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Os parentes afastados do Amazonas

Há em toda a bacia amazónica uma infinidade de povoações homónimas de aldeias, vilas e cidades portuguesas, quatro das quais (Santarém, Óbidos, Alenquer e Alter do Chão) o EXPRESSO visitou recentemente

 

Se ainda hoje existem tantas terras de toponímia directamente portuguesa, sobretudo no Baixo Amazonas, ao Marquês de Pombal se deve e à sua guerra às ordens religiosas, em geral, e aos jesuítas em particular. Ele não só encarregou o próprio irmão de afastar os religiosos da gestão das comunidades, que tinham fundado e evangelizado, como mandou varrer do frontispício das povoações o nome do padroeiro atribuído pelos primeiros missionários.

Subindo o Amazonas a partir do mar, mal o grande rio junta ao corpo a teia de braços, que antes se espraiava na foz e abraçava a ilha de Marajó, logo se encontram as primeiras sentinelas "portuguesas" do grande rio: Carrazedo, Vilarinho do Monte e Porto de Moz, na margem direita, e Almeirim na margem esquerda.

Almeirim tem a particularidade de vigiar o primeiro ponto onde o rio estreita, ou começa de facto a ser um rio e não vários, até aí feitos lagos e mar.

Daí para cima, é quase sempre assim: de um lado uma terra de nome português e, no lado oposto, outra. Ou outras. A saber: Alenquer, Óbidos e Monte Alegre, a Norte (margem esquerda) -- e Santarém, Alter do Chão e Faro, a Sul.

Algumas destas povoações fazem gala do seu parentesco lusitano, sendo mais óbvio o caso de Óbidos, que até em documentos oficiais reivindica a condição de «irmã» da belíssima cidade amuralhada do Oeste, na Estremadura portuguesa.

Fora Óbidos (e, mesmo assim, só com alguma boa vontade) não se vê mais irmã legítima nenhuma de outras terras portuguesas, nesta região do Amazonas.

Comungam o mesmo nome e só isso. Se são nossos parentes, eles terão de ser parentes muito afastados.

A ordem de Pombal para varrer as ordens religiosas, particularmente os jesuítas, foi cumprida pelo seu irmão Francisco Xavier, para o efeito arvorado em capitão-governador para o Norte do Brasil.

Francisco Xavier de Mendonça Furtado chegou ao Pará em 1750. E a 2 de Outubro de 1754 já ele saia de Belém, à frente de uma expedição de 23 canoas grandes e 18 pequenas, mil homens no total, tendo como destino último o Alto Amazonas, para ali negociar as fronteiras com os representantes da coroa espanhola.

Pelo caminho, na ida e no regresso, foi vergando jesuítas, franciscanos e capuchinhos, que de resto estavam a protagonizar conflitos sérios com os militares nalguns postos de evangelização. E entre 1755 e 1758, Furtado mudou os nomes a 40 sítios e lugares. A revolução toponímica alastrou a seguir pela bacia amazónica, em cujas margens dos rios se fazia a colonização.

Ainda hoje, além dos já referidos, se podem encontrar por lá nomes de cidades como Viseu, Bragança, Ourém, Colares, Odivelas, Salvaterra, Condeixa, Chaves (na ilha de Marajó), Oeiras, Melgaço, Moura, Carvoeiro e Barcelos, estes últimos já bem lá para cima no Rio Negro e perto da linha do Equador. Mesmo nas margens do rio Tapajós, cá para baixo no mapa do Brasil, também se podem ler nomes como Boim, Pinhel, Livramento, Aveiro, Boavista, Nazaré e Pombal.