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O que resta quando a stôra tira a roupa?

Confusão e um debate nacional sobre quem pode aparecer despido em revistas masculinas.

Ricardo Marques (www.expresso.pt)

Seis fotografias, nove horas de trabalho e muito pouca roupa chegam para mudar a vida de uma pessoa. Bruna Real, de 27 anos, que surge nas páginas finais da última edição da "Playboy", passou de anónima professora de música em Mirandela (afastada da escola pela autarquia) a estrela nacional, cobiçada por jornais e televisões. Pelo caminho, tão rápido como uma semana, fez disparar as vendas da revista e abriu uma ferida na sociedade portuguesa. Afinal, quem é que pode ficar sem roupa sem se arriscar a ficar sem emprego?

A lista de profissões de todas as modelos que já posaram na edição portuguesa dá algumas pistas. Bruna Real foi a primeira professora a aparecer nua, mas nas 14 edições houve páginas suficientes para três bailarinas, seis estudantes, uma fisioterapeuta, uma lojista, uma esteticista, uma operadora de caixa e uma assistente de vídeo. No entanto, modelos e actrizes foram as mais comuns.

A palavra-chave é sempre a mesma: 'consequência', seja qual for o ramo de actividade, e Bruna sabia-o. "Ela estava com algum receio, mas não esperava uma coisa assim", contou ao Expresso Cláudia Silva, a loura que aparece nas páginas com Bruna. "Fiquei chocada", admite a modelo brasileira. "Já fiz dois ensaios da "Playboy" no Brasil e era tratada como estrela, com glamour. Dava autógrafos, fazia digressões. Aqui, na mesma semana, aprovam o casamento gay e 'apedrejam' a pobre rapariga."

As fotografias foram feitas em Almada, num domingo, entre as 9h e as 16h, por cerca de 700 euros. O resultado apareceu nas últimas páginas da revista, quase escondido, sem direito a chamada na capa e sem que as modelos fossem identificadas.

Mas a edição de Maio, a 14.ª, esgotou depressa em Mirandela e originou uma corrida às fotocópias. Os pais dos alunos queixaram-se e a autarquia - Bruna é contratada pela Câmara Municipal para dar aulas de música no programa de actividades extra-curriculares - transferiu a modelo para o arquivo municipal.

"Há uma relação de oposição entre o estatuto da professora e a representação pública da revista", explica José Rebelo, do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE. "A escola é vista como prolongamento da família e espaço de educação das crianças, um meio mais fechado e até conservador. O contrário da "Playboy". É fácil perceber que a revista encoraje este antagonismo, que o faça jogar a seu favor. Quanto a ela, desconheço as motivações. De que outra forma uma jovem professora de música da província seria falada a nível nacional? Mas há consequências".

Algumas não são boas. Cláudia Jacques, a relações públicas que foi capa do número 2 da "Playboy", perdeu o emprego de vendedora numa marca de roupa. Não prestou declarações ao Expresso por ter um processo contra a revista por alegada falta de pagamento do cachê. Já Rita Mendes, apresentadora e DJ, confessa que não ligou muito ao caso de Bruna. "As pessoas devem fazer o que querem, mas conscientes das consequências. Eu até tive mais ofertas de emprego".

Manuel Curado, professor de Filosofia na Universidade do Minho, leva a discussão a um novo patamar: "A nudez artística não significa o abandono da privacidade. Estamos perante uma chocante manifestação de atentado aos direitos civis da professora, de intromissão no direito à livre disposição do corpo e de pressão sobre uma publicação periódica", diz.

A Playboy reagiu durante a semana, apoiando Bruna Real e considerando o seu afastamento injusto. Bruna manteve-se em silêncio. "Não faço declarações", disse ao Expresso. Cláudia, a companheira de fotografias, não resiste a um conselho. "Se fosse comigo, tirava o máximo partido disso. Ela está a ter os 15 minutos de fama, tem de aproveitar. Eu no próximo mês ia fazer uma capa. Pode crer."

Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Maio de 2010