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O que diz Dulce

Viveu com Dinis Machado até à morte do escritor, cantou com Lopes-Graça, formou-se em economia e foi bibliotecária. Quase a fazer 81 anos, Dulce Cabrita recorda a vida com o inventor de Molero.

Valdemar Cruz (www.expresso.pt)

Chega um homem e faz uma pergunta. Está uma mulher e oferece uma resposta. "Sofre muito quando canta?" "Esfrangalho-me toda." Fixam-se os olhares presos por um sorriso. Ele nunca a ouviu cantar. Ela não sabe ainda o que diz Molero.

Dulce é uma mulher com 58 anos.

Vê-se livre e isenta, embora lhe cavem a alma cicatrizes de uma ou outra paixão difícil.

Dinis, um pouco mais velho, é umviúvo recente. Disponível, arregala os olhos para a hipótese de um mundo novo. Ainda não o sabem, mas acabam de dar um passo sem retorno. Não o adivinham,mas estão amarcar encontro com futuros novos.

Dulce Cabrita, cantora lírica, economista de formação, bibliotecária de profissão, e Dinis Machado, escritor, jornalista, poeta da vida, contador de histórias sem fim, cruzam-se por acaso a meio de um jantar de uma noite incerta da Lisboa de meados dos anos 80. Amigos comuns são a causa involuntária daquele encontro inesperado, pouco tempo depois retomado durante uma sessão de fotografias no Jardim da Estrela. Ela precisava de uma foto para a capa de um disco. Ele queria uma foto para a badana de um livro. Com capa e contracapa começava um namoro só interrompido com a morte de Dinis, no dia 3 de Outubro de 2008.

Passado um ano, o mar de serenidade espelhado no rosto de Dulce oculta os 80 anos desta mulher com uma voz feita metáfora do nome. Durante anos, fez dupla com Fernando Lopes-Graça. Ele ao piano, ela a cantar as canções de um dos mais notáveis compositores portugueses contemporâneos.

Ao abrir a porta do seu minúsculo apartamento na Rua Pinheiro Chagas, em Lisboa, ao lado da Maternidade Alfredo da Costa, Dulce despoja-se das memórias possíveis de uma vida em comum com o escritor.

Se o sorriso é constante, se a disponibilidade é total, se a voz dá um colorido novo a histórias antigas, nada disso a faz jamais esquecer a impossibilidade de romper a cortina, sempre ténue, capaz de definir fronteiras. Há um espaço de reserva. É seu e do Dinis, que assim nomeia o homem com quem viveu nos últimos 23 anos.

Um quarto, uma sala pequena, uma cozinha, uma casa de banho. Está ali, naquele 5º andar, o mundo todo de Dulce. O corredor, a sala, o quarto estão grávidos de livros marcados pela passagem do tempo. É preciso conquistar espaço para circular.

António Pedro Ferreira

Ao lado da janela com vista para a rua, a poltrona onde se sentava Dinis Machado.

É um espaço abençoado pelo sol e uma luz intensa e constante. Dinis passava ali horas a ler ou a congeminar as crónicas com que pontuava a sua passagem por diferentes jornais. Deixou escritos memoráveis no jornal "A Bola", no "Jornal de Notícias", no extinto "O Jornal". Dulce tem tudo arquivado.

Tudo guardado em pastas organizadas com a precisão de uma profissional.

Da memória de Dinis fica não apenas a cova funda na poltrona agora solitária. Dulce ocupa-a às vezes e não fica a perceber-se se essa não é antes uma forma de, por instantes, voltar ao regaço do companheiro. Orgulhosa dos seus quase 81 anos e domodo desprendido como os vive, Dulce Cabrita acha-se nova e proclama-o com gosto. Há uma vivacidade desafiadora no seu jeito de desfiar o novelo de uma memória sólida, no modo como se movimenta, segura e às vezes com graça. Há uma disponibilidade luminosa a moldar-lhe os lábios e a perfeita dicção das palavras ditas. Há nela uma força vinda muito lá de dentro, muito arrancada às entranhas, que a faz saborear a altivez de quem sabe ter o poder de controlar as emoções.

Esse é umjogo jogado em cada instante.

Há uma luz diferente no olhar quando evoca o seu Dinis e o nosso Dinis Machado.

Logo aí, no modo como se lhe refere, constrói uma distância e uma diferença.

Há uma cumplicidade implícita naquela forma de se referir a umhomem respeitado por uma obra passível de se esgotar num livro aos olhos da contemporânea vertigem pelas construções simplistas. "Dinis sabia ser muito mais do que o homem que escreveu 'Molero' e nunca quis ser ummanipulador de novos Moleros, com esse ou outro nome", diz Dulce. Os desafios, os convites à repetição da fórmula capaz de gerar gordos cifrões eram constantes. Para desgosto de Dinis, o homem que soube dizer não.

