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Perón não descansa

A festa popular terminou em batalha campal. Sirenes da Polícia e de ambulâncias misturaram-se aos aplausos e às canções de exaltação a Perón no seu novo masoléu.

Se é verdade que para os argentinos, Carlos Gardel a cada dia canta melhor, não é menos verdade que Péron ainda arrasta multidões. O morto mais vivo da Argentina foi transladado do cemitério de La Chacarita para um imponente mausoléu a 60 quilómetros de distância, na localidade de San Vicente, província de Buenos Aires.

Quem não pôde ir ao velório que comoveu o país há 32 anos, teve uma nova hipótese de acompanhar os restos mortais do mítico ex-presidente. Até a pequena carreta militar que se utilizou em 1974 para carregar o corpo foi a mesma. O dia escolhido não foi casual. Em 17 de Outubro de 1945, nascia o Peronismo. Mas o dia histórico foi manchado por graves incidentes que deixaram 40 feridos e afugentaram milhares de pessoas da festa popular de despedida.

Antes da batalha campal em pleno mausoléu, milhares de pessoas acompanharam o corpo do três vezes presidente, numa espécie de segundo velório em procissão. A guarda presidencial a cavalo, batedores da Polícia, flores atiradas ao caixão, banda militar e a marcha peronista compuseram o cenário litúrgico enquanto o caixão era levado em carro militar aberto, atravessando avenidas, atravessando a própria história. Bandeiras argentinas empunhadas por idosos que viveram a presidência de Perón e por crianças, numa garantia de manutenção do mito. A emoção impulsionou fervorosos seguidores a procurar tocar o caixão envolvido por uma bandeira argentina.

Para os seguidores do principal movimento político do país, o Peronismo, o corpo embalsamado de Perón não repousava num lugar digno daquele que é considerado o argentino mais importante do século XX. Por isso, construíram um mausoléu na propriedade de 19 hectares onde Perón tinha uma casa desde 1946, na qual passava os fins-de-semana e as férias com a sua segunda esposa Eva Duarte, a Evita. Para a mitologia peronista, “El general” queria ser enterrado nesse local. Quando a família de Evita permitir, o seu corpo também será levado para o mesmo mausoléu, embora Evita tivesse dito em vida que gostaria de ser enterrada na Central Geral dos Trabalhadores (CGT).

A aposta dos históricos do partido Justicialista (ou Peronista) é transformar o mausoléu numa espécie de local de peregrinação. Mas o que seria o primeiro dia de devoção transformou-se em escândalo e violência.

Centenas de militantes das 62 organizações peronistas e membros de sindicatos da Central Geral dos Trabalhadores transformaram o local do mausoléu num campo de guerra. A feroz disputa pelo lugar mais próximo do palco principal causou dezenas de feridos. No dia anterior, os dirigentes sindicais já tinham discutido sobre quem teria o privilégio histórico de carregar o caixão até à cripta.

Os militantes não puseram em prática a famosa frase de Perón: “Para um peronista não existe nada melhor do que outro peronista”. Paus, pedras e até tiros afugentaram a multidão que durante todo o dia esperou pelo momento da despedida. A polícia respondeu com balas de borracha e gás lacrimogéneo. O presidente Néstor Kirchner, que lideraria a homenagem final, cancelou a sua presença.

Nem a chegada do corpo do general ao mausoléu, nem a interpretação do hino argentino, foram suficientes para parar os confrontos.

“Idiotas! Estúpidos! Como podem arruinar a homenagem a Perón?”, atacou o líder da CGT, Hugo Moyano, enquanto era apedrejado.

A polícia teve que cercar o caixão com escudos para garantir a protecção do corpo embalsamado.

Os incidentes mancharam o momento histórico que se viveu no país e provaram que a melhor desculpa para tirar proveito político de um mito é render-lhe homenagem.

Antes de partir para o destino final, o corpo de Perón fez uma paragem politicamente justificada na CGT, que tenta recuperar o protagonismo dos anos 70. O sindicalismo argentino sente-se dono e órfão Perón, sem o qual entrou em franco declínio e crise de identidade. Perón chegou ao Poder em 1945 graças ao apoio dos trabalhadores, aos quais tinha concedido uma série de benefícios como ministro do Trabalho. A base sindical e a política social, além de escolas, hospitais e bairros populares garantiram mais dois mandatos até sua morte em 1974.