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O tesouro da criadora de Harry Potter

A criadora de Harry Potter, J. K. Rowling, com o sexto filme da série em estreia esta semana, é uma das mulheres mais ricas do mundo e raramente dá entrevistas. Quando o faz, evita abordar o seu passado em Portugal, mesmo se teve no Porto o primeiro e mais querido dos seus tesouros. (Veja o trailer do novo filme no final do texto).

Já não saem labaredas do olhar de Jorge. Perdeu o encanto. Deixou-o esmorecer nas vielas de uma vida feita de equívocos. Há um manto triste a cobrir-lhe o rosto. Há uma cautela defensiva a tolher-lhe a segurança da voz. Há um oceano a separar a pose insegura deste homem de 41 anos, da atitude a roçar a arrogância do jovem casado aos 24 anos com uma inglesa chamada Joanne Rowling, então com 27 anos. A ela faltava-lhe ainda o intermédio Kathleen destinado a dar suporte à mais conhecida das assinaturas de um escritor vivo. A ele faltava-lhe tempo. Tinha pressa de viver e isso terá prejudicado o tempo vivido naqueles meses após o casamento celebrado a 16 de Outubro de 1992 na Rua de Santa Catarina, na primeira Conservatória do Registo Civil do Porto.

Deixou a vida de ambos transformar-se num vulcão em erupção permanente. De tanto se amarem. De tanto se odiarem. De tanto se quererem. De tanto se perderem um do outro. De tanto se destruírem. Jorge Alberto Rodrigues Arantes partilhou com Joanne o nome de família. Também ela, a partir das 11 horas e 20 minutos daquela sexta-feira do ano de 1992 passou a ser Arantes por vontade expressa, registada na certidão de casamento. Esse fio simbólico de ligação desapareceu depois de terem transformado aquela união num monte de estilhaços.

J.K. Rowling, autora da saga Harry Potter, é hoje uma das mulheres mais ricas do mundo. Trocou as voltas à vida, construiu um império, casou-se de novo em 2001 com o anestesista Neil Murray, com quem teve já dois filhos. A celebridade trouxe-lhe distância. É raro dar uma entrevista e nas poucas vezes que se referiu ao seu passado em Portugal, fê-lo sempre de uma forma breve e pobre em detalhes. Nunca nomeia Jorge. Quando muito menciona ter sido casada com um português e assume a circunstância de em conjunto terem tido uma filha. Jessica Arantes tem hoje 16 anos, um padrasto com quem convive no dia a dia, e um pai cioso de se manter presente no imaginário daquela miúda nascida a 27 de Julho de 1993 na Maternidade Júlio Dinis.

Casa onde morou depois de ter casado com Jorge Arantes. Foi lá que Jessica, a filha de ambos, viveu os primeiros meses de vida e foi de lá que Rowling foi expulsa numa madrugada de Novembro de 1993

Casa onde morou depois de ter casado com Jorge Arantes. Foi lá que Jessica, a filha de ambos, viveu os primeiros meses de vida e foi de lá que Rowling foi expulsa numa madrugada de Novembro de 1993

Rui Duarte Silva

Jorge garante manter contacto regular com Jessica. Encontrámo-lo ao princípio da tarde do primeiro dia deste mês de Julho no mais óbvio e em simultâneo mais inesperado dos locais. Muito falado e requisitado, sobretudo por jornais ingleses, após o despoletar do sucesso da ex-mulher, Jorge desaparecera há muito de circulação. Ou julgava-se que desaparecera. Ou pelo menos transformara-se num ser invisível para os frequentadores da grande cidade.

Começámos há longos meses a tentar encontrar um sinal, um contacto, um poiso capaz de nos conduzir até àquele rapaz de olhar desafiador, ar vagamente intelectual, óculos de lentes redondas sem aros, barbicha, e uma forte propensão para as camisas vermelhas com bolas brancas, como a que envergava no dia de casamento com Joanne. Esta era a imagem cristalizada de Jorge. Esta era a imagem de um passado difícil de recuperar. Perguntávamos e ninguém conseguia fornecer a mais pequena pista capaz de nos levar ao seu encontro. Perguntávamos e éramos confrontados com os mais imaginativos cenários.