Organizada, meticulosa, Dulce conserva em pastas os trilhos da vida vivida. Data após data, concerto após concerto, ali fixa os numerosos recitais dados ao longo da sua carreira. Rigorosa, indica os nomes das obras interpretadas, dos compositores, mesmo de outros intérpretes que com ela tenham partilhado o palco, as datas das gravações na antiga Emissora Nacional, na RTP, ou as referências aos diferentes discos.

Recorda o primeiro recital gravado na EN, em 1964, o primeiro concerto com Fernando Lopes-Graça, em Julho do mesmo ano, o primeiro recital público, em 1965, a participação na ópera "Porgy and Bess", de Gershwin, em 1973, no Teatro São Carlos.

A formação como bibliotecária empurrou-a para uma sábia manipulação de informações por norma perdidas com o correr dos dias. Naquelas pastas espalhadas pela sala, pelo quarto, quase sempre envoltas em sacos de plástico, estão as crónicas de Dinis Machado tal como foram publicadas nos diferentes jornais, tal como as suas mãos as escreveram, tal como a mão deDulce as deixou, com a sua letramais redonda, mais alinhada, mais legível. Dinis nunca usou computador e emmuitas fases até amáquina de escrever dispensava. Por isso, considerava ter partilhado com Dulce a escrita de "Reduto Quase Final", um livro escrito à mão por Dinis e depois passado a limpo, à mão, por Dulce. Motivo bastante para o verem como o filho de ambos que nunca tiveram.

Dulce Cabrita, nascida no Barreiro a 17 de Novembro de 1928, nunca foi mãe. Gosta de crianças, mas não lhe fizeram falta na vida quotidiana. "Há mulheres que não se sentem realizadas se não gerarem um filho, mas eu não vivo com esse complexo", diz.

Tem hoje o apoio dos sobrinhos e mantém uma importante retaguarda no Barreiro.

Com uma infância marcada pelo irmão cinco anos mais velho, o depois conceituado fotógrafo e cineasta Augusto Cabrita, também ele um apaixonado pela música, Dulce, tal como a irmã, Maria Amélia, frequentou o Colégio Barreirense, propriedade de uma tia professora. Concluído o então quarto ano, transfere-se para o Liceu Maria Amália, em Lisboa. Está com 14 anos e inicia uma grande mudança de vida. Já então o desejo do canto a acompanhava emcada instante, "influenciada pela loucura muito grande do Augusto pelo jazz. Era a época do boogie-woogie e dos discos do Gershwin", que o irmão sempre possuía em primeiro lugar.

Cantar era em Dulce tão natural como respirar.

Desde miúda, todos lhe notavam uma grande apetência para usar as cordas vocais e explodir na emoção do canto. Se na adolescência constrói uma espécie de reportório centrado nas canções do jazz norte-americano, é com a entrada no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF) que tudo muda. Optara por Económicas "pela facilidade do exame de admissão e por ser boa aMatemática e Geografia, mas sem ter qualquer motivação especial para frequentar" umcurso tirado com grande facilidade. "Houve cadeiras que concluí com notas elevadas, mas não me lembro de gostar daquilo." Talvez por isso, nunca exerceu a profissão de economista. Acaba mais tarde por tirar o curso de bibliotecária, e durante 27 anos a biblioteca do ISCEF torna-se o seu local de trabalho. Por ela passam gerações e gerações de futuros economistas e futuros governantes do país.

Economia proporciona-lhe a oportunidade de participar no coro misto da faculdade, dirigido por Friedrich Verner, em simultâneo director do Harmonia, um coro feminino de câmara, exterior à escola. É ali que Dulce vai começar a construir uma carreira sólida.É a partir do Harmonia e do apoio de uma amiga, Fernanda Losa, que chega ao conhecimento com Fernando Lopes-Graça.

É noHarmonia que pela primeira vez grava umdisco com canções de Graça do "Cancioneiro de Natal", dirigidas pelo compositor.

Dulce Cabrita cultiva uma certa ideia de prazer associado ao trabalho, e isso desemboca numa relação directa com a dedicação ao canto, uma forma de trabalhar sem que o corpo o sinta ou o espírito o pressinta.Ocanto define-lhe a vida e empurra-a para universos vários, às vezes surpreendentes, como o decorrente do ocasional encontro com Dinis Machado. Tudo começa com um convite para jantar em casa da fotógrafa Ana Esquível, amiga de Dulce e mulher do então presidente da Associação Internacional de Gastrenterologia, Carrilho Ribeiro, que se preparava para realizar um congresso internacional em Portugal em cujo programa pretendia introduzir a voz de Dulce. A meio do jantar, há um telefonema. Anuncia-se a iminente chegada de Dinis Machado.

