Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

O reverso da solidariedade

Um empresário de origem italiana, bastante conhecido em Puerto Cabello, foi também raptado e apareceu morto no seguimento de uma operação policial mal sucedida.

Julho não trouxe dias normais para Puerto Cabello. Quando António e Carlos já estavam sequestrados, um empresário de origem italiana, bastante conhecido na cidade, foi também raptado e apareceu morto, no seguimento de uma operação policial mal sucedida. O comandante da polícia local acabou por ser afastado e a insegurança era o tema que dominava as manchetes dos jornais e as aberturas dos noticiários locais.

A diocese e a Câmara de Comércio de Puerto Cabello chegaram a organizar uma «marcha pela paz, pela justiça e pela vida», em protesto pelo assassinato do empresário italiano e pelo sequestro dos dois portugueses. A manifestação pacífica terminou com uma missa, na qual o bispo Ramon Pinzon apelou à libertação dos comerciantes madeirenses.
João Benfica, dono de uma bomba de gasolina na cidade e apresentador de um programa semanal chamado «Portugal e Venezuela», na Rádio Puerto Cabello, soube do rapto dos seus patrícios pouco depois da família ter sido contactada pelos sequestradores. É uma cidade pequena onde tudo se sabe.

«Nem preciso de me informar, a notícias chegam-me», explica, tranquilo, sem nunca tirar a boina que lhe esconde a calvice e lhe dá um ar distinto. Tem 64 anos, 48 vividos na Venezuela, os últimos 40 em Puerto Cabello, e não se lembra de uma história como esta na cidade, muito menos envolvendo conterrâneos seus.

O caso mobilizou a comunidade portuguesa, pois os familiares dos dois emigrantes tiveram que pedir dinheiro aos amigos e conhecidos para pagar o resgate. Nestes casos, a solidariedade não falta. «Quando é preciso ajudar, os portugueses ajudam-se, porque amanhã podem ser outros a necessitar», explica Humberto Nascimento, presidente da Câmara de Comércio Luso-Venezuelana, sedeada em Valência, a capital do Estado de Carabobo.

Uma entreajuda que, ironicamente, acaba por ser prejudicial: «Há a ideia de que os portugueses sempre conseguem pagar [os resgates], com dinheiro seu ou emprestado, por isso tornam-se mais vulneráveis aos sequestros», considera o comissário José Perez.