Jorge tornou-se uma personagem à volta da qual começaram a ser construídos alguns mitos urbanos. Assim, entre outras teorias, teria desaparecido por ter assinado um acordo com os advogados de J.K. Rowling, generosamente pago. A contrapartida seria abster-se de voltar a falar daquela relação. Como a imaginação não tem amarras, com o dinheiro recebido Jorge teria optado por uma vida tranquila numa ilha das Caraíbas ou, em alternativa, estaria a viver em Paris.

Os segredos por trás das portas

Naquela abrasadora primeira quinta-feira deste mês de Julho colocámos de lado as hipóteses romanceadas e dirigimo-nos a uma casa situada no coração de uma das zonas que marcam a identidade do Porto. Na véspera fora-nos fornecida a morada da mãe de Jorge. Sabíamos, pelos cálculos feitos, que Marília Rodrigues seria já uma mulher de idade avançada. Poderia já não estar entre nós. Situada no final da Rua Duque de Saldanha, a casa está muito próxima do enorme largo junto ao Cemitério do Prado do Repouso e a um passo do miradouro onde apetece pousar as vistas para o olhar se perder no lento caminhar do Douro até à foz.

Quase em frente há uma florista, como sempre acontece nas proximidades de um cemitério. Lá dentro, duas mulheres ainda novas deixam escorrer o silêncio da tarde e usufruem da tranquilidade contida nas horas mortas. Arranjam flores. Os movimentos são lentos. O calor pesa. Pesa-nos a consciência interromper aquela indolência. Ainda assim perguntámos por Marília. A resposta vem pronta. Uma das mulheres é sobrinha por afinidade da "mãe do Joca". Garante que aquela mãe de vários filhos, apesar dos seus "quase oitenta anos" está "ainda muito fina. É uma senhora. Movimenta-se por todo o lado e está ainda muito bem para a idade".

As portas escondem segredos. Ao pegar no batente de ferro para o primeiro toque, ignorávamos se estaria alguém em casa. As persianas corridas sugeriam a ausência. Insistimos. Voltámos a insistir. Para lá de uma porta há sempre um segredo. Se a porta se abre, desmoronam-se dúvidas e escancara-se o espanto. Desfazem-se os segredos.

A porta abriu-se. Caímos do outro lado do espelho. O inesperado acontece. Quem segura a porta é um homem magro, muito magro, baixo, de rosto marcado, cabelo preto, liso, a cair sobre os ombros. Estava a almoçar. Percebe-se que acabara de mastigar algo. O olhar é interrogativo. A pose é apreensiva. Dizemos quem somos, ao que vamos e, só para confirmar a certeza adquirida ao primeiro contacto, perguntámos se é Jorge Arantes, o ex-marido de J.K. Rowling.

Desculpas e evasivas

A discoteca Swing, nas proximidades da rotunda da Boavista, era um dos locais da noite portuense com frequência escolhido por Joanne para se divertir com as amigas professoras do Encounter English

A discoteca Swing, nas proximidades da rotunda da Boavista, era um dos locais da noite portuense com frequência escolhido por Joanne para se divertir com as amigas professoras do Encounter English

Rui Duarte Silva

Aquele Jorge que nos confirma ser o mesmo Arantes a quem tanto procuráramos, não parece ser alguém a quem a vida tenha distribuído muitos sorrisos. Percebe-se-lhe alguma agitação, pelo imprevisto criado. Escalpeliza todas as palavras que lhe são dirigidas. Embora revele desde logo não ver "interesse nenhum em voltar a falar", até por não pretender defender-se de nada, recebe mal a ideia de que terá deixado de frequentar os circuitos habituais.

