão nascer na capital, é tímido em altura. Os projectos, todos em processos de aprovação, rondam os 100 metros e posicionam-se no segmento de luxo. A Gabriela Seara, vereadora do Urbanismo da CML, e engenheira de formação, interessa-lhe sobretudo que ‘renovem’ a cidade. “Não faz sentido compactar o solo com edifícios baixos”, diz.

Com torres de 30 pisos, Lisboa dá ares de modernidade, mas continuará fora do «ranking» das 25 cidades europeias com edifícios mais altos. A metros de distância de Moscovo (a primeira da lista) e do seu Triumph-Palace, de 264 metros.

José Paulo Fernandes, promotor do projecto do arquitecto Norman Foster para o Aterro da Boavista, reconhece que o ‘seu’ edifício não tem as medidas internacionais. “No «skyline» português, somos uma torre. Lá fora, não”.

Qualquer que seja o termo certo, com o parecer favorável da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR), o edifício está mais perto de se tornar no “primeiro projecto a ir tão longe em altura”, como assume a vereadora. A ousadia serve de mote a uma discussão pública, agendada para Novembro. E que coincide com a vinda de Norman Foster a Lisboa, pela quarta vez. “Fizemos sempre questão de mostrar os planos publicamente”, reconhece José Paulo Fernandes.

A parceria com o arquitecto britânico nasceu de um encontro casual em 2003, em Serralves. O tempo encarregou-se de ‘afinar’ o projecto. Na actual proposta, a torre ganhou o estatuto de ‘ícone’, assegura o promotor.

Concluída a discussão pública, o processo é submetido à aprovação da Assembleia Municipal. Como o Plano Director Municipal de Lisboa só permite a construção de edifícios até 25 metros (oito andares), um Plano de Pormenor que altere essa cércea tem ser submetido a ratificação do Conselho de Ministros.

Com tudo acertado, a promotora arranca com a obra em menos de 6 meses. Dentro de dois anos, a torre esguia (e todo o quarteirão) estará de pé.

Não é preciso esperar pelo período de debate público para ouvir vozes contra a construção em altura. Entre os arquitectos, Gonçalo Ribeiro Telles, revela-se o mais desanimado. O “toque de modernidade” não o convence. “Apenas escondem a falta de política de desenvolvimento urbanístico”, acusa.

Mário Sua Kay, o arquitecto escolhido para o lugar de Siza Vieira no Alcântara XXI (para o qual estavam previstas três torres de 105 metros) não vê razões para não se erguerem arranha-céus. “Com o 11 de Setembro, julgou-se que ia ser o fim das torres. Puro engano”, assegura Sua Kay, a quem lhe falta realizar um sonho: construir um edifício de 40 pisos numa planície alentejana. “Ia parecer que estávamos a flutuar num balão”.

No centro de Lisboa, para o quarteirão da Av. Fontes Pereira de Melo, o arquitecto Ricardo Bofill, autor do Atrium Saldanha, ali ao lado, projectou uma torre de 105 metros. Provisoriamente, leva o nome de Compave, pelo facto do terreno ter sido adquirido, em 1989, à empresa do banco BPA. Quando concluída, deverá optar por Torre da Cidade.

No 11.º andar do Atrium Saldanha, Armando Martins fixa o olhar na maquete. A espera desespera-o. “Fazer a obra é fácil. Difícil é ter a autorização”, lamenta-se o promotor, inconformado por viver num país ‘pequeno’.

Para a torre Compave, estão a ser elaborados os termos de referência do Plano de Pormenor. A proposta será discutida em Outubro, segundo a vereadora. Armando Martins poderá, então passar à acção. E nem a ‘apreensão’ manifestada pelo vizinho José Alberto Ribeiro, director da contígua Casa-Museu Anastásio Gonçalves, ‘inconformado’ com o impacto daquele imóvel, o vai atrasar.

Envolto em segredo está o edifício da autoria de Manuel Salgado, no Parque das Nações. A torre Turifenus resulta de um acordo entre a CML e o proprietário do terreno, assumido em 1996, quando foi necessário alargar a Av. de Berlim para se chegar ao recinto da Expo-98. Desde então, “esta solução é a que permite libertar mais terreno e, sobretudo, não obstruir as vistas sobre a Gare do Oriente”, assume o arquitecto. O facto de vir a ser edificada próximo dos gigantes S. Gabriel e S. Rafael, acima dos 100 metros, obriga a vereadora a seguir o projecto de perto. “Para a torre a meio não parecer um galheteiro”, diz. Por estar em afinação, Manuel Salgado optou por não ceder imagens. Da CML veio a informação de que “há três anos era neste ponto que estava o aterro da Boavista”.

SEGURANÇA REFORÇADA

Com mais de 28 metros, todos os edifícios são obrigados por lei a dispor de infra-estruturas para se defenderem de um sismo ou incêndio. A medida não dá folga ao coronel António Antunes, comandante do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa (RGS) já que “é fundamental os planos de emergência serem exequíveis”.

Quando está previsto erguerem-se edifícios com 100 metros, mais de 30 pisos, só o rigor atenua o risco. Restaurantes de luxo no último andar, e a funcionar com exaustores (onde se acumulam gorduras), ou piscinas com vista panorâmica sobre a cidade, podem dar dores de cabeça a quem salva vidas como profissão. “Sabe lá as conversas que tenho com ateliês de arquitectos de gabarito a insistirem para mudarmos o ponto de vista”, revela. O comandante do RSB é que não vai em conversas. Com auto-escadas que só chegam aos 43 metros, ou no limite a 50 – não verticalmente, já que funcionam com uma ligeira inclinação – o combate às chamas em edifícios dessa dimensão só pode ser feito na “cara do fogo” (dentro do edifício e frente às chamas). O trânsito e o estacionamento são uma fonte de preocupação quando é preciso chegar depressa, mas as acessibilidades dentro de um prédio fazem toda a diferença. Apesar dos bombeiros serem ouvidos na fase de apreciação técnica, com o projecto ainda em papel, e fazer pré-vistorias à obra, é na manutenção que há falhas. “As torres são equipamentos especiais que deviam ter uma vistoria criteriosa”, acrescenta o chefe Lourenço Nunes. Uma vez por ano, ou até semestralmente. Os custos elevados tendem a protelar o dever. Só o Serviço Nacional dos Bombeiros e Protecção Civil tem o poder para alterar a situação. “Nestes casos, devia ter uma acção mais coerciva”, reconhece António Antunes. Apesar do discurso apreensivo, o chefe Lourenço Nunes dá como bom exemplo o comportamento dos proprietários e arrendatários das Twin Towers, em Lisboa. Um dos edifícios mais altos da capital, tem tido uma conduta exemplar no que toca à manutenção. “Fazemos vários testes”, assegura o Lourenço Nunes, preocupado com os novos desafios dos bombeiros.