Primeira atrapalhação de Dulce. Sempre tão ciosa das suas leituras de autores portugueses, não tinha ainda lido "OQue DizMolero", o grande sucesso do escritor. Dinis aparece já no final da refeição. Feitas as apresentações, oferecem-se palavras. A Dinis só ocorre perguntar a Dulce se sofre muito quando canta. A Dulce só ocorre responder a Dinis que se esfrangalha toda. Seja o que for que isso signifique. Em sobressalto, os dois prosseguem em diálogo. Ela confessa-lhe nunca ter lido o livro de que todos falam. Ele confessa-lhe nunca a ter ouvido cantar. Em fim de cavaqueira, ele oferece-se para a levar a casa. Ela agradece, mas não precisa. Tem carro. Então, pede-lhe ele que o leve ela a casa. Não tem carro. Dulce aceita. Pelo caminho, Dinis pergunta-lhe se é casada. Não. Nunca casou. Despedem-se.

Dulce cabrita com Fernando Lopes Graça

Dulce cabrita com Fernando Lopes Graça

Augusto Cabrita

Mal fica só, Dulce liberta uma gargalhada.

Não sabe porquê, mas dá consigo à gargalhada.

Voltam a encontrar-se um mês depois, no Jardim da Estrela, para uma dupla sessão de fotos. Um lençol faz de reflector de luz, e o escritor e a cantora revezam-se a segurar o pano. Riem-se muito. Encantam-se muito. Enamoram-se muito.

Iniciam uma vida em conjunto em 1985 e acabam por partilhar essa vivência ao longo de 23 anos na casa de Dulce. Agora, numa tarde ensolarada de Outubro, sentada ao lado da poltrona sempre ocupada por Dinis Machado, Dulce fala de "um antes e um depois de o ter conhecido. Antes dele tive uns problemas muito difíceis de digerir e havia toda uma vida de alegrias e sofrimentos.

Com ele foi tudo muito simples. Não tivemos qualquer dúvidaemnos ligarmos", mesmo se para ambos estava presente a noção do sofrimento de Dinis após amorte damulher, Marília, ocorrida um ano emeio antes.

Os detalhes de uma vida fazem-se de pequenos episódios às vezes sem grande importância.

Despontam em Dulce outras recordações.

Impõem-se as imagens da casa alugada em São João do Estoril, que os recebia aos fins-de-semana e onde Dinismuitas vezes iniciava a escrita. Há um ponto do calendário que ela não esquece. Dezembro de 1998. Dinis Machado "aparece com vontade de escrever um livro". Começa a germinar o "Reduto Quase Final". Foi "um livro de amor", diz Dulce. Dinis já não usava máquina de escrever. Durante a noite escrevia com a sua caligrafia difícil, incerta, pouco legível. De manhã entregava os originais a Dulce, e a bibliotecária aproveitava todos os tempos livres para lhes dar nova forma com a sua letra redonda. Em cada folha escrevia as exactas letras acondicionáveis numa folha impressa.

Debatia-se depois com as emendas de Dinis e a necessidade de voltar a escrever tudo de novo. Ecoam ainda naquela sala as palavras do escritor ao comentar o trabalho partilhado na concepção de "Reduto Quase Final": "É como se eu fecundasse em ti, meu amor, o filho. É o nosso filho." Tanta paixão a escorrer de palavras tão lisas. E Dulce a bordá-las na memória e a afirmar-se também ela uma mulher de paixões.

O Outono passeia-se lá fora disfarçado de Verão. Cai a tarde e desperta o cansaço.

Porque são muitas as narrativas, porque é grande a vida vivida, porque o dizer não é apenas uma forma de construir frases novas.

É quase sempre um regresso às emoções, às alegrias, às mágoas, ao pesar do adeus. Essa tristeza sem nome revisita-a e acompanha-a na evocação dos últimos e doridos anos de vida de Dinis. A doença diminuiu-o. A doença condicionou-lhes as vidas. A doença é um fardo a pesar e a ensombrar a memória dos dias felizes.

Se a melancolia desponta, Dulce combate-a de frente. Adora conduzir. Pega no carro, sintoniza a Antena 2 com o volume de som bem alto e parte. Vai estrada fora a despejar depressões. Deixa-a triste a família por já não a deixar conduzir até ao Algarve.

Fica-se por viagens mais curtas. Por exemplo, até Algés, para se encontrar com uma amiga. A velocidade, a música clássica, a sensação de poder com o volante nas mãos transfiguram-na. "Fico óptima." Fica outra. Fica nova. Fica diferente. Renasce.

Os 80 anos proporcionaram-lhe a tranquilidade de quem aceita o despojamento total. Não quer glórias. Não quer mais o palco. Basta-lhe cuidar do legado de Dinis

Basta-lhe a memória. Basta-lhe o amor.

Basta-lhe o silêncio.

Texto publicado na revista Atual de 14 de novembro de 2009