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Os padrinhos das palavras

Desde profissionais da língua, como lexicógrafos, a especialistas das mais diversas áreas como militares, médicos, geógrafos ou engenheiros, a criação de um dicionário de língua portuguesa envolve a colaboração de uma vasta equipa. Fomos espreitar as experiências recentes levadas a cabo pela Academia das Ciências e pela Porto Editora

Imagine todas as palavras da língua portuguesa, ou quase. Imagine o trabalho de as inventariar, de classificá-las e conferir-lhes definições. Um trabalho suficientemente longo e complexo para que sejam poucos os que se aventuram na criação de um novo dicionário de raiz e que Portugal tenha um número reduzido destes objectos essenciais para os utilizadores da língua, especialmente se comparado com a situação existente na vizinha Espanha.

Quando, em 1988, Malaca Casteleiro tomou em mãos a tarefa de criar o dicionário de língua portuguesa da Academia de Ciências de Lisboa, o projecto quase parecia marcado pelo estigma da «missão impossível», dado o longo historial de tentativas falhadas que o antecederam. A criação do dicionário foi mesmo um dos primeiros projectos da academia, mas tanto a primeira tentativa, que remonta ao ano de 1793, como a mais recente, de 1966, não haviam passado das entradas referentes à letra «a», e foi já só no ano de 2001, que Malaca Casteleiro acabou finalmente por concretizar a edição do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (que tanta polémica e críticas suscitou).

As más experiências anteriores traziam uma carga tão forte que Malaca Casteleiro preferiu mesmo começar de uma forma completamente diferente: «Quisemos ‘exorcizar’ essa memória, de modo que decidimos não começar a trabalhar pela letra ‘a’, mas pelo vocabulário do português fundamental de 2217 palavras que tinha saído em 1984. Começámos por redigir verbetes para cada uma das palavras desse vocabulário e depois fomos alargando a nomenclatura, a lista de palavras».

A elaboração de um dicionário passa pela aferição de um enorme manancial de fontes documentais, que vão desde anteriores dicionários, obras da literatura portuguesa ou artigos de jornais e revistas. E a partir daí registar as mudanças que ocorreram na língua portuguesa, as palavras novas que surgiram ou das que passaram a ser usadas com novas acepções.

A análise da imprensa portuguesa, efectuada ao longo de seis anos, permitiu, por exemplo, inventariar 4 mil neologismos, predominantemente estrangeirismos de origem anglo-saxónica, mil dos quais acabaram por ser introduzidos no dicionário. A evolução da língua está intimamente ligada à evolução da sociedade e das novas realidades que vão surgindo, nomeadamente a nível tecnológico e científico.

No total o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea levou 12 anos a concretizar, tendo contado com uma equipa permanente de cerca de 10 pessoas e colaborações periódicas de outras sessenta. Para tal foi vital o apoio financeiro concedido pela Fundação Gulbenkian e do Ministério da Educação que disponibilizou diversos professores de português.

«É uma tarefa absorvente mas muito aliciante. No último ano, a conclusão do dicionário, que se arrastava, obrigou a um trabalho intenso, a trabalhar em feriados, fins-de-semana e a fazer algumas directas», refere Malaca Casteleiro, considerando que os diversos constrangimentos, como a dificuldade em ter mantido uma equipa permanente, terão contribuído para algumas incoerências e erros que tem estado a corrigir na actualização da obra que espera ter concluída daqui a cerca de um ano.

 

A experiência da Porto Editora

Ao contrário do método de trabalho utilizado para o dicionário da Academia de Ciências de Lisboa, é frequente os dicionários sejam criados a partir da estrutura de linguistas das editoras, que trabalham depois em colaboração com especialistas de diversas áreas. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa, por exemplo, foi editado em 2004 a partir do trabalho coordenado por Graciete Teixeira e de uma equipa de oito lexicógrafos da Porto Editora. Foi feito num período bastante mais curto, em cerca de dois anos, mas resulta de um trabalho efectuado de uma forma mais contínua. Aliás, apesar de não estar prevista nenhuma nova edição, a equipa tem continuado a efectuar actualizações para a base de dados da editora.

Tal como Malaca Casteleiro, também Graciete Teixeira referiu ter precisado de efectuar acções de formação em lexicografia para a sua equipa face à ausência de licenciaturas especificas para esta área no nosso país. São eles que, em colaboração com um vasto leque de especialistas (sejam militares, médicos, engenheiros ou arquitectos), chegam à definição de novas palavras ou de novas acepções para entradas já existentes. «Todas as pessoas que trabalham nesta área têm um pouco o vício de andar sempre a reparar nas palavras. É normal, como acontece em todas as profissões, imagino que um dentista também ande sempre a reparar nos dentes das pessoas».

 

A colaboração de especialistas de diversas áreas

A Porto Editora dispõe de diversas ferramentas próprias, como software utilizado para analisar fontes que vão desde as diversas obras publicadas pela editora, a bases de dados públicas como a da linguateca ou até cartas de leitores sobre palavras que não encontraram no dicionário.

A organização do trabalho foi estabelecida por áreas temáticas e em colaboração com inúmeros especialistas das mais diferentes áreas.

Henrique Lecour, médico e professor catedrático especialista em patologias infecciosas como a sida, foi um desses inúmeros colaboradores. É com algum prazer e orgulho que recorda de na véspera ter ouvido um jornalista televisivo falar na baquioterapia (um método de tratamento contra o cancro da próstata) uma palavra cuja entrada no léxico ‘corrente’ português «apadrinhou», uma vez que não figurava anteriormente em nenhum dicionário. Entre novos vocábulos ou a correcção científica de alguns dos já inscritos foram mais de mil os que contaram com a sua intervenção.

De início o trabalhou apresentou-se como «uma tarefa ciclópica, cada vez se iam encontrando mais e mais e mais vocábulos» novos ou que precisavam de correcção. No final ficou o prazer de ter contribuído para o enriquecimento da língua portuguesa. Tanto o médico Henrique Lecour, como o engenheiro químico Fernando Basto ou a geógrafa Maria Aurora Pereira (todos eles colaboradores do dicionário da Porto Editora) falaram do prazer com que cumpriram a «missão» de contribuírem contra o «hermetismo» e de terem tornado mais acessível o conhecimento nas suas áreas de especialidade. Eles são a ponta da vasta rede de profissionais que trabalham em estreita colaboração para a criação de uma obra tão complexa e abrangente como um dicionário de língua portuguesa.