Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

“Portas é o maior factor de divisão do CDS”

Entre muitas críticas ao seu «chalenger», Ribeiro e Castro garante que não pode haver eleições directas sem, primeiro, um congresso. O contrário, diz, seria “uma ilegalidade”.

É dos livros que depois de um líder forte vem um líder fraco. Há dois anos, quando venceu o congresso, não se lembrou dessa regra?
Eu não julgo que seja um líder fraco.

Acha que três eleições sucessivas e ainda assim uma crise permanente no partido não é sinal de liderança fraca?
Não, acho é que é um sinal de obstinação dos sectores que nunca aceitaram nem tencionam aceitar os resultados dos congressos. É apenas sinal disso. É conhecido que houve contestação à direcção desde o princípio, aliás, sem respeito sequer, como agora acontece de novo, pelos actos eleitorais em que o partido participa. Isso tem sido um teste forte à determinação do presidente do CDS, que tem mantido a linha de rumo traçada, apesar de todas as adversidades, e conseguido resultados que eu considero importantes e auspiciosos para o futuro.

Acusa Portas de ter aberto uma crise, mas houve um congresso extraordinário e o grupo parlamentar está há dois meses sem líder… Como é que pode acusar Paulo Portas de abrir uma crise que já existia?
É evidente. Como é evidente que Paulo Portas tinha prometido uma declaração apaziguadora e desencadeou uma crise. O que ele fez foi um ataque a uma direcção legítima, a um presidente legítimo, que não está sequer a meio do seu mandato.

O que é evidente é que a crise já existia.
Existia, mercê de uma actividade persistente de uma oposição interna que se confirmou que era liderada por Paulo Portas. É como a história do rei vai nu: é algo que acontece, que existe, que toda a gente vê, mas que por um conjunto de razões ninguém diz. E às tantas é possível dizer, e toda a gente vê que era verdade. O único aspecto novo da declaração de Portas é que confirma aquilo que toda a gente dizia, portanto, é uma cortina que se retirou. Isso permite uma clarificação política e um debate às claras.
Relativamente a Paulo Portas, o interesse, o desejo do presidente do CDS – que, aliás, trabalhou com ele lealmente durante sete anos – é que permanecesse como um referencial de todo o partido e não como o maior factor de divisão do CDS.

Quando lembra que trabalhou com Portas lealmente – e frisa essa palavra – está a acusá-lo implicitamente de deslealdade. Acha que ele o traiu?
Paulo Portas, a mim, não me deve nada. Eu acho que ele devia aos militantes do partido, ao partido, ao país, à direita e ao centro-direita, e acho que o que ele fez é um erro.

Paulo Portas diz que colaborou na medida do que lhe foi pedido. O que é que lhe pediu e não recebeu dele?
Isso que ele diz não é verdade.

Mas onde é que ele lhe falhou? Ele participou na campanha das autárquicas, no referendo…
Olhe, logo aí foi um momento em que foi sensível a existência de desacertos. Eu tenho a sensação de que alguma coisa mudou no pensamento e na actuação de Paulo Portas justamente nas autárquicas. Pela recusa, pela dificuldade de Portas de acertar com a direcção as ocasiões em que participava nessa campanha. Da nossa parte houve toda a abertura. Tivemos uma conversa, eu perguntei-lhe onde é que ele desejava ir, para não haver mal-entendidos…

Diz que está aberto o próximo congresso do CDS. Propõe um congresso estatutário ou electivo?
Tanto me faz. É indispensável haver um congresso. Qual a natureza e figurino desse congresso, depende da evolução deste processo. A forma mais rápida de resolver a crise de liderança é indiscutivelmente a realização de um congresso electivo. Nós já tivemos, aliás, a experiência, no tempo de Portas, de um congresso que foi realizado em menos de um mês, em Janeiro de 2002. Recordo-me bem disso por que fui eu o autor da moção de estratégia levada a esse congresso e foi a execução dessa moção que levou o CDS ao Governo.

Mas que solução defende?
Ou um congresso electivo, ou directas legais. O congresso electivo é a resposta imediata que o partido pode dar. Mas nós não temos nada contra as directas, pelo contrário. Esse processo de revisão estatutária é um processo sério, que tem que ser participado, porque representa uma mudança importante e tem consequências duradouras na vida do partido. Um processo de revisão estatutária é como, num país, um processo de revisão constitucional. Também estou disponível para isso. Só não percebo porque é que Paulo Portas não aceita uma disputa em congresso.

Ele quer o mesmo que o senhor teve, ou seja, ser eleito em directas. Não tem esse direito?
Tem, mas então tem que haver o processo de revisão estatutária. Ele fala no precedente de 2005, mas o precedente de 2005 é ser eleito em congresso e ser confirmado em directas.

Seria absurdo outra vez haver um congresso electivo e uns meses depois umas directas que só servem para confirmar o líder.
Eu não estou a dizer isso. Paulo Portas é que está a invocar o precedente de 2005, que foi esse: congresso e depois directas.

Então se houver um congresso electivo, porque diz que é mais rápido, e já não se fazem directas?
Não. Por mim, não. Mas se Portas entender que deve ter o mesmo que eu tive, congresso e depois directas, não me oporei a isso. Eu sei as razões porque pedi directas em 2005: porque se ia iniciar um ciclo longo, íamos para eleições difíceis e era necessário um sinal de compromisso com os militantes.

Mas as directas não são para fazer uma vez porque dá jeito. Se se faz uma vez, passa a ser esse o método, não é porque é porque há um momento difícil. Ou há directas ou não há…
Com certeza. E a direcção sempre defendeu isso. Os sectores hoje chamados portistas é que se opuseram sempre à consagração das directas e o processo não pôde evoluir por causa disso.

O Conselho Nacional (CN) não tem autoridade para convocar eleições directas?
No meu entender não. Irão pronunciar-se os órgãos próprios do partido, mas os estatutos são claros.

Se o CN decidir marcar directas, a direcção recorre dessa decisão?
No meu entender é sempre necessário um congresso, seja para confirmar as alterações dos estatutos que tenham sido aprovadas em CN, seja um congresso electivo.

Portas propõe um calendário muito pragmático – a 14 de Abril o CDS teria novo líder. Porque é que não concorda com esse calendário?
Porque é ilegal, como Portas bem sabe. Mas podemos ter um calendário rápido, com um congresso electivo a 20 e 21 de Abril. Se Paulo Portas aceitar a disputa em congresso, é rápido.