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Popularidade de Cavaco nunca foi tão baixa

O Presidente da República está a pagar caro o preço das suas intervenções. E já é o chefe de Estado com o menor apoio popular desde que há eleições.

Luísa Meireles (www.expresso.pt)

A curva da popularidade do Presidente da República desce desde dezembro, mas acentua-se a partir de janeiro, atingindo agora o valor mais baixo de sempre: 39,2%, menos 20% que o seu pico máximo (em junho, depois das eleições). A desaprovação a Cavaco é confirmada por outras sondagens.

O caso é inédito entre os Presidentes da República, além de que Cavaco Silva já é, entre todos, o que menos apoio popular teve no decurso dos seus mandatos.

O facto pode ser inédito, mas não é excecional. A 'queda' recente de Cavaco Silva pode ser diretamente relacionada com as suas gafes (o caso pensões e suas sequelas), ações esclarecidas de forma confusa (a desistência da visita à escola António Arroio) e, agora, o prefácio ao seu último volume dos Roteiros. Mas a verdade também não pode ser dissociada do fenómeno mais geral da verdadeira 'vassourada' com que os portugueses estão a brindar os políticos.

Se os portugueses não enchem maciçamente as ruas como em Espanha ou não quebram montras nem lançam cocktail como na Grécia, o seu sentimento é aparentemente o mesmo: zangados. Nesta onda, ninguém escapa, é a purga geral.

Não será por acaso que, numa sondagem recente (Universidade Católica), 62% achavam o Governo "mau/muito mau" e 73% que a oposição não faria melhor. A desconfiança face aos políticos é total, considerados como os responsáveis por tudo o que se passa e que de mau lhes está a acontecer - e de certa maneira, o Presidente é visto como aquele que "deixou acontecer".

O problema, para Cavaco, é este. Pela primeira vez na sua longa trajetória, ele passou a ser encarado como um político igual aos outros. Logo ele, cuja carreira foi em parte construída como um "não político" e cuja imagem assentou em muito no seu perfil austero e até socialmente desfavorecido.

O seu desabafo sobre as pensões soou estranho. Rui Oliveira e Costa, responsável pela Eurosondagem, resumia, dizendo: "Cavaco Silva perdeu a aura".

É aqui que o 'caso das pensões' pode representar o ponto de não retorno. A aliança implícita com um eleitorado popular que o reconhecia como um dos seus pode ter sido quebrada. Significativamente, foi este o único caso a propósito do qual, de certa maneira, Cavaco Silva pede desculpa, ao explicar que o que tinha dito não era o que queria dizer, dando-se conta, aparentemente, da gravidade da situação gerada.

Curiosamente, para Oliveira e Costa, a questão do prefácio é de somenos - está muito confinada à elite política e se tem consequências é pelo seu "efeito multiplicador", diz. Não foi o prefácio que mudou a opinião das pessoas sobre o Presidente, mas pode ter-lhes tocado o facto de gente da sua área não ter vindo a terreiro defendê-lo, pelo menos numa primeira fase. E do Governo, onde prima um PSD 'pós-cavaquista', não se ouviu um pio.

Se a quebra de popularidade do Presidente será ou não irreversível, é o que se verá. Um antigo assessor dizia que os presidentes recuperam facilmente e que, às vezes, "basta um discurso em tom patriótico". Este fim de semana, aliás, Cavaco Silva partiu de novo numa deslocação pelo interior do país.

Para outros, todavia, tendo em vista o panorama geral, a queda vai continuar, mas é indiferente face ao seu papel. O seu espaço de manobra é o mesmo, na mesma medida em que se reduziu o dos outros (Governo e oposição) e, afinal de contas, não ficará alterado se tiver de sentar à mesma mesa uns e outros para resolver os problemas do país.

Ficha técnica

Estudo de opinião efetuado pela Eurosondagem, S.A. para o Expresso e SIC, de 8 a 13 de março de 2012. Entrevistas telefónicas realizadas por entrevistadores selecionados e supervisionados. O universo é a população com 18 anos ou mais, residente em Portugal Continental e habitando em lares com telefone da rede fixa. A amostra foi estratificada por região - norte (20,1%), A.M. do Porto (13,3%), centro (30,4%) A.M. de Lisboa (26,5%) e sul (9,7%), num total de 1021 entrevistas validadas. Foram efetuadas 1264 tentativas de entrevista e destas 243 (19,2%) não aceitaram colaborar no estudo de opinião. Foram validadas 1021 entrevistas, correspondendo a 80,8% das tentativas realizadas. A escolha do lar foi aleatória nas listas telefónicas e entrevistado, em cada agregado familiar, o elemento que fez anos há menos tempo.

Desta forma resultou, em termos de sexo, feminino - 52,2%, masculino - 47,8%; e no que concerne à faixa etária dos 18 aos 30 anos - 16,6%, dos 31 aos 59 - 50,5%, com 60 anos ou mais - 32,9%. O erro máximo da amostra é de 3,07%, para um grau de probabilidade de 95%. Um exemplar deste estudo de opinião está depositado na Entidade Reguladora para a Comunicação Social.