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“Portas afasta o CDS da maioria presidencial”

Ribeiro e Castro contesta o pragmatismo de Portas e diz que o caminho proposto pelo seu adversário afasta o partido da maioria presidencial e “pode pôr em risco outra vez o CDS”

Tem dito que o seu trabalho é muito de alicerces, “o armazém antes da montra”. Isso é porque reconhece que a montra não está a resultar?
Não, não tem a ver com isso. A intervenção pública do partido não é a nossa maior deficiência.

Acha que marca a agenda?
Sim, não tenho dúvidas sobre isso. O que eu reconheço é que a oposição interna e este desgaste permanente dificultam a comunicação da agenda do CDS.

As suas dificuldades para federar o partido não podem ter a ver com falta de capacidade de liderança?
Não, não é isso que eu sinto. Essa é uma questão que outros têm que comentar, não eu. Não é disso que eu falo quando fala da montra e do armazém. O projecto que eu tenho é para um grande partido de centro-direita. Só que isso não se faz com uma varinha de condão, não se faz com um passe de mágica, nem com uma apresentação na televisão. Essa foi a grande ilusão do velho ciclo e nós não podemos inebriarmo-nos com a nossa própria propaganda e com o eco das nossas próprias palavras. A verdade – e eu trabalhei intensamente nesse ciclo – é que nesse ciclo o CDS esteve sempre a descer. Ao fim desses sete anos, apesar de todo o esforço, de todo brilho, o CDS terminou com 7,3%.

Se tem uma avaliação tão má do ciclo de Portas, porque é que em 2005 defendeu que ele devia ficar e continuar como líder?
Porque não achava que ele devesse interromper esse ciclo. Mas ele decidiu interromper.

Mas se já estava em plano inclinado não havia razão para lhe pedir que ficasse…
O facto é que ele confrontou o partido com essa situação e o partido iniciou um novo ciclo. Aliás, eu não julgo que sejam os derrotados por Sócrates que o vão vencer.

Como é que um fundador do CDS em 1974 se apresenta como o protagonista do novo ciclo?
Nunca fui líder do CDS. Sou protagonista de um novo ciclo. Tenho uma longa experiência política do partido, conheço o partido quando chegou a 16% e 17%, e sei como isso se faz.

Repetindo receitas de 1978 e 79?
Sim, sim, sim. Um partido estruturado, com raízes em todo o terreno.

Mas o tempo não volta para trás, esse CDS já não existe.
Mas eu estou a falar de um modelo de partido, que é compatível com todos os tempos e todas as épocas. Nós só teremos credibilidade, força e músculo desenvolvendo mais corpo que suporte as ideias do partido. O CDS sempre teve grandes desempenhos na linha da frente, o que lhe falta são raízes, estrutura, corpo. O que falta ao CDS é implantação. Quanto à linha política, uma linha política actual, adequada aos desafios de hoje, como estamos a fazer: a reforma do modelo do Estado, que é o grande desafio contemporâneo do país, o combate à Ota, a defesa de valores de sempre do CDS, como os valores da família, ou levantar a voz pelo mundo rural e interioridade, que são grandes causas. Os valores da segurança, aquilo a que os ingleses chamam «law and order». E um partido também aberto a novas causas e novos valores, como o ambiente ou a política de energia. São causas a que o meu CDS tem sido particularmente sensível. Mas o CDS não cumprirá as suas ambições se não for um partido mais implantado no terreno e mais entrelaçado com a sociedade portuguesa. Foi esse CDS, presente em todo o país, que foi capaz de ter 16% e estava a caminho dos 20%.

Até onde é que acha que o seu CDS pode crescer?
Dezasseis, 17%, 20%. Mas ao longo dos anos. Temos que resgatar o espaço do CDS, e não o vamos resgatar sendo iguais ao PSD. Vamos resgatar esse espaço tendo um modelo diferente. Para nós o pragmatismo é um instrumento, não é uma identidade, e se assinalarmos isso somos uma escolha diferente. E acho que o caminho apontado por Paulo Portas é redutor do CDS, quer pelo modelo de partido, quer pela circunstância política desse partido. É um rumo que nos afasta da maioria presidencial e que pode pôr em risco outra vez o CDS. É sabido que sectores que apoiam Portas se opuseram ao apoio a Cavaco Silva. Boa parte do crescimento do CDS é no eleitorado que votou em Cavaco Silva, portanto, se esse eleitorado olhar com desconfiança o CDS, isso reduz o nosso espaço de crescimento.

Quer condicionar as políticas do governo em 2009?
Mais que condicionar, acho indispensável estar em condições de voltar ao Governo.

Com o PS?
É preciso tirar a maioria ao PS e criar condições para uma alternativa. Voltaremos ao poder com mais votos e com mais consistência.

Exclui a hipótese de se coligar ao PS?
Entre nós e Sócrates não há nada.

Mas admite coligar-se ao PS se Sócrates não tiver maioria absoluta?
Não é nada que esteja na nossa equação.

Fala do CDS dos tempos áureos e esse CDS chegou a coligar-se com o PS.
Isso foi uma experiência fugaz que provou a sua impossibilidade. A famosa teoria da equidistância de Freitas do Amaral também provou a sua total inadequação. Somos um partido de direita e centro-direita e não deve haver sobre isso nenhum tipo de ambiguidade e só seremos um partido fiável e confiável se isso for absolutamente claro para todos os eleitores.

Acha que o CDS ainda está a pagar o preço de uma geometria variável que o situou mais à direita ou mais ao centro conforme cada momento?
Não. Historicamente o CDS está a pagar o preço das suas crises internas.

Tem dito que não quer fazer uma “oposição pica-pau”, mas uma “oposição tronco”. Acha que alguém percebe o que é que quer dizer uma “oposição tronco?
Acho que sim, eu já o expliquei várias vezes. Oposição tronco é uma oposição que constrói uma alternativa, que não é apenas bota-abaixo, que não responde apenas ao impulso imediato, mas é capaz de construir um tronco de alternativa. Isso é perceptível por todas as pessoas que percebem a transformação que o CDS deve fazer, que não deve ser o bibelô do regime, que não deve ser o partido que diz umas coisas engraçadas, mas em quem as pessoas não votam. O nosso desafio é ter um partido em que as pessoas votem.