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O Presidente da mudança

Os mexicanos escolhem este fim-de-semana o seu novo Presidente. Ao fim de quatro anos de mandato, Vicente Fox ficará para sempre na história do México como o Presidente da mudança.

Vicente Fox Quesada, que deixará a Presidência em Dezembro, tem um lugar garantido na história do México como o primeiro que conseguiu pôr termo ao monopólio do cargo pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI). Não foi um grande estadista, frustrou as esperanças da maioria dos seus eleitores, mas os mexicanos agradecem a lufada de ar fresco que este gigante de dois metros de altura, mais à vontade no campo e a cavalo que nos gabinetes, introduziu na vida política nacional.

Estudante medíocre, fez uma fulgurante carreira na Coca-Cola até a atingir, em 1975, o cargo de Presidente da companhia para toda a América Latina, que abandonou em 1979 para criar o seu próprio grupo empresarial. Membro desde 1988 do PAN, partido conservador e católico que foi durante meio século a única força de oposição ao PRI. Eleito governador do seu estado natal de Guanajato em 1995. Avesso a toda forma de disciplina partidária aplicou na política as técnicas empresariais e publicitárias aprendidas na Coca-Cola.

Em 1999, anunciou a sua candidatura à Presidência afastando sem dor nem piedade o candidato oficial do PAN. Define-se como «de centro esquerda leve», campeão de «um desenvolvimento económico de rosto humano» prometeu fomentar a iniciativa privada, o comércio livre e os investimentos privados para criar 1,3 milhões de empregos, reformar em profundidade a administração pública, acabar com a corrupção, o crime organizado, o tráfico de drogas, por os salários mexicanos ao mesmo nível que os norte-americanos e convencer os EUA a pôr em prática a livre circulação de pessoas e bens, prevista no Acordo de Livre Comércio da América do Norte.

Tomou posse em Dezembro de 2000 num clima de euforia popular e logo depois criou uma «Comissão de Transparência» para investigar os crimes e violações dos direitos humanos perpetrados nas décadas anteriores (nomeadamente o massacre de estudantes de 1968). Criou também o marco jurídico para resolver o conflito de Chiapas que opunha desde 1994 o movimento indigenista do subcomandante Marcos as autoridades federais.

Sem maioria no Parlamento e com um gabinete heteróclito, formado por pessoas escolhidas em função de simpatias ou antipatias pessoais mais que por critérios de experiência e competência, Fox revelou-se totalmente incapaz de negociar os apoios necessários para legislar e fazer aprovar os seus projectos de reformas. A um primeiro ano de mandato promissor, sucederam anos «pantanosos» salpicados de escândalos e incidentes diplomáticos causados pela intemperança verbal e a arrogância do Presidente Fox.

A amizade pessoal de Fox com a família Bush não significou nenhuma mais valia para as relações com os EUA mas provocaram a ruptura da tradicional amizade com Cuba e afectaram os laços com o resto da América Latina. De actor respeitado da vida politica internacional, o México ficou reduzido ao estatuto de satélite dos EUA e só o espanhol José Luís Aznar foi o único político europeu que continuou a manifestar algum interesse pelas opiniões do seu homologo mexicano.

Apesar de católico militante, divorciado e pai quatro filhos adoptivos casou-se civilmente em 2001 com a sua ex-secretária Marta Sahagun, também divorciada e mãe de três filhos. As interferências de «Martita» nas actividades do Governo, o seu intento de se candidatar a Presidência para suceder ao marido, e os negócios obscuros dos filhos de ambos foram motivos de chacota e chegaram a pôr em xeque a autoridade do Presidente.

Impedido pela constituição de se re-candidatar, Fox acaba sem glória um mandato que se iniciou sob os melhores auspícios. O juízo final sobre os seis anos que passou no Palácio de Los Pinos dependerá em larga medida do nome do próximo presidente eleito e da forma como se efectuara a «segunda transição».