Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

"Portas serve os interesses estratégicos de Sócrates"

Na primeira entrevista desde que foi derrotado por Paulo Portas nas directas de 2007, José Ribeiro e Castro considera que a estratégia do CDS favorece os interesses de José Sócrates e lamenta que há esteja a ser trabalhada uma alternativa ao poder socialista. O eurodeputado, que se tem dedicado sobretudo a questões de direitos humanos, família e agricultura, denuncia que o discurso do CDS sobre imigração resvala para o extremismo.

Filipe Santos Costa (texto), Luiz Carvalho (fotos)

No documento de orientação política (DOP) que apresentou, Paulo Portas faz um balanço positivo deste ano e meio de liderança. O partido tem subido nas sondagens, teve um bom resultado nos Açores, e boa parte dos comentadores considera que o CDS tem marcado a agenda e feito um bom trabalho de oposição. Concorda com esta análise ou não está satisfeito? Quanto às sondagens, tem havido um pouco de tudo: sobe, desce, mas sempre com valores insuficientes, muitas vezes abaixo das sondagens que eu tive, e eu era muito atacado por causa disso. A última sondagem dá um crescimento de 2% para 4 %... creio que não é animador. Veja as circunstâncias que o partido tem tido: o PSD em crise contínua, o CDS sem crises internas, e não tem beneficiado disso.

O que é que Paulo Portas fez bem neste ano e meio? Há coisas com que estou de acordo, algumas no seguimento de coisas que eu comecei. Por exemplo, a preparação a longo prazo das autárquicas, que eu comecei apesar de também ser sabotado a esse nível; a ronda contínua aos fins-de-semana pelas concelhias, às vezes com muito pouca gente - o que também acontece com Paulo Portas, embora eu fosse muito criticado e às vezes gozado por isso...

Também acho que na agenda do partido há pontos positivos. Não é tanto a agenda do ambiente, da ciência e dos museus (que Paulo Portas propunha nas directas, e que percebeu que era uma agenda desfocada), mas temas como a defesa do contribuinte, que eu lancei na agenda do CDS. Ou a educação, tema que me era particularmente caro. Portas também faz bem em insistir na questão da agricultura. Mas nesta fiquei surpreendido. Eu era muito criticado por defender tanto a agricultura e o Interior, porque diziam que isso não era "urbano". Recordo-me de um apoiante de Paulo Portas, de Bragança, me ter dito numa Comissão Política que Bragança não queria saber da agricultura, queria era saber da modernidade e da vida urbana, o que é extraordinário!

E em que temas o CDS tem falhado? Na imigração e na nacionalidade foi deplorável aquilo a que assisti. O contrato da imigração é uma ideia "gira", não é mais do que isso. Não tem consistência e não é essencial. Todo aquele discurso de ligação da imigração à criminalidade só tem uma explicação: tentar captar os votos mais extremistas ou desinformados. Mas é um momento de grande irresponsabilidade, sobretudo quando atinge a própria Lei da Nacionalidade. Não é próprio de um partido do arco da governabilidade e do arco europeu usar a imigração como arma de arremesso político, e com um discurso que ultrapassa o aceitável e compreensível.

Nesse ponto o CDS tem um discurso de extrema-direita? É claramente um discurso não personalista, para além de que não é uma linha séria. É o regresso do CDS à política dos nichos - acham que há aqui um nicho de pessoas que estão alarmadas e que não conhecem a realidade. Nesta questão nós temos problemas, temos que ter cuidado, eu sou adepto de uma política de imigração rigorosa, prudente, mas [este discurso do CDS] é completamente irresponsável e agressivo para os imigrantes. E sabemos que há fenómenos de criminalidade que muitas vezes têm a ver com os ilegais, não têm a ver com imigração legal. E muitas vezes esta criminalidade atinge em primeira linha os imigrantes. Este combate contra a criminalidade faz-se em colaboração e diálogo com as associações de imigrantes. Também acho que os partidos políticos, e nomeadamente o CDS, têm responsabilidades de integração, eu procurei que nas eleições autárquicas nós integrássemos imigrantes nas nossas listas.

A pergunta é se este discurso do CDS é o que é feito noutros países europeus por partidos de extrema-direita. Não sei se são todos de extrema-direita... Acho é que o uso da política de imigração como arma de arremesso eleitoral é obviamente um discurso que resvala para o extremismo. Eu sou de direita, mas a tradição da direita portuguesa é integradora. Na Lei da Nacionalidade do dr. Salazar, de 1958, o princípio é "jus soli", ponto final parágrafo.

Saída de Nobre Guedes: “Portas disse que tinha sido uma questão de cansaço, sem razões políticas. Guedes disse que saiu por divergências políticas. Há aí uma obscuridade que não é boa”

Saída de Nobre Guedes: “Portas disse que tinha sido uma questão de cansaço, sem razões políticas. Guedes disse que saiu por divergências políticas. Há aí uma obscuridade que não é boa”

Está a querer dizer que Salazar estava mais à frente do que este CDS? Não, as circunstâncias mudam, o quadro é outro. Nós não temos os problemas de outros países, por isso temos que ter cuidado quando importamos modelos.