Confirma, no entanto, a ausência no estrangeiro. Esteve em Paris, mas assegura ter regressado já há quatro anos. Continua a frequentar a casa da mãe, a mesma para onde foi viver após o casamento com Joanne. A mesma cujas paredes testemunharam os dias e as noites de tempestade vividas pelo casal.

Com a desculpa de estar a almoçar e ter vários compromissos para o resto do dia, Jorge propõe o adiamento de uma eventual conversa para o dia seguinte. Vai querer pensar e aí inclui informar-se melhor sobre o jornal e o jornalista. Fornece um número de telemóvel. Face a experiências anteriores, admitimos ter sido aquele o primeiro e último contacto com Arantes. É vulgar, nestas circunstâncias, o número ser falso ou ninguém atender as chamadas. Enganámo-nos. Tal como combinado, Jorge atendeu, mesmo se apenas para reafirmar o já dito na véspera. "Não vejo qualquer conveniência em voltar a falar deste assunto, nem acho que possa ser útil em qualquer informação. Creio que não teria nada a acrescentar", diz. Ainda assim, sem ponta de agressividade, conversa um pouco mais. Fala sobretudo da filha, para dizer que não é um pai ausente. "Mantenho contacto com ela e ainda o ano passado estivemos juntos." E fim de conversa, até porque, acrescenta, "já estou a dar uma informação importante".

Mágoas antigas

O Majestic está diferente, mas se as paredes falassem, talvez se recordassem de uma inglesa que passava horas a escrever nas suas mesas

O Majestic está diferente, mas se as paredes falassem, talvez se recordassem de uma inglesa que passava horas a escrever nas suas mesas

Sérgio Granadeiro

As mágoas são antigas e serão partilhadas por este homem e aquela mulher que em tempos constituíram um casal. Nesta história não há inocentes, mesmo se ninguém procura culpados. Todos querem pacificar um passado que para Joanne começa em Novembro de 1991. Oriunda de Manchester, chega ao Porto para iniciar a actividade de professora de inglês na escola de línguas Encounter English. Respondera a um anúncio colocado no jornal "Guardian" por Steve Cassidy, ainda hoje proprietário do instituto com sede no Porto e delegação na Senhora da Hora, em Matosinhos.

A opção pelo Porto era, de alguma forma, uma maneira de Joanne atenuar os dramas familiares que lhe afectavam a vida pessoal. A mãe, Anne Volant, morrera a 30 de Dezembro de 1990, com 45 anos, vítima de esclerose múltipla. A somar a essa dor vem depois o conhecimento de que o pai, John Rowling, teria iniciado uma outra relação sentimental ainda antes da morte da mulher. O pai de Joanne desmentiu esta acusação, mas era já uma Joanne destroçada que tinha de conviver com tudo quanto a rodeava. Na sua página oficial, escrita em várias línguas sem contemplar o português, J.K. Rowling recorda este período para dizer que nove meses depois da morte da mãe, "num intento desesperado para fugir, fui para Portugal, onde tinha conseguido um lugar de professora de inglês".

Harry Potter chega ao Porto

Na bagagem trazia já esboços da narrativa que iria dar a volta à cabeça de milhões de crianças, adolescentes e adultos em todo o mundo. Iniciara-a durante uma viagem de comboio de Manchester para Londres efectuada em 1990. No regresso de uma visita ao seu namorado de então ocorre-lhe a ideia de Harry Potter. Sem uma caneta para tomar notas, e sem vontade de pedir uma emprestada, aproveita as quatro horas de viagem para se concentrar na história que ali lhe surge e no modo como poderá desenvolvê-la.

Ao chegar ao Porto, Harry é já uma companhia do quotidiano. Joanne aproveita todos os momentos para dar forma ao que não passa ainda de um esboço. Até os horários da escola de línguas lhe facilitam a tarefa. Com aulas apenas entre o final da tarde e o princípio da noite, fica com muito tempo para trabalhar naquele que começa a ser o projecto de uma vida.

