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Atualidade / Arquivo

Perceber os olhares que riscaram África

Projecto recupera acervo da antiga Comissão de Cartografia.

A partir de agora os investigadores vão ter acesso a uma nova e importante base de dados para a história colonial portuguesa recente e a dos países africanos nascidos com a descolonização de 1974-75, com todas as consequências que daí podem advir: trata-se de uma base de dados que reúne todo o material da Comissão de Cartografia (CC), a qual constituía o centro das comissões geográficas das antigas colónias e que funcionou entre 1883 e 1936.

O projecto, do Instituto de Investigação Científica e Tropical (IICT), instituição herdeira da CC, tem um longo título: "Cartografia, Política e Territórios Coloniais. Comissão de Cartografia (1883-1936): um registo patrimonial para a compreensão dos problemas actuais" e significa a reconstituição virtual da produção e do funcionamento daquela comissão.

Através do projecto foi resgatado, catalogado e digitalizado o acervo da CC disperso por diversas unidades do IICT e de outras instituições: mapas, fotografias (às vezes, álbuns fotográficos inteiros) e cartas de documentação, cadernos de campo, instrumentos geodésicos, fichas, manuscritos. O número de imagens ascende a 88 mil.

Material disperso

Como diz a historiadora Maria Emília Madeira Santos, directora do projecto: "Uma instituição centenária como o IICT tem atrás de si uma história. Pensando nisso, percorri os seus centros e verifiquei que em todo o lado havia materiais dispersos. Poderia encontrar a folha de um mapa numa cartoteca e outra folha do mesmo mapa num lugar diferente". Com um vasto currículo nestes temas, a investigadora apercebeu-se, muito cedo, da necessidade de criar aquilo a que a chama "um instrumento operatório com várias aplicações", da história à política e à diplomacia.

Com o apoio financeiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia, o projecto arrancou em 2003, reuniu uma equipa de historiadores, geógrafos e engenheiros geográficos e foi recentemente apresentado no colóquio "Cartografar África em Templo Colonial (1876-c.1840)", decorrido na sede do IIC, neste mês. Durante o encontro foi, ainda, lançado o livro "O Domínio da Distância", coordenado por Maria Emília Madeira Santos e Manuel Lobato.

A base de dados vai poder ser consultada no instituto. A partir daí os investigadores podem ter um instrumento que lhes dê acesso a novas fontes e lhes permita abordagens diferentes – talvez, até, reescrever a história.
E, pelo menos, compreender melhor como os mapas guardaram a imagem do continente negro, assinalaram o forte militar junto à «embala» do soba (a sanzala maior onde o chefe residia, normalmente fortificada). As cartas onde, cada vez mais, foi sendo decalcado o traçado do caminho-de-ferro, das estradas e das cidades. A base de dados permite, por exemplo, o estudo dos recursos naturais – uma matéria politicamente escaldante no presente e no futuro, tal como no passado.