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Pais de crianças sequestradas defendem raptor

O director de um colégio de Manila quis protestar contra a pobreza em que vivem muitas crianças, para isso pensou que o melhor seria raptá-las. Os pais dos meninos compreendem e não vão apresentar queixa.  

Os pais dos 26 alunos sequestrados na passada quarta-feira já manifestaram o seu apoio a Armando Ducat, o homem que lhes manteve os filhos reféns durante mais de 10 horas.

Armando Ducat que contou com a ajuda de um cúmplice para concretizar as reivindicações, era o dono do infantário frequentado pelas crianças e que fica localizado num dos bairros mais pobres da capital filipina. Ducat avisou as crianças que iriam fazer uma visita de estudo e só quando entraram no autocarro é que o rapto foi consumado. As próximas 10 horas seriam passadas dentro da viatura, estacionado em frente à Câmara Municipal de Manila.

Para além dos 26 alunos foram ainda sequestrados quatro professores. As 30 pessoas só foram libertadas com a promessa de Ducat poder aparecer na televisão e rádio, para assim manifestar os seus pontos de vista sobre a pobreza e para incentivar a luta contra a corrupção generalizada, que é um problema endémico nas Filipinas. Para dar alguma credibilidade às ameaças os dois homens armaram-se com uma granada e uma metralhadora.

Robin dos Bosques asiático

Apesar dos motivos, aparentemente bondosos, Armando Ducat e o seu cúmplice, César Carbonell, foram acusados de rapto e posse ilegal de armas. Estando agora detidos em prisão preventiva, sem direito a fiança.
Contudo, a emoção estava lançada nas ruas de Manila e graças ao mediatismo de toda a situação o país comoveu-se com este Robin dos Bosques. Apesar de estar longe da Floresta de Nottingham, também Ducat estava a lutar pelos mais desfavorecidos.

A voz dos pais das crianças e de outros habitantes do bairro humilde onde ficava o infantário foram as primeiras a ser ouvidas.

Lara Moreno, mãe de uma das crianças, garantiu à imprensa filipina não ter “qualquer intenção de apresentar queixa” contra o director do colégio. A mulher sublinha ainda, que não concorda com este tipo de acções, mas que via Ducat como “um homem bom que tinha tentado ajudar os pobres”.

Governo com medo de imitações

Outra das mães, Rosita Osita, também não poupa nos elogios a Armando Ducat, que vê como alguém que esteve sempre presente “para ajudar, educar gratuitamente e oferecer roupa e comida”.

Até os professores compreendem os motivos do benfeitor do infantário. “Nós respeitamos as razões de Ducat e estamos preparados para fazer uma manifestação exigindo a sua libertação”, afirmou Elmer Calleja, um dos docentes sequestrados.

O homem que nasceu pobre e se tornou engenheiro civil não se pode queixar de falta de aliados nas camadas sociais mais humildes. Afinal aquelas que sempre tentou proteger.

“Nós não o queremos na prisão. Ele estava só a fazer o que achava ser o mais decente e justo para nós. Os pobres”, disse Mirabelle Moreno, uma das muitas pessoas que lutam pela libertação de Ducat.  Até porque como se comentava entre a população, “não se pode prender um homem por ter arranjado uma maneira de ser ouvido”. Especialmente num país onde a pobreza aflige 60 por cento da população, que possui muito pouco ou nenhum poder reivindicativo.

A Presidente da República das Filipinas, Gloria Arroyo, já exigiu mão pesada com os dois homens, para que não exista a possibilidade de haver quem queira imitar os crimes. E através do seu porta-voz confirmou que será dada prioridade especial a este caso.

Em simultâneo as agências de apoio humanitário já estão em campo, a estudar o que poderá ser feito para ajudar os estudantes das comunidades pobres.

Um velho conhecido

Armando Ducat nasceu e cresceu numa das zonas mais pobres de Manila. Já adulto tornou-se engenheiro civil e desenvolveu amizades nos altos círculos do poder.

Movido pelo altruísmo que sempre lhe orientou a vida, Ducat regressa à sua região natal. O objectivo era ajudar a comunidade a fazer frente à pobreza, e para isso desenvolve uma série de projectos cívicos e sociais. O infantário de onde raptou as crianças foi um desses projectos. Duncat tornou-se um salvador para muitos dos seus conterrâneos, chegando a ser chamado de “papᔠpor muitos dos alunos do infantário que ajudou a criar.

Alguns dos seus admiradores mais inflamados já garantiram que votariam nele, caso se candidatasse às próximas eleições. “Sim votava nele. Ele fez tanto por nós”, afirma Roland Omoro, um habitante local.  

Apesar desta aura de herói Armando Duncat já tem um currículo invejável, no que diz respeito a protestos mediáticos.

Nos anos 80 manteve dois padres reféns, na altura a razão apontada foi “confusão com dinheiro”. Já em 1995 subiu a um monumento público e aí levou a cabo uma greve de fome, mais uma vez o assunto eram queixas de âmbito social.

Hoje, os seus maiores detractores insinuam que o sequestro do autocarro possa ter sido apenas mais uma manobra para ganhar mediatismo público. Desta vez com fins políticos.