Os jardins do Palácio de Cristal são tidos como outro dos locais escolhidos por Rowling para delinear as aventuras de Harry Potter

Os jardins do Palácio de Cristal são tidos como outro dos locais escolhidos por Rowling para delinear as aventuras de Harry Potter

Rui Ochôa

Inicialmente instalada num apartamento reservado aos novos professores da Encounter English, Joanne estabelece de imediato uma grande cumplicidade com as suas duas novas companheiras de casa, a irlandesa Aine Kiely e a inglesa Jill Prewett. Nessa altura está longe de imaginar como ambas iriam ser importantes num momento muito concreto da sua vida.

Para já divertem-se. Fogosas e sem compromissos, frequentam os bares e as discotecas da noite portuense. A antiga discoteca Swing, próxima da Rotunda da Boavista, era um dos poisos dançantes. Se queriam mudar de geografia e de ambiente rumavam ao também já desaparecido bar Meia Cave, na Ribeira. À época, a beira-rio era um dos grandes focos de atracção e onde se concentravam alguns dos mais requisitados espaços de diversão nocturna.

O inevitável acontece. Uma noite de Março de 1991, Joanne entra no Meia Cave. A luz ténue da sala não permite distinguir as formas e as cores na perfeição. A presença de cidadãos britânicos na Ribeira é comum e, por isso, a entrada de Joanne e das amigas terá passado despercebida a toda a gente. O bem e o mal do mundo radicam demasiadas vezes nas excepções. Numa sala de indiferentes, um jovem sente entrar numa outra dimensão. Fixa Joanne. Não encontra forças, nem vontade, para se desviar dos olhos azuis daquela inglesa de cabelo castanho-escuro.

Os refúgios de Joanne

Instituto de línguas para onde foi trabalhar Joanne Rowling depois de ter respondido a um anúncio do jornal “Guardian” . Só com a publicação do primeiro livro, e aconselhada pelo editor, passou a assinar J.K., para não se perceber que era uma mulher. Segundo as convenções estabelecidas, isso prejudicava as vendas junto dos rapazes

Instituto de línguas para onde foi trabalhar Joanne Rowling depois de ter respondido a um anúncio do jornal “Guardian” . Só com a publicação do primeiro livro, e aconselhada pelo editor, passou a assinar J.K., para não se perceber que era uma mulher. Segundo as convenções estabelecidas, isso prejudicava as vendas junto dos rapazes

Rui Duarte Silva

Não vale a pena procurar explicações racionais para o amor. Isso seria destruir a paixão que vai brotar das entranhas do português e da inglesa. Na noite constroem-se personagens, fabricam-se palavras, encenam-se qualidades destinadas a ser consumidas naqueles instantes únicos. Naquelas noites e naqueles dias, Jorge e Joanne estão disponíveis para amar. Amam-se perdidamente. Amam-se violentamente. Amam-se até não poderem mais suportar o que de amor se transforma em ódio.

Passam a viver juntos na casa da mãe de Jorge, entretanto incorporado no serviço militar. Joanne engravida e tem um aborto espontâneo. O incidente ateia a paixão do namorado, que a pede em casamento no dia 28 de Agosto de 1992. Menos de dois meses depois estavam a celebrar a união. É uma cerimónia discreta, à qual assistem poucas pessoas. Entre elas estão a mãe de Jorge, além de Dianne, a irmã dois anos mais nova de Joanne, e o seu namorado, o escocês Roger Moore, que serve de testemunha. A noiva veste de preto, tem o cabelo apanhado, usa uns pingentes em pérola, um colar de pérolas e segura um ramo de cravos vermelhos. Não obstante o sorriso tímido e pouco expressivo de Joanne fixado em algumas fotos, aquele terá sido um dia feliz. As paixões têm momentos. Aquele terá sido o momento.

