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Pagar para ver

No Mundo árabe, a transmissão dos 64 jogos do Mundial lançou a região numa crise e foi convertida em assunto de Estado.

No Cairo, Tunes, Riade, Rabat ou Amã qualquer sítio serve para ver os jogos do Mundial da Alemanha: cafés, bares, restaurantes, praças públicas e até igrejas enchem-se de adeptos que não querem perder nenhum lance do torneio. De fora fica o conforto do lar, pelo menos para a maioria dos árabes. Os direitos de transmissão dos jogos para o Norte de África e Médio Oriente foram comprados pelo canal satélite ART (Arab Radio and Television Network), propriedade do multimilionário saudita Saleh Kamel, que exigiu às estações públicas da região valores incomportáveis pela retransmissão dos encontros. Para milhões de cidadãos árabes, a alternativa passava pela subscrição anual do serviço ART, que varia de país para país, mas está normalmente fora do alcance da bolsa comum. Em Marrocos, por exemplo, é de 130 euros, mas na Jordânia ultrapassa os 315.

Perante a desilusão dos adeptos, os governantes cuidaram da questão como se de um assunto de Estado se tratasse. O Rei de Marrocos, Mohamed VI, interveio pessoalmente para negociar a transmissão, sem qualquer contrapartida, do jogo e da cerimónia de abertura, das meias-finais e da final. O presidente da Algéria, Abdelaziz Bouteflika, negociou a aquisição de 300 mil cartões “Especial Campeonato do Mundo” ao preço de 60 euros cada (cerca de 2/3 do salário médio no país), colocados à disposição da população por apenas 20 euros, com a diferença a ser subvencionada pelo Estado. O rei da Jordânia distribuiu receptores gratuitos pelos militares e mandou instalar ecrãs públicos para que os de menos recursos pudessem assistir aos jogos. Já o monarca saudita preferiu uma abordagem menos diplomática: ordenou a Kamel a transmissão em sinal aberto dos jogos da selecção nacional.

A ausência de um acordo económico razoável provocou a ira do líder líbio, Muamar Kadhafi, que rotulou de “racistas” os organizadores do torneio, por permitirem que este se tenha transformado num “mercado de escravos” corrupto, que mantém o futebol nas mãos dos ricos e poderosos. No Egipto, o director do canal estatal de Desporto pediu até a intervenção das Nações Unidas junto da FIFA, defendendo que a visualização dos jogos é um “direito humano”.

A crise foi aproveitada também para fins políticos e religiosos. Alguns deputados colocaram ecrãs gigantes nas cidades do seu círculo eleitoral e várias igrejas coptas (cristãs do Egipto) equiparam-se para que os fiéis pudessem seguir os jogos, incluindo os egípcios muçulmanos, um facto sem precedentes entre duas comunidades muitas vezes desavindas. Superada a angústia inicial, o Mundial segue agora tranquilamente nas ruas árabes, oferecendo um escape numa região nem sempre marcada por boas notícias.