Paulo Portas escreve na sua moção: "O CDS afasta cenários de coligações ou acordos parlamentares". Está na página 29. Para si não chega ler isto. O que é que Portas tem que dizer para o senhor ficar convencido de que ele não se quer coligar com Sócrates? Eu não disse que ele se vai coligar, isso estaremos cá para ver. Há várias formas de acordo possível com o PS, não é necessário que seja uma coligação, pode haver um acordo com outras contrapartidas, nomeadamente lugares. Na política temos que ler os textos, ouvir as entrevistas, ler a imprensa. Toda a imprensa, a começar pelo Expresso, fala nesse cenário (de entendimento com o PS). Um cenário com que eu, aliás, fui confrontado: uma das linhas de ataque à minha direcção é que a minha estratégia seria demasiado dependente do PSD e não abria a possibilidade de outro entendimento. Isso não é uma coisa nova. No DOP o objectivo não é derrubar este governo e substituí-lo por uma alternativa, mas tirar a maioria a Sócrates. É uma moção que diz: podes ficar, mas sem maioria absoluta, para teres que fazer um negócio comigo. E há a mobilização do partido contra a "República do Bloco Central", um adversário que não existe. Para mim, há apenas duas coisas certas: há o governo Sócrates e há a aspiração a uma alternativa. E é para uma alternativa ao Governo Sócrates que o CDS devia servir, com outros (partidos), porque sozinho não chega. Foi isso que eu defendi que devia ser feito, mas isso não está escrito no rumo político do partido. Pelo contrário. Portanto, eu leio no documento de orientação política uma ausência deliberada, voluntária, dessa alternativa. E há também um apontar de tiros ao PSD.

Não concorda que em muitas matérias PS e PSD se tornaram indistintos? Não julgo que seja assim.

Em 1999 o senhor na direcção do CDS e nessa altura achava muito bem que Portas dissesse que PS e PSD eram como Coca-Cola e a Pepsi. Porque é que agora ele não pode dizer a mesma coisa por outras palavras? Aquilo por que eu sou responsável é a moção de estratégia que levou o CDS ao Governo (com o PSD) em 2002. Eu fui o relator dessa moção. Foi a estratégia que retirou o CDS duma situação muito difícil.

Na sua opinião, o CDS devia estar a trabalhar com o PSD para uma alternativa a Sócrates? Não tem que ser só com o PSD. A aspiração que existe no centro e na direita é que alguém sirva essa necessidade, e as pessoas vêem com desgosto que ninguém o faça. O combate do CDS é a valorização da sua posição política própria, considerando indiferente quem ganha as eleições. E o PSD tem dificuldades... Creio que esta é uma das razões que geram um grande desencontro da sociedade portuguesa em relação aos partidos, em particular no espaço do centro e da direita.

Não falta oferta à esquerda... Pois, e eu acho que a estratégia do CDS devia responder a um problema muito sério, que é a deslocação do PS para o centro, a mexicanização do país com o PS instalado ao centro e a esquerda a crescer. Isso pode ter efeitos terríveis, duradouros.

Assim o CDS faz o jogo de Sócrates? Objectivamente é uma linha que serve os interesses estratégicos de José Sócrates.

Isso parece-lhe uma consequência não intencionada desta estratégia, ou um resultado propositado? É um pouco estulto estar a especular sobre acordos secretos, então hoje com o telemóvel isso é muito fácil... E há várias formas de acordo possíveis, até acordos de aparentes contrários, em que esse jogo é uma coisa combinada...

O senhor foi presidente do CDS já com o Governo Sócrates e percebeu o que é que a ele mais lhe convinha. Aquilo que Sócrates mais teme à sua direita é que se gerem condições para um grande movimento de alternativa. Isso pode ter várias formas. Em 2002 não foi uma coligação, foi aquilo a que eu chamo dois carris diferentes que apontam no mesmo caminho. E há muita gente independente.

Sócrates alguma vez o tentou seduzir para fazer esse jogo que convinha ao Governo? Sim, nomeadamente em 2005. Que o CDS podia ter um caminho de afirmação que não tinha a ver com convergências com o PSD. E eu disse que não. O meu papel como presidente do CDS era derrotar José Sócrates.

Como vê o voto do CDS ao lado do PS, contra o Presidente da República (PR), no Estatuto dos Açores? É um sinal objectivo dessa convergência com o PS. O CDS não deve qualquer obediência ao PR, mas o CDS tem que ler o interesse nacional. E na nossa leitura do interesse nacional, num conflito institucional promovido pelo PS e pelo primeiro-ministro contra o PR, nós temos que estar do lado do PR. Temos que defender o PR e a estabilidade institucional do país de ataques que são desferidos pela arrogância de poder do PS.

"Não sei se voltarei a ter a ambição de liderar o CDS"

Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 27 de Dezembro de 2008, 1.º Caderno, página 8.