Agora casada, Joanne continua a dar aulas no Encounter English e a dedicar-se àquela que viria a ser uma das suas mais intensas e duradouras relações em toda a sua vida adulta. Harry Potter toma-lhe os dias e ocupa-lhe os sonhos. J.K. Rowling reconhece ter escrito em Portugal o seu capítulo favorito de "A Pedra Filosofal", o primeiro volume da série. Trata-se de "O espelho dos invisíveis".

Com uma presença tão obsessiva na vida de Joanne, é natural que Jorge tenha acompanhado pelo menos parte deste processo criativo. Joanne procurava, no entanto, ter os seus próprios refúgios para a escrita, quase sempre em cafés da cidade. Fala-se do Magestic, na Rua de Santa Catarina, há referências à sua presença no Café Estrela d'Ouro, na Rua da Fábrica, ou mesmo nos jardins do Palácio de Cristal. Ninguém nestes locais guarda memória da anónima Joanne, então apenas mais uma cliente de pouco consumo e muitas horas passadas à mesa. A própria J.K. se agora regressasse ao Porto, como em tempos disse numa entrevista que admitiria um dia fazer, dificilmente reconheceria qualquer um destes espaços.

Quase uma sem-abrigo na Escócia

Enquanto imagina sucessivas novas personalidades, Joanne debate-se no dia-a-dia com um já incontrolável conflito entre a sua própria personalidade e a de Jorge. Sucedem-se as discussões nos mais diversos locais. Poderia ser à porta da confeitaria, junto à escola de línguas ou madrugada dentro, na casa que ambos partilhavam.

A ruptura absoluta acontece a de 17 de Novembro de 1993. Às cinco da manhã, e após mais uma violenta discussão, ao que se diz com agressões à mistura, Joanne é expulsa de casa. É de madrugada e ali, naquele espaço desolado junto a um cemitério, vê-se na rua apenas com a roupa que enverga. Sente-se mais estrangeira do que nunca e vive já a insuportável dor da ausência da filha. Valem-lhe então as amigas Aine Kiely e Jill Prewett, bem como a então directora da Encounter English, Maria Inês, que vai ajudar a recuperar Jessica. Jorge negou em diferentes momentos ter agredido Joanne naquela noite, embora admita tê-la empurrado com firmeza.

Confeitaria Labareda, perto do instituto, cujos alunos, para brincarem com a pronúncia do nome da professora, chamavam-lhe “Rolling Stone”. Nos cafés, Joanne escrevia e também desenhava as personagens

Confeitaria Labareda, perto do instituto, cujos alunos, para brincarem com a pronúncia do nome da professora, chamavam-lhe “Rolling Stone”. Nos cafés, Joanne escrevia e também desenhava as personagens

Rui Duarte Silva

Duas semanas após o desmoronar do casamento, Joanne deixava o Porto rumo a Edimburgo, onde residia a irmã. Levava escritos os três primeiros capítulos de Harry Potter e notas para o resto do livro. Na capital da Escócia leva de início uma vida muito próxima de uma sem-abrigo. Não tem dinheiro e deambula com uma bebé por entre alguns cafés, à espera que adormeça. Enquanto Jessica dorme, Joanne escreve. Escreve intensamente.

Naquela altura não há grande magia na sua vida pessoal. Esse é um tema que lhe é caro e num discurso pronunciado em Harvard em Junho do ano passado deixa em evidência um posicionamento à esquerda e de solidariedade para com os oprimidos e submetidos a regimes ditatoriais com os quais conviveu quando trabalhou para a Amnistia Internacional. Rowling dizia então que "não precisamos de magia para transformar o mundo. Todos nós possuímos em nós próprios todo o poder de que necessitamos: temos o poder de imaginar melhor". E temos, acrescentava, o poder de utilizar "o nosso estatuto e influência para levantar a voz em defesa dos que não têm voz".

É um discurso muito marcado pela memória dos seus fracassos e sofrimentos, ao ponto de dizer que, sete anos após se ter licenciado, tinha falhado de uma forma épica. "Um casamento excepcionalmente breve tinha implodido, estava sem emprego, era mãe sozinha e era tão pobre quanto é possível ser pobre na moderna Grã-Bretanha, sem ser uma sem-abrigo."

Nunca perdeu a memória daqueles tempos negros e em Setembro de 2008 doou 1,26 milhões de euros ao Partido Trabalhista inglês, por ter invertido a tendência da pobreza infantil na Grã-Bretanha e por se ter oposto aos planos de desagravamento fiscal para os casais avançados pelos conservadores. J.K. Rowling considerava estas propostas "prejudiciais para as mães solteiras" e referiu que tudo aquilo lhe fazia lembrar "o governo conservador que sofri" quando era uma mãe sozinha e sem outros apoios.

Levar o melhor debaixo do braço

Por isso escrevia com dor. O jornal inglês "Sunday Times" revelava em Março do ano passado que J.K. Rowling passou por um período tão depressivo que pensou suicidar-se pouco depois da separação. Citada pelo jornal, Rowling dizia que o que a levou a pedir ajuda foi a filha. "Ela era qualquer coisa que me pertencia, que me ajudara a crescer e eu pensei que aquilo não estava certo. Ela não podia crescer comigo naquele estado."

Na sua página oficial, J.K. Rowling recorda que "tinha a esperança de, ao regressar de Portugal, levar debaixo do braço um livro terminado, mas o que levei foi ainda melhor: a minha filha. Apesar de o casamento não ter funcionado, deu-me o melhor da minha vida".

É uma confissão singular de uma mulher cujos livros já venderam perto de 500 milhões de cópias em todo o mundo e estão traduzidos em mais de 60 línguas. Com uma fortuna pessoal estimada em 705 milhões de euros, J.K. conseguiu em Portugal o primeiro e o mais querido dos seus tesouros. A filha que partilha com um português chamado José Arantes. Chama-se Jessica. Se fosse rapaz teria sido baptizado Harry. Potter teria de procurar um outro nome próprio.

Toru Yamanaka/AFP/Getty Images

O rasto fica e cola-se à pele. Não há-de ser de forma impune que alguém passa um tempo marcante da sua vida num país, numa cidade, onde ama ao ponto de construir o seu primeiro casamento, onde pela primeira vez dá à luz e de onde parte com a humilhação na alma e a infelicidade estampada no rosto. Há passados que não se esfumam e, por isso, não têm faltado as tentativas de descobrir referências a Portugal nas histórias de Harry Potter. Algumas são óbvias, como a dedicatória em "O Prisioneiro de Azkaban". As destinatárias são Aine Kiely e Jill Prewett, a irlandesa e a inglesa que partilharam casa com J.K. Rowling no Porto e a ajudaram nos momentos mais difíceis do seu casamento. Ao descrevê-las como "madrinhas do Swing", Rowling parece estar a referir-se à discoteca junto à rotunda da Boavista que as recebia nas noites portuenses.

No livro "J.K. Rowling - Uma Biografia", Sean Smith avança com conexões portuguesas assentes em interpretações mais ousadas e nunca confirmadas pela escritora. Uma delas é a que associa o título "Harry Potter e a Pedra Filosofal" ao poema "A Pedra Filosofal", de António Gedeão, celebrizado por Manuel Freire. A tese de Smith é a de que, conhecida de cor por todos os estudantes portugueses, a canção faria parte do imaginário de Jorge Arantes e, por extensão, não poderia ser desconhecida de Rowling numa altura em que trabalhava aquele primeiro volume da série.

Circula na Internet uma outra associação com uma forte carga simbólica. Assim, no volume "A Câmara dos Segredos", aparece Salazar Slytherin entre os quatro feiticeiros fundadores da escola de magia de Hogwarts. Para o académico inglês Christopher Rollason, ex-professor da Universidade de Coimbra, esta é "uma referência evidente ao ditador fascista António de Oliveira